Bom dia! Hoje é mais uma quarta feira, mais um dia,
mais 24 horas pra se viver todas as emoções, sentimentos, mortes e renascimentos.
Temos que tomar os remos e o leme desta grande barca do Destino e ir em frente,
mesmo contra a maré, não importa as ondas revoltas, os arrecifes, os icebergs,
importa que cheguemos ao porto seguro. Uns conseguem, outros, não. Mais
importante que chegarmos, é irmos. Vamos nessa!
QUARTA FEIRA É DIA DE RF traz hoje o penúltimo
capítulo do livro de prosa infanto-juvenil DE CARA SUJA, um dos cinco volumes
que compõem o Projeto Novos Papos, da DCL-Difusão Cultural do Livro. E que você
pode adquirir pela internet na Estante Virtual, Saraiva e outras.
Capítulo 6
(Resumo: Depois de
narrar a farra com Neguinho Robert, Carlos passa a contar com foi se entregando
às drogas a ponto perder o ano escolar, e o momento em que passa a tomar drogas
injetáveis, as tais picadas na veia.)
Sábados e domingos eu sumia. Dormia na casa de
colegas. Ou então passava a noite nas festas e amanhecia na praia. Ou dormindo
num banco de praça. Uma vida desregrada, sem nenhum controle, nada de
disciplina. Uma liberdade dessas é perigosa, porque acaba se voltando contra a
gente. E nos prendendo em suas malhas de chumbo, que nos arrastam para o fundo.
E foi o que
aconteceu. A primeira picada a gente nunca esquece.
Um sábado à noite resolvi encarar
aquilo que deixava todos tão fissurados. Devia ser bom, para todos quererem
daquela maneira. Gastarem seus salários, mesadas, venderem objetos pessoais,
roubarem jóias e valores da família. E alguns tornarem-se mesmo ladrões, apenas
pela necessidade de drogar-se.
“Cesteiro que faz um cesto, faz um cento”, esse
provérbio popular é a mais pura verdade. O difícil mesmo é o primeiro gole, a primeira tragada, a prim eira
cheirada, a primeira picada. A sensação de euforia, de poder ilimitado, a falta
de sono e fome, a agilidade mental, a disposição para enfrentar, a pé, as
maiores distâncias, sem cansar-se, enfim, por tudo isso paga-se um preço alto
demais.
E o preço é a loucura e a morte. Não
tem outra saída.
Depois que comecei a
tomar drogas injetáveis, o dinheiro que eu ganhava naquele emprego do Estado
passou a tornar-se insuficiente para as minhas despesas. Comecei a atrasar o
pagamento da pensão, vendi um relógio, presente do meu pai que ganhei no meu último
aniversário, e até algumas calças e camisas andei vendendo para comprar os tais
psicotrópicos.
Maconha, álcool, boletas e cocaína
acabam com qualquer um. Não adianta o cara ter uma saúde de ferro. Em dois,
três meses a gente fica parecendo cadáver. Não entendo cientificamente os
efeitos que essas drogas provocam. Mas, na prática, elas nos atingem de todas
as maneiras. Sei que cérebro, fígado e dentes são os mais atingidos. Pelo
menos, comigo foi assim.
Depois de quase um ano tomando
regularmente essas drogas na veia, eu não era mais o mesmo. Alguma coisa tinha
mudado dentro de mim, e o pior, eu não sabia o quê. Adoeci, emagreci, perdendo
mais de oito quilos. Tia Júlia aconselhou-me a passar um mês no interior, na
casa dos meus pais. Disse que ia me fazer bem. E que se eu ficasse ali em São
Luís, doente daquele jeito, eu ia acabar morrendo.
Foi o que fiz.
Na casa dos meus pais foi o maior
alvoroço.
– Meu filho, o que aconteceu? Como
você está magro e pálido... – a mãe abraçou-me chorando.
– Acho que é o fígado, mãe –
respondi, sem encará-la.
– Ah, meu filho, você está bebendo?
Pelo amor de Deus, fica longe da maldita bebida. Já não chega a situação de teu
pai?
– O que é que tem o pai? – perguntei enquanto
desfazia a mala.
– Como “o que tem o pai”? Não recebeste a última
carta que te enviei? Nela mandei contar o que estava se passando conosco por
causa da bebida do teu pai – a mãe estava de novo com os olhos cheios d`água.
– Acho que é problema do correio, mãe. Faz um tempo
que não recebo carta nenhuma – menti descaradamente.
Acontece que ultimamente jogava as cartas que meus
pais me enviavam diretamente no lixo. Nem me dava ao trabalho de abri-las. Era
sempre a mesma conversa, os mesmos problemas, as advertências de sempre. Atolado
nas drogas e na companhia daquela turma, não queria tomar nenhum conhecimento
da realidade. Fora das drogas, tudo era responsabilidade, estudo, compromisso,
trabalho. E isso era o que menos a gente queria.
A mãe contou, entre lágrimas e muito desespero, o
que lhes tinha acontecido. Disse que o pai estava bebendo como nunca. Passava,
às vezes, até cinco dias bebendo sem parar.
E que depois de uma dessas bebedeiras, quando foi
prestar contas na Coletoria, onde ele era Agente Fiscal, estava faltando
dinheiro. Para conservar o emprego, teve que vender a casa para repor a grana
que faltava. E agora, depois de velhos, estavam pagando aluguel, coisa que
nunca tinha acontecido antes.
Falou ainda que o meu dissera que jamais gastara
tanto dinheiro com bebida. O que aconteceu foi que muitas vezes ele estava
bebendo e o Coletor passava e pedia dinheiro e não lhe dava recibo nenhum. Que
a culpa do pai foi andar com dinheiro no bolso, em mesa de bar, principalmente
um dinheiro que não lhe pertencia.
Abraçou-me, chorando muito, e pedindo:
– Pelo amor de Deus, Carlos! Vê o exemplo de teu
pai. Fica longe da bebida, meu filho. Isso é a desgraça do homem. Só eu sei o
que passei o que passei na companhia do teu pai, por causa da infeliz cachaça –
minha mãe nem desconfiava que eu estava metido em coisa pior.
Fiquei pouco mais de um mês na companhia dos meus
pais. Só o tempo necessário para me curar e recuperar o peso. Naqueles dias que
passei ali quase não conversava com os velhos. Se não estava na rua, na casa de
parentes, chegava em casa e enfiava a cara nos livros. Era uma forma de me
proteger e evitar qualquer diálogo com eles.
Voltei a São Luís prometendo a mim mesmo que ia
ficar longe daquela turma e das drogas. Estava vendo ao meu redor as coisas
acontecerem. Tanto o que se passou com Brequista e Robert, como o que estava
acontecendo com meu pai e comigo. Álcool e drogas fazem o mesmo serviço sujo:
acabam com o ser humano, ou como o que há de humano no ser.
Durante uns vinte dias evitei me encontrar com a
turma da Praça Deodoro. Eu não tinha nenhum motivo para voltar lá, já que
estava há mais de cinquenta dias sem usar maconha nem nada.
Quando a gente se sente mais forte, aí que o perigo
da queda é maior. Achando que estava a salvo, resolvi aparecer de noite, na
véspera de Natal, na Praça Gonçalves Dias.
A patota era a mesma, cada vez mais firme. De longe avistei Judeu
enrolando um baseado. E estavam lá também os mesmos de sempre: ZL, Beto Reis,
os gêmeos Zé Carlos e Zé Henrique, Ribeiro, e mais uns novatos que eu não
conhecia, inclusive duas garotas.
O ZL foi logo abrindo o bico, mal encostei neles:
– E aí, Carlos, tudo maneiro? Pô, meu, tu ta
legal...
– Oi, pessoal! – respondi de volta. – Estou legal
como, ZL O que você está falando?
– Você está mais presença, meu irmão. Mais gordo,
corado. A última vez que te vi por aqui, cara, tu estava parecendo um
cadáver...
– Pô, ZL, nem me fala. Fiquei supermal, numa pior
mesmo. Tive de ir me tratar lá no interior, na casa dos meus velhos – falei.
– No interior, cara, que legal! Você deve ter
trazido um fumo beleza... – Quem falou desse jeito foi Zé Carlos: o cara só
pensava em fumo.
Eu disse que não tinha trazido, que era arriscado.
Não podia me expor lá no interior, um lugar onde todo mundo se conhece e a vida
de qualquer um é do conhecimento de todos.
Notei que eles não gostaram da resposta. Ficaram
desapontados, pois sabiam que a região onde meus pais moravam tinha fama de ser
uma das maiores produtoras de maconha do estado. Não só das maiores, mas a
própria qualidade da maconha daquela região era louvada pelos viciados. Judeu
resumiu o pensamento de todos, entre baforadas enormes da cannabis.
– Como tu é otário. “Rabo-de-raposa”, “manga-rosa”,
“cabeça-de-negro”, dá pra escolher o tipo de fumo, cada um melhor que o outro.
É tratado pelo índios, cara. Vale uma nota preta.
– Sei, Rei Júdi, mas não deu para trazer – falei
todo humilde e com medo. Já tinha visto Judeu aplicar uma tremenda bofetada na
cara do ZL, por uma discussão sem a mínima importância.
Como sempre, o assunto era drogas. Judeu dissera
que em Londres era o maior barato, tudo liberado. Todo mundo tinha droga de
graça, dada pelo governo. E se podia usar onde quisesse. Na rua, nas igrejas,
nos palácios, na própria polícia. O ZL retrucou: “Na frente da polícia?” Rei
Júdi tinha confirmado: “É, ZL, na frente da polícia”. E ZL: “Não acredito...”
Páá! Numa fração de segundos, com a rapidez de um raio, Judeu levantou-se e
desferiu com força a mão aberta na cara do ZL. Pego de surpresa, ZL ficou fora
do ar por alguns segundos, esfregando o lado esquerdo do rosto com o dorso da
mão direita. E embora eu não visse seu rosto, soube que não havia ódio nele
através da voz, quando se dirigiu a Rei Júdi, quase murmurando: “Que é isso,
cara? O que foi que eu te fiz?” Judeu não deu resposta e começou a assoviar uma
musiquinha maneira e ficou tudo por isso mesmo.
Judeu não aceitou minha desculpa assim sem mais nem
menos, argumentando, depois que parou de assoviar:
– Não deu pra trazer, cara? Tu é frouxo, Mané. Não
trouxe com medo dos “home”, não foi? – Os “home”, aí, era a polícia.
– É, Rei Júdi, foi isso – concordei. E era o melhor
que eu tinha a fazer.
Ficamos um tempo em silêncio, ninguém parecia a fim
de falar nada. Até que o Beto Reis quebrou a mudez geral, olhando direto para
mim:
– Quanto tempo faz que você não aparece por aqui?
– Quase dois meses, Beto.
– Pô, cara, aconteceu cada uma esses dias que você
ficou fora!... Você nem imagina.
– O que, Beto? Alguém foi em cana – perguntei,
curioso.
– Pior, Carlos, se lembra do Osano?
– Sei, claro que lembro. O que houve com ele?
E Beto contou em detalhes, porque estava junto com
Osano, o que havia acontecido.
(NA PRÓXIMA SEMANA O
CAPÍTULO FINAL. NOSSA NARATIVA CHEGA AO
FIM E VAMOS SABER O DESTINO DE CARLOS: CONSEGUIU ESCAPAR DA TURMA OU SUCUMBIU
DE VEZ COMO BREQUISTA, ROBET, OSANO E OUTROS TANTOS QUE PERDEM A LUTA CONTRA AS
DROGAS?)
Raimundo Fontenele
Nenhum comentário:
Postar um comentário