8 de set. de 2020

A MINHA SÃO LUÍS

 


O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) fazem a sua maneira uma singela homenagem aos 408 anos de existência dessa Ilha do Amor, Cidade dos Azulejos, Capital do Reggae, e, por fim, Ilha Rebelde.

Aproveito para vender o meu peixe, que não é serra nem pedra, iguarias que o nosso paladar não esquece, quando com limão e a famosa farinha de carema. Meu peixe é o livro A República dos Apicuns (Crônicas Ludovicenses), a sair no próximo ano, de onde retirei os dois capítulos dessas minhas memórias vividas com e em São Luís.


BONDES, TARDES E GAROTAS

(mas antes teve o Seminário de Santo Antônio)

         São várias as formas e maneiras de se homenagear uma cidade.  Igual a uma mulher amada, podemos fazê-lo com música, canção, poesia, crônica, carta, e até uma declaração ao pé do ouvido. No caso da cidade, uma declaração aos quatro ventos ou aos seus quatro pontos cardeais. E também pode ser falando dela e sobre ela para seus amigos.

         Quando eu cheguei pela primeira vez em São Luís ela ia fazer 350 anos de fundação e descoberta. Um francês de nome Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardiere, chegou primeiro. Eu só cheguei em 1962.

         Que destino, o meu! Vim do interior numa carroceria de caminhão que me deixou justamente na Praça Gonçalves Dias. Eram seis da tarde e os sinos dobravam na torre da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Aquela hora, às vezes,  tristonha e silenciosa, quando se tem 13 anos e se separa dos pais para viver num colégio interno.

         Dali da praça fui ter numa hospedagem na Rua Sete de Setembro, do “seu” Tezinho Santos, cidadão colinense, pai de dois filhos: o Aurélio e um outro que criaria fama e deitaria na cama, com todo justo louvor, o Turíbio Santos, esse grande músico erudito maranhense que ganharia os palcos  mais seletos da Europa culta e de todo o mundo civilizado, enfim.

         São Luís sem a ponte José Sarney, mas com seus barcos que nos levava até o São Francisco, onde só havia casebres e choupanas, pescadores e lavadeiras, e a Praia da Ponta d´Areia.

         Os bondes pela cidade, o bonde da Rua do Passeio, até o Cemitério do Gavião, o da Praça Gonçalves Dias e Igreja dos Remédios, onde me casaria no início dos anos 70, passava no Canto da Viração e seguia a Rua Rio Branco até seu destino final, e o bonde que seguia até o Filipinho. O da Rua Grande que dava a volta e seguia pela Rua Afonso Pena.

         Essa São Luís que não existe hoje, mas que vive intacta na lembrança dos que a conheceram, no coração dos amantes daquela época, na mente dos poetas que a cantaram então, ainda a cantam e no futuro mais remoto, a cantarão, cantarão, cantarão...

         No Seminário de Santo Antônio na Praça Antônio Lobo, próximo à Escola Modelo, conheci a primeira fruta mais exótica, antes do Açaí: tinha um pé de Abricó no quintal do Seminário, e havia também uma fonte de água límpida onde nós, seminaristas, tomávamos nosso banho após o jogo de futebol e os exercícios físicos, isso por volta das cinco horas da tarde. A fonte que serpenteia o subterrâneo da cidade, fazendo história, a Fonte do Ribeirão e a Fonte do Bispo.

          E desta cidade não me afastei nunca. Mesmo agora, numa distância de cinco mil quilômetros, aqui em Porto Alegre, é essa São Luís que faz meu coração parecer um bumbo noturno, um tambor de crioula batucando notas da mais sôfrega e pura saudade de outras delícias que a cidade oferecia.

         As lindas garotas distribuídas naquele quadrilátero da Praça da Biblioteca: as do Liceu Maranhense com suas saias azuis e blusas brancas; as do Colégio Rosa Castro, de saias cinzas e blusas brancas; as do Colégio Ateneu, com suas saias marrons e blusas brancas, e as meninas que subiam a Rua Rio Branco vindo do Colégio São Luís, com saias azuis e blusas amarelas.  Amores e cores, que presentes poderiam haver mais belos que esses que nos eram ofertados por essa mágica e querida cidade de São Luís, com seus azulejos e mirantes?


1967 FOI UM ANO BOM

         O ano era o de 1967. Minha segunda chegada a São Luís, a segunda descoberta, a segunda e quase interminável temporada que ajudou na minha formação de jovem e poeta. E militante estudantil de esquerda. E que me jogou, depois, nos braços do movimento hippie.

         Mas vamos por partes, tipo Jack, o Estripador. O ano de 1962, que passei em São Luís, passei-o confinado, como interno, no Seminário de Santo Antônio.  Pouco conheci da cidade, a Rua José Bonifácio, uma casa próxima à Beira Mar onde passei alguns domingos.

         Nós, estudantes do interior, tínhamos as madrinhas, senhoras beneficentes que apoiavam o Seminário de diversas maneiras, e uma delas era receber seminaristas em suas residências, dar-lhes um pouco de afeto e carinho, até mesmo amor, em alguns casos, para compensar a solidão e falta que nos fazia a casa paterna.

         Lembro que fomos num passeio conhecer Alcântara. De barco. Enfrentando aquelas ondas altas e o mar bravio e nessa travessia muito de nós sucumbiu ao enjoo, e numa expressão usual quase botamos “as tripas pela boca”. Eu fui um deles.

         Uma cidade fantasma. Assim me pareceu Alcântara naquele longínquo ano de 1962.  Os prédios em ruínas, as ruas calçadas de pedras com o mato rasteiro com seu verde dando um pouco de vida àquilo que parecia uma natureza morta.

         Lá, nessa época, e num desses prédios de arquitetura colonial portuguesa, um dos quais fora construído para abrigar a comitiva durante visita do Imperador que, segundo a lenda, não chegou a efetivar-se, funcionava o presídio estadual. Para lá eram mandados os indivíduos para cumprir pena por alguma condenação.

         Passados tantos anos, guardo vivamente na memória a figura de um negrão, era assim que chamávamos um cara de pele escura, o tal afro-descendente do politicamente correto, sim, um negro forte, grande, barba por fazer, mal encarado. Seu crime: assassinara a própria mãe com uma mão de pilão. E é apenas isso que guardo daquele passeio, o vômito no barco e o matricida na cadeia. E claro, a paisagem, os prédios em ruínas, poucas e raras figuras humanas. Gente simples. Humilde. Pobre. Esquecida.

         No fim daquele 1962 os padres que dirigiam o Seminário de Santo Antônio resolveram me desligar do mesmo, achavam-me rebelde, brincalhão, sem verdadeiro espírito de seminarista. Fui assim devolvido à Diocese de Caxias que me enviou em 1963 para o Seminário da Prainha, em Fortaleza, mas aí é outra história, e nada tem de ludovicense nela.

         Então voltemos ao ano de 1967. Cheguei em São Luís com o apoio do Padre Manoel da Penha Oliveira e do Deputado Estadual Luís Rocha. Falo em apoio porque eu era um jovem sem nenhum recurso material, meus pais não tinham condições de custear meus estudos. Eu havia trabalhado nas campanhas políticas do Padre Manoel para prefeito de São Domingos, e ajudado também na campanha do Luís Rocha, e assim eles viabilizaram esta minha nova estadia em São Luís.

         Janeiro de 1967 voltei pra sentir aquele cheio de mar e maresia que era uma marca registrada da Ilha. Fiquei um mês e tal hospedado na casa do Luís Rocha, uma casinha de dois pisos na Vila Iná Rego, lembro do DER ali perto, o Canto da Fabril, território motense, o Estádio Nhozinho Santos e aí em seguida fui morar na Casa do Estudante, mas a gente chamava mesmo era de UMES.  Na Rua do Passeio. Lá pras bandas do Cemitério do Gavião.

         UMES e seus entornos. Vila Bessa. Belira. Lira. Madre Deus. Goiabal.  Nesses bairros, nos fins de semana em companhia de dois amigos, o Pestana e o Davilson, a gente saía procurando as famosas festinhas e as garotas. Renato e seus Blue Caps. E os sucessos “Não te esquecerei”, “Menina linda”, “Ana”, “Não quero ver você chorar”, “Dona do meu coração”. Quase sempre versões das músicas do Beatles. Wanderley Cardoso atacava de “Bom rapaz” e “Doce de coco”; Jerry Adriani tinha “Querida”, “És meu amor”, “Quem não quer”. E o chefe da patota, Roberto Carlos e seu parceiro Erasmo Carlos, a ternurinha Wanderléia.

         E tome Rum Montilla com Coca-cola. Muita agarração, muito chamego, beijos e tal, mas ninguém passava do limite, não tinha esse negócio de pílula anticoncepcional disseminada geral e como dizia a música do Roberto “casamento, enfim, não é papo pra mim”.

         Era o segundo ano de mandato do Governador José Sarney. Um dos governadores mais jovens do Brasil. Pertencera ao grupo chamado Bossa Nova da antiga UDN. Militares no poder, Sarney aderiu e passou-se para a ARENA.

         Justiça seja feita. Naquela época o Maranhão vivia momentos políticos de grande euforia e transformação. Pensávamos, e até certo ponto, que estávamos enterrando o passado junto com a prática vitorinista de governar.

         Sarney chamara jovens entusiastas e competentes para a administração pública. Reinaldo Tavares. Haroldo Tavares. E outros. E uma cabeça pensante, o poeta Bandeira Tribuzi.

         Na educação o Dr. José Maria Cabral Marques, que visitara a Alemanha e o Japão, trouxe ideias, projetos, planos que foram sendo implantados ao longo daquele vitorioso primeiro ano da era Sarney: Projeto Bandeirantes, escolas de nível médio, profissionalizantes; Projeto João de Barro, educação de jovens (fora da faixa etária escolar) e adultos. E, então, o mais revolucionário deles: a TV Educativa, talvez a primeira, seguramente umas das pioneiras em todo o território nacional.

         Depois, bem, depois é depois do qual falarei depois. Mas em 1967 ninguém poderia imaginar que José Sarney iria implantar uma nova era de caciquismo político, apoderar-se, enfim, da máquina pública para satisfazer projetos pessoais e satisfação de grupos que lhe eram fiéis, deixando o Estado após tantos anos numa situação de penúltimo lugar nos indicadores sociais.

         Quanto a mim, morava na UMES, tinha um emprego de Assistente Administrativo na Secretaria de Educação, à época instalada no terceiro andar do Edifício BEM, prédio pertencente ao Bando do Estado do Maranhão, na Rua Tarquínio Lopes, a mesma do Cine Roxy, da Assembléia Legislativa, e do inesquecível Colégio Santa Tereza, reduto de meninas, as mais belas e ricas, e, portanto, mais desejadas, mas inacessíveis para um jovem pobretão como eu. Contentava-me em admirá-las, desejá-las... Estudava, à noite, a terceira série ginasial no Liceu Maranhense, depois chamado Colégio Estadual do Maranhão.  Tinha 19 anos, me arrastara nos estudos, mas estava ali, esperando mesmo o quê? Nem eu sabia.

         Mas, de fato, 1967 foi um ano bom.

 

Texto final:

Raimundo Fontenele

24 de ago. de 2020

DO ABRIGO À PANCADEMIA

 

O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) vão meter sua colher nesta panela de pressão cultural acerca da demolição ou não do Abrigo da Praça João Lisboa, sobre vagas na Academia Maranhense de Letras e coisas da terra do flango flito.


UM ABRIGO AO DESABRIGO
Abrigo da Praça João Lisboa

           Aí o Zezim do Caldo de Cana tava voltando da rua, tinha ido tomar umas marabas; no que abriu a porta da casa, “pombas!”, exclamou ao ver o seu melhor amigo Anacleto da História faturando sua mulher ali no sofá da sala.

         Indignado e em gestos tresloucados e de comediante ensaiando um pastelão, de sopetão  arrastou o sofá jogando o casal no chão e já na rua arrastando o móvel causa de sua desgraça e ruína deixou-o ali junto ao primeiro poste que encontrou. Voltou pra casa e dessa vez entrou pelas portas do fundo e foi dormir o sono dos que se sentem saciados de vingança na casinha do cachorro.

         É o que faz a turma pró demolição do Abrigo da Praça João Lisboa. Nem vou entrar com dilúvios de cateretês e palavras arrancadas das bocas cheias de obscenidades e juridiquês arcaico dos nossos (vossos) ministros do STF. Nem deitar conhecimento histórico-sociológico-antropomórfico do surgimernto do Abrigo, sua construção, os que ali beberam pinga, uísque, abacatada, cerveja, e o saudoso caldo-de-cana, geladinho, quando a gente chegava por ali às três horas da tarde, suando em bicas debaixo de um sol infernal, mas o sol sob o céu de nossa São Luís.

         Escritores, poetas, jornalistas, engenheiros, arquitetos, especialistas, por que não os punguistas?, já deitaram falação sobre o tema.

         O negócio é bem simples. Esse dinheiro que nos chega da UNESCO via IPHAN (certamente já carcomido pelas beiradas) é para a CONSERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARTÍSTICO E HISTÓRICO DE SÃO LUÍS. Não é para demolição de nada, é conservação, seus pensadores com orelhas de burro! Sim, São Luís foi tombada. É tombamento do patrimônio. Será que entendem o verbete no seu sentido laico: tombar é derrubar.

         Querem derrubar, pois derrubem.    

      Um falou sobre ali em torno haver traficantes, o lúpmen, sujeira, urina e fezes, insegurança. O que diabos tem o Abrigo a ver com isso? Quem tem que se haver com tais fatos são os órgãos públicos, de segurança e de saúde.

         Querem derrubar, pois, derrubem: a Igreja do Carmo (o estado é laico), os prédios, tudo enfim, e construam estacionamentos e uma grande sauna gay, pública, mas deixem o relógio para marcar as horas e os séculos da nossa hipocrisia, ganância, ignorância e sordidez. 

 PERTO DO ABRIGO 4 VAGAS NA ACADEMIA


Quando a Academia Maranhense de Letras foi criada por quase que exclusivamente escritores o mundo era outro e São Luís também. Os nomes mais ilustres e representativos das letras maranhenses nela fizeram moradia e fixaram padrões e valores não apenas estéticos, artísticos, filosóficos, mas também morais.

         Por interesses outros foram chegando acadêmicos de pouquíssimas letras, a não ser as de câmbio; pescoços cheios de comendas, medalhas e condecorações foram tomando assento no chá das cinco.

         Agora há 4 vagas e muitos interesses.

         O meu candidato a uma delas é o Poeta FERNANDO BRAGA, escritor irretocável, caráter ilibado (ah isso é requisito para o STF), com uma obra marcante na literatura maranhense e brasileira, páginas e páginas de críticas, ensaios literários, uma vasta produção poética, mas, para quem viu o Nauro Machado aqui e o Mário Quintana lá no Rio Grande serem preteridos tantas vezes a uma cadeira nas Academias de seus respectivos estados, não me espantarei se as 4 vagas forem ocupadas por pés de chinelo da cultura e do livro.

 

TUDO PASSA, ATÉ A PANDEMIA

Pra mim essa Pandemia não existiu como existiu para a maioria, organizações de saúde, governantes, peritos, especialistas, ministros, pois as primeiras cenas que vi daquelas pessoas caindo pelas ruas da cidade chinesa me parecem falsas.

E quanto às mortes verdadeiras mais que uma tragédia da natureza sabia que ali tinha mão humana e olho miúdo por trás das máscaras gananciosas, em busca de poder e lucro.

Cada um que pense como quiser. É livre a manifestação de pensamento e não são os ministros do STF que controlam a minha fala, nem mesma a tal da Constituição, pois o que me controla é tão somente a minha consciência.

Tem tanto angu debaixo desses caroços que vocês vomitariam se lhes chegasse ao mesmo tempo ao estômago e ao discernimento, ao olfato e ao paladar esse prato noticioso que nos foi e é oferecido.

Por isso, só agora o gordinho e negrinho da OMS veio a público dizer que economia e saúde devem andar juntos. Na certa ele sabe que vai lhe faltar dinheiro. O Trump vai cortar e outros estudam a possibilidade.

Por mim, ONU, OMS, OEA, FAO e demais organismos e ONGs inter e nacionais iam todas às favas.

Sou do bloco dos trogloditas, sim. Tenho todo o direito de ser o que bem entender, contanto que não pise, de propósito, no calo de ninguém.

E voltando ao início desse artigo quando disse que a palavra é CONSERVAÇÃO do Abrigo, afirmo, sou conservador, votei e votarei para reeleger Bolsonaro.

Por hoje é isso. E é só.

 

Texto final:

Raimundo Fontenele

6 de ago. de 2020

O ANTROPONAUTA VIRIATO GASPAR

O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) chegam nesta primeira semana de agosto com mais uma matéria para se inscrever nas páginas da atual literatura maranhense.

         Correndo o risco de tornar-me um blogueiro bissexto (bissexto porque tem sido um parto difícil parir uma postagem) fui à cata de alguma coisa essencialmente nova em termos de poesia e acabei chegando ao refúgio deste meu grande irmão e amigo Viriato Gaspar, o poeta tão essencial ao Movimento Antroponáutico quanto os outros 4 que lhe fizeram companhia: Cassas, Chagas Val, Valdelino Cédio e este escriba menor.

         Escrevo isso porque tomei conhecimento de que alguém cujo nome me escapa referiu-se a nós como a geração de Luís Augusto Cassas. É um tremendo erro, engano ou..., deixa pra lá, o próprio Cassas, de quem conheço a humildade humana e a honestidade intelectual refutaria tal assertiva.

A nossa geração é a GERAÇÃO ANTROPONÁUTICA da qual todos nos orgulhamos. Nós afundamos navios de cascos avariados, detonamos velhas pontes de madeira a quem o cupim destroçava, e os grandes nomes da literatura maranhense naquele momento, Nauro, Zé Chagas, Arlete, Jomar, Nascimento de Moraes, Bandeira Tribuzi, Carlos Cunha, Domingos Vieira Filho, Alberico Carneiro e outros nos reconheceram os méritos e nos fizeram as honrarias merecidas, publicando 2 antologias e estendo um imaginário tapete voador por onde desfilamos a nossa tola vaidade juvenil. 

Portanto, o Soco no Muro nesse blog de hoje é o poeta Viriato quem dá.

Poeta Viriato Gaspar

CONVITE

Dancemos.

Agora,

Quando a noite se espicha pelos dias

E as trevas se enredam em cada alma,

Dancemos.

Dancemos,

Agora,

Quando o abraço se tornou uma ameaça

E o beijo é quase uma condenação à morte,

Dancemos.

Mais que nunca,

Dancemos.

Dancemos na varanda, no quintal,

No banheiro, no quarto, na cozinha,

No deserto de cada um preso em sua casa,

Contra o vírus do medo que avança sobre nós,

Dancemos!

E cantemos.

Agora,

Quando há ódios espumando nas esquinas

E mãos que fazem gestos nos matando,

E há tanta raiva vindo pelas telas,

Tecendo teias em cada celular e coração,

Cantemos.

Sim, cantemos!

Mais que nunca,

Cantemos.

Até que o sol acorde e chame a aurora

E possamos entregar nas mãos de nossos filhos

Um mundo que consiga se abraçar

E transmutar em canto, em dança e riso

A dor que desabou em nossos dias

E colocou ferrolhos em nossos gestos,

E pôs medo em nossos braços e sorrisos

E nos distanciou do que já foi nosso melhor:

- O (n)osso humano.

- O Hermano.

Este é o que podemos chamar poema sobre fatos concretos, aí, sim, um poema verdadeiramente concreto, mas nada daquela estética que se chamou concretismo subsiste aqui. Na verdade o concretismo pouco deixou de concreto, em alguns casos soou como um verdadeiro engano, e momentos há em que nada mais abstrato do que muitos dos tais poemas concretos.

E ao iniciar seu poema convidando-nos para a dança, convite repetido outras vezes durante o desenvolver do poema, noto naquilo que está implícito no poema e que é sua grande força, a insuspeitada metáfora invisível, que na verdade é uma dança dos desesperados em meio a um caos, não esqueçam, programada por mãos humanas e tiranas.

Por isso, o poeta Viriato nos convida para a última dança, o último canto, uma vez que todas as outras manifestações foram suprimidas do encontro e do calor humano: o abraço forte e o beijo sincero entre irmãos, amigos, namorados, noivos, casais, companheiros.

É como se o poeta repetisse Jesus com outras e novas palavras: Pai, afasta de mim esse vírus. E não é esse bichinho chinês, é um outro maior, do qual esse corona é apenas um filhote ou uma pequena larva: é o vírus que veio das trevas e das regiões mais sombrias e diabólicas da mente do homem.

DIZER-TE

Repara:

A palavra que dizes

não é a coisa dita.

A pedra nunca é a

própria dita,

pedaço de rocha, sílica,

duramente petra,

nunca rosa.

O sol que encharca o céu

de quanto dizes

inunda de ouros velhos

de outros trigos

a lâmina que ocultas

no que falas:

- quintal de cicatrizes.

A pedra de que falas

voa, plana, pluma,

flama.

Aquece o coração de quem a

chama.

Sempre quando nos arvoramos em crítico ou ensaísta de uma grande arte, como sói acontecer com a poesia de Viriato Gaspar, geralmente nos tornamos menor do que já somos. E por isso costumamos chegar usando uma bengala metonímica na qual nos apoiamos, para, em se caindo, não cairmos sozinhos.

Dei de cara logo com uma semelhança: o uso das palavras pedra e pluma neste poema remeteram-me direto para João Cabral de Melo Neto. Mas não foi só isso. A concisão da fala e dos versos, a dureza metafórica que imprime à linguagem no seu canto mais puro, mais lapidado, mais carregado de múltiplos significados faz deste poema do Viriato irmão dos melhores do poeta pernambucano.

Mas é só isso: “O sol que encharca o céu / de quanto dizes / inunda de ouros velhos / de outros trigos / a lâmina que ocultas / no que falas: / - quintal de cicatrizes.”, embora João Cabral assinasse embaixo, é a quinta essência da excelência formal e conteudística que Viriato imprime em sua arte. Sempre foi assim. Um poeta que amadureceu no duro aprendizado da pedra e que chega à maturidade poética com a leveza da pluma que nos encanta.

MUSEU DE ASSOMBROS

Chegou-me o tempo de chorar por tudo.

Olhar pra trás, doendo as mãos vazias.

Gastar os olhos contra o umbreu dos dias.

Rilhar os dentes, lagrimundo escuros.

Sempre em tudo que amei nada foi cheio.

Houve sempre uma nuvem, um pé de vento,

Um fosco, uma voragem, um de entremeio,

Uma casca entre o fora e o meu mais dentro.

Eis-me chegado ao tempo dos remorsos.

O longo correr-dor dos sonhos mortos,

O re-moer dos rasgos e dos cortes.

Um velho é um mar que foi, e hoje é deserto.

Palpar nas sombras, cada vez mais perto,

O caminhar sutil da Dona Morte.

Não há desespero, nem saudade, nem remorso. Embora fale em remorso, não é um remorso a quem a culpa condena. Aqui Viriato Gaspar pode nadar de braçada numa praia que domina e da qual é um dos melhores do Brasil, o soneto.

“Nada foi cheio”, “um fosco”, “um pé de vento”, “uma voragem”, pois o poeta sempre soube por intuição desde a tenra infância e em sua juventude pelo fazer poético que a vida seria assim mesmo: essa incompletude que o amor humano preenche pela metade. Embora seja a meta de uma vida inteira, o poeta sabe e poderia e diz como outras palavras, ninguém é pleno. Plena é a vida, mas a vida é além do que é humano e por sermos apenas humanos jamais poderemos alcançá-las: a vida e a plenitude.

Cumprir uma sina, realizar um projeto, é isso o que resta. E o nosso amigo Viriato Gaspar cumpre e realiza, não apenas este, mas sonetos e mais sonetos que o fazem ombrear-se com que há de melhor na língua portuguesa, neste mister que é a poesia, esta sim, plena e completa.

A FLOR SEM ASAS

Pensar em ti clareia as minhas sombras,

esparrama quintais pelos meus cílios.

Pensar em ti é resgatar um filho,

dado por morto, ao fundo dos escombros.

Pensar em ti às vezes é uma corda,

que vai puxar-me lá, onde esmoreço.

E se me amarga o azul, é o que me acorda

e me molha de um sol que nem mereço.

Teu nome é como chamo o que me aquece,

como digo luar quando escurece,

e consigo voar quando é só lastro.

O que é belo no mundo traz teu rastro.

Todo bem que consigo, e é diminuto,

fala de ti, é a sombra do teu vulto.

Neste belo soneto A FLOR SEM ASAS, cujo título por si só é um enigmático achado poético, o poeta Viriato Gaspar não esconde a condição humana de buscar constantemente o amor no e do outro. Invoca e chama e se desnuda ao revelar quanta dor se apaziguaria, como seria nutrido de uma nova força que tem o poder de fazer com que do sentimento humano e material brote uma metáfora de tal beleza e que é esta “que me acorda e me molha de um sol que nem mereço”.

Luzidio, brilhante, escorregadio o poeta segue a senda e a sina dos grandes poetas, quanto mais dor, mais amor, quanto mais ausência mais poemas que nos fazem acreditar no renascimento e na cura.

Evoé, Baco, habemos Poeta!

Poemas de VIRIATO GASPAR

Comentários de Raimundo Fontenele

 


6 de jul. de 2020

DIÁLOGOS COM A POESIA

O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) trazem uma entrevista concedida por mim ao jornalista NATANAEL CASTRO, hoje Infoprodutor, com trabalhos relevantes na área digital.
Esta entrevista foi concedida há de cerca de 4 anos, e a gente estava se conhecendo e formando uma parceria que dura até agora, como amigos, e também como responsáveis pelo Blog LITERATURA LIMITE.
DIÁLOGOS COM A POESIA
NATANAEL CASTRO - A poesia sempre foi a sua principal manifestação artística, ou antes, houve um flerte com outros ramos da arte?
RAIMUNDO FONTENELE – Sempre a poesia. Desde cedo, lá pelos oito anos de idade. Com essa idade principiei a leitura da Bíblia, de cabo a rabo, como se diz no jargão popular. Devo muito à influência de minha mãe, que sempre lia pra mim, contos infantis, mundos fantásticos que passei a visitar na imaginação. Mas sempre gostei de música, pintura e escultura. Esbocei alguns desenhos, mas abandonei logo. Enfim, como diz a letra do hino do Flamengo, uma vez poesia, sempre poesia.
NC - A sua geração de escritores é exatamente aquela posterior a queda do Vitorinismo, e coincide com a chegada do Sarney ao poder no Maranhão. Quais eram as expectativas no campo da arte no estado naquele período? Sarney pegou carona na genialidade de Tribuzzi e Nauro Machado? Por fim como era a cena cultural no período da deflagração do Movimento Antroponáutica?
R F- Na verdade, lembremos que o Sarney vinha de uma ala progressista da UDN, chamada de “bossa nova”.  Era visto assim meio de esquerda. Eclodido o golpe militar, em 1964, em seguida sua eleição em 1965, o Sarney foi lá ter com os milicos, como se dissesse esqueçam o outro e pensem neste de agora que quer apenas governar o seu estado e ficar de bem com vocês. E o Sarney alimentava a esperança de maranhenses cansados da truculência vitorinista, daquela forma coronelista de governar. Mais do que tudo Sarney ajudou a mudar a mentalidade: era o Maranhão Novo, “meu voto é minha lei, Governador José Sarney; quando entrar na cabine o eleitor é José Sarney pra Governador”, esses versos da sua música de campanha incendiaram corações e mentes. Havia um êxtase, uma alegria, uma efervescência com sua vitória. E ele correspondeu no primeiro momento: abriu e asfaltou estradas; um salto na Educação com o Projeto João de Barro (educação de crianças e jovens fora da idade escolar), as Escolas Bandeirantes, escolas de segundo grau de cunho profissionalizante, a criação da TV Educativa, uma das pioneiras no Brasil. Modernizou a administração pública, várias empresas estatais foram criadas, naquele momento, não como cabide de empregos, mas necessárias aos vários projetos gestados por grandes cabeças que ele recrutou para o governo. Bandeira Tribuzzi, Haroldo Tavares e tantos outros. A gente acreditava que isso mudaria também o fazer cultural. Na sequencia, como é certo que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente ele tornou-se aquilo que mais combateu. Um Vitorino moderno, sem jagunços e três oitão, mas com práticas cujo resultado era igual: a pobreza do estado, o enriquecimento das famílias, dos amigos, dos apaninguados, o voto de cabresto, a subserviência dos prefeitos, toda essa lástima que se arrastou por mais de cinquenta anos e tornou o Maranhão um estado com o penúltimo lugar nos indicadores sociais, perdendo apenas para Alagoas.

NC - Explique-nos de onde veio o nome do movimento e o que o mesmo propunha no campo da poesia no estado no início dos anos 70?
RF – Com exceção dos poetas Nauro Machado, Bandeira Tribuzzi e José Chagas a gente respirava uma literatura bolorenta, uma coisa de vangloriar-se do passado, a chamada Atenas Brasileira da qual não se queria abrir mão e avançar. Através do poeta Viriato Gaspar conheci o poeta Luís Augusto Cassas, e também o Valdelino Cécio. Em seguida encontramos o poeta Chagas Val. Encontrávamo-nos num bar que havia no canto da Viração, para beber, mostrar poemas e falar sobre literatura. E assim surgiu o Movimento Antroponáutica, cujo nome é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi, que tem um poema cujo título é este. E passamos a cavar espaço nas colunas de jornal, com tanta dificuldade; havia o Jornal do Dia (comprado depois pelo Sarney e que tornou-se o Estado do Maranhão) onde o Jomar Moraes nos dava espaço, e o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), e lá nós tínhamos um crítico de cinema atilado o José Frazão que também nos dava apoio. Mais tarde surgiu o Jornal de Bolso, do Edson Vidigal, de breve existência, mas onde publicamos nossas crônicas e artigos.  E passamos a fustigar, atacar tudo que nos parecia velho e ultrapassado e que devia desaparecer: a Academia, a trova e seus trovadores, os poetas parnasianos com seus versos lamurientos. Com certo exagero, reconheço. Mas também fomos reconhecidos e passaram a prestar atenção e nos respeitar como novos artistas e criadores de um novo tempo ou de um tempo novo, sei lá. Arlete Nogueira da Cruz, Tribuzzi, Nauro, Jormar, o grande e humano Nascimento de Moraes, o Pe. João Mohana, enfim, fomos aceitos no mundo intelectual maranhense. Publicamos então a Antologia Poética do Movimento Antroponáutica. E a seguir fomos convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que nos publicou e mais alguns poetas na antologia Hora de Guarnicê.
NC - Quais foram as consequencias da deflagração do movimento em meio a repressão da ditadura e qual a importância do mesmo para aquela geração no Maranhão?
R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: o governo militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e, só de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque não mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.
NC - O que se faz necessário para que se legitime um movimento literário? Na atualidade onde muito se escreve em meio virtual, em sua opinião o virtual conseguirá um dia transpor a tradição do livro físico?  
RF – No momento nós estamos num processo de mudança civilizatória muito violento. Ao mesmo tempo que tudo parece ameno, frágil, acolhedor, há algo de muito forte, viril, ameaçador. Nem creio que haja espaço para movimentos, como os de antes. Creio mesmo que isso ficou no passado. O mundo virtual prescinde disso. Cada indivíduo, por si só, é, ou julga ser, um coletivo, um movimento, uma revolução, um mundo, uma civilização. Todo o pensamento filosófico, todo o atavismo humano, tudo o que se acumulou durante séculos, quem sabe milênios, todo o inconsciente coletivo, toda a sabedoria, todo o  conhecimento representam o que neste instante? Para muitos, nada. É o fim de tudo e o recomeço de tudo ao mesmo tempo. Quanto tempo, não sei, mas o virtual transporá sim a tradição do livro físico. Não apenas a tradição, mas o próprio livro, o objeto, por mais concreto que ele seja ou queira ser.  
NC - Como foi a decisão de deixar o estado, porque tomou essa decisão, existe uma possibilidade de seu retorno ao Maranhão?
RF - A constatação de que ficar no Maranhão, no meu caso pessoal, era ficar me repetindo. Fazer novos movimentos? O sarneysmo começava a voltar-se para o passado. As coisas não andavam. Era preciso se abrigar sob as asas do serviço público de onde não poderíamos exercer a crítica contundente que os governantes mereciam. Não surgiram editoras e leitores que nos permitissem viver do nosso trabalho de escritor independente. Mas meu amor a esta terra, o interior de onde sou e esta ilha onde vivi tanto sonho transformado em realidade é o que importa. Porém, é difícil o retorno. Saí em 1976 e embora tenha raízes aqui, onde vivo atualmente, em Porto Alegre, no Grande do Sul, também criei raízes. Mas quem sabe do futuro?
NC - Consegue-se viver de literatura nesse país? Fale-nos de suas atividades na atualidade?
RF – Por mais que esse governo do PT alardeie seus avanços na Educação, com programas quase todo visando a universidade, a verdade que é que o ensino vai de mal a pior, pois a educação básica foi relegada a um segundo plano. O governo é pródigo em dar bolsas , cujo critério principal é criar eleitores para o seu plano de permanência no poder. Sem uma boa educação na base que tipo de aprendizado é este dos cursos superiores? A maioria não lê e não pensa. Por isso, o quadro não se alterou muito nestas últimas décadas. Poucos vivem de literatura num país assim. Quanto a mim publico periodicamente meus livros e trabalho com revisão e preparação de textos para a editora de um amigo. No momento trabalho em três livros: um de contos, Pedaços de Alberto Caronte (título provisório), um de ensaios, Um Soco Contra o Muro (ensaios) e Crônicas do Pucumã, um pouco de história do município de São Domingos do Maranhão, onde passei minha infância e parte da adolescência, embora seja filho de Pedreiras, distrito de Marianópolis. Pretendo publicar no próximo ano. Com toda dificuldade, pois o dinheiro da Lei Rouanet é para os amigos do rei e para artistas como Luan Santana, Tico Santa Cruz, Cláudia Leite, gente que ajuda o governo, louvando-o para a massa de seus fãs e ouvintes. 
NC - A sua poesia é tida por muitos como marginal, como você vê esse titulo?
RF - Do ponto de vista deles. Do meu ponto de vista eles é que são marginais, pois estão à margem da minha poesia. Na verdade não existe arte marginal, a não ser nesse sentido que dei. Se ela critica a sociedade, os poderes instituídos (mesmo corruptos, tiranos, etc.) é considerada marginal. Mas do ponto de vista da arte, marginal é também a sociedade que aceita e se submete a um estilo de vida e de governo corrupto e de vassalagem.  Essa pecha é muito mais dirigida ao próprio artista para poder enquadrá-lo, e assim prendê-lo, deportá-lo, matá-lo, calá-lo, enfim. Porque na verdade a arte é um produto da criação humana, das emoções e dos pensamentos, de suas vivências e experiências, e que expressa, em seus signos, símbolos, significados, e até mesmo em sua concretude, expressa, dizia, a magia, o mistério, a beleza, alegria, o sofrimento, o sonho... Só um profundo imbecil para taxar de marginal esta coisa maravilhosa que é a vida humana e suas criações mais genuínas, originais e verdadeiras.
NC - Ferreira Gullar nos fala de sua necessidade de espantar-se para que sua poesia aconteça. Como se dá esse fenômeno no seu trabalho é instantâneo ou existe um laboratório?
RF – Cada um tem sua maneira de ser e de criar. O que é necessário é o talento. Em mim é uma coisa instintiva, igual a certas necessidades que temos: comer, dormir, amar, criar. O que existe é o trabalho de lapidar a criação, como o ourives que faz de uma peça de diamante bruto uma joia encantadora. E no caso da prosa é preciso dedicar tempo e muita disciplina, uma rotina de trabalho, como o expediente em qualquer empresa onde se exerce uma tarefa rotineira e cotidiana.
NC - Dizem alguns que tudo de imprescindível na literatura já foi escrito, o que temos hoje como produção literária seriam apenas ecos desses períodos, nada de novo sob o sol da literatura, qual sua opinião sobre essa afirmação?
RF – É do Eclesiastes essa fala: “Não há nada de novo sob sol”. Está certo. Tudo já foi dito, feito, criado. O que existe é uma forma nova de dizer, fazer, criar, nomear o antigo. Isto faz toda diferença. Se eu dissesse “fímbria” meu avô entenderia e meu neto, não. Mas barra da saia, do vestido, isto o neto entenderia. Portanto, não é pelo fato do sol ser tão antigo que ele deixa de surgir para nós todas as manhãs. Assim, vamos em frente. Até porque quanto mais obtuso e quadrado é o mundo mais necessita crer que tudo é novo, que tudo está começando aqui e agora, pois sem isto a vida e a arte perderiam o sentido. E aí, vamos fazer o quê?

O CARA

Raimundo (Nonato) Fontenele, natural de Marianópolis (28 de agosto de 1948), Pedreiras, Maranhão. Poeta e escritor.
Poesia:
Chegada Temporal – Editora Mensageiro da Fé, Salvador-BA, 1970; Às Mãos do Dia – Editora São José, São Luís-MA, 1972; Presença – Editora Beija-Flor, Curitiba-PR, 1980; Pelos Caminhos Pelos Cabelos – Edição do Autor, Porto Alegre-RS, 1982; A Colheita do Mundo – Editora Seriema, Porto Alegre-RS, 1986; Venenos – Editora Alcance, Porto Alegre-RS, 1994; Marginais – Editora Pucumã, São Luís-MA, 2001; Amores – Editora Alcance, Porto Alegre-RS, 2012; O Troglodita – Editora Alcance, Porto Alegre-RS, 2012; A Via Crucis de Um Poeta Sem Nome – Editora Alcance, Porto Alegre-RS, 2014.
Poesia infantil:
O Brinquedo Bêbado – SoLivros, Porto Alegre-RS, 1995.
Prosa Infanto-Juvenil:
Olho por olho – Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; De cara suja – Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997;Do Oiapoque ao Chuí – Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; Quanto vale sua vida – Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997; O grande culpado – Difusão Cultural do Livro, São Paulo, 1997.
Antologias:
Antologia Poética do Movimento Antroponáutica – Departamento de Cultura, São Luís-MA, 1972; Hora de Guarnicê (Poesia Nova do Maranhão), FUNC-MA, 1975; Sem Pé-nem-Cabeça, poesia marginal, Gráfica São José, Arame – Polo Cultural Ltda, Curitiba-PR, 1978; Antologia do Concurso Mario Quintana de Poesia – tchê Editora Porto Alegre-RS, 1987; A poesia maranhense do século XX – Org. escritor Assis Brasil, Sioge/IMAGO, Rio de Janeiro, 1994.