13 de mai. de 2020

SOCO NO MURO



O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) trazem hoje o trabalho de crítica do escritor e professor Alberico Carneiro, grande nome da literatura maranhense, sobre a minha trajetória poética que ele sempre acompanhou, não apenas por ser meu amigo, nos conhecemos em 1962 no Seminário de Santo Antônio, mas por comungar do pensamento de outros literatos brasileiros, de que a minha poesia vale a pena (mesmo pequena, acrescento com minha natural modéstia rsrs).
Este artigo foi publicado primeiramente no Suplemento O Guesa, do Jornal Pequeno, que o professor Alberico criou e a todos alimentou com a chama da sua paixão pela literatura, pela escrita, pelos romances, pelas poesias, por tudo o que a grande Arte tem de beleza e encantamento. E eis que o encontro agora num site virtual o Oceano de Letras.
O resto, como eu mesmo digo, é socar contra o muro da ignorância humana e da sordidez política. Sejam bem vindos.

RAIMUNDO FONTENELE (64 ANOS DE NASCIMENTO
42 ANOS DE POEMAS)

Artigo de Alberico Carneiro

         Raimundo Fontenele nasceu em Predeiras, MA. Em sua trajetória de mais de quatro décadas de publicações, ele nos lega uma obra literária que é causa de orgulho a todos quantos, dentre os maranhenses, levam a sério o reconhecimento do nome do Maranhão como terra de excelentes artistas. E quando dizemos terra de artistas, estamos falando em algo com letra maiúscula, para que o povo não confunda a palavra artista com a mesma que se usa para designar pessoas que, com suas atividades, promovem apenas distração, diversão ou entretenimento, o que, sem dúvida já é alguma coisa, mas não é a mesma coisa. Assim, quando dizemos terra de excelentes artistas, estamos nos referindo a uma São Luís que pode se orgulhar de pessoas que aspiram a dar ao Maranhão um lugar de destaque, como o fazem Ferreira Gullar ou Zeca Baleiro, por exemplo.

         A obra literária de Raimundo Fontenele não se constitui de inúmeros livros, mas o conjunto de textos que ele assina o impõe como uma das mais expressivas referências da poesia maranhense escrita a partir da década de 1970 aos dias atuais.

         Irreverente, ousado, transgressor, não é um poeta de concessões, louvores, marca quase comum de inúmeros escritores que tanto envergonham a classe, nesta província. A mediocridade sempre carrega consigo esse estigma maldito.

         A poética de Raimundo Fontenele não se parece com os textos de ninguém de sua geração. É um poeta marginal ou, conforme melhor se diz, maldito, desses cujos poemas sempre causam estranhamento e espanto aos leitores acostumados com a contemplação do cultivo de hortas, jardins e pomares paradisíacos, onde não penetrou a insídia da conspiração, da obliquidade e do olhar que lê o amor e o revela como a senda do prazer e da dor. Por isso, já os textos de Fontenele selecionados para a antologia Antroponáutica, publicada pelo então Departamento de Letras, de São Luís, em 1972, estavam marcados por aquela dicção de um poeta que optava pelo desvio do lugar comum, ocupado por aqueles que preferem repetir os passos seculares de uma tradição herdada e, não, de uma tradição marcada pela rebeldia, própria de poucos que fizeram ou fazem o caminho sangrando as mãos, os pés e as mentes.
 
Claro que a aparição desse poeta, em livro, já em 1970, com Chegada Temporal, causou espécie, incomodou a crítica oficial, conquistou a indiferença dos meios acadêmicos. Tratava-se de um poeta que, no mínimo, rompia com a linha tradicional dos conteúdos poéticos, em se tratando essencialmente de uma linguagem que procurava se impor, transgredindo, rompendo, negando. Sim, uma linguagem que se permitia, metalinguisticamente, criticar a tradição, negar a tradição, dizer que a poesia, em essência está além de cânones, estando muito mais na beleza que se expressa melhor através do fluxo natural dos dados imediatos do inconsciente, detonando os padrões de beleza clássica universal.

 E como a tradição não aceita de graça quem ousa se desenraizar e desfamiliarizar, escritores como Raimundo Fontenele sempre pagam um preço doloroso pela autenticidade da produção de uma obra literária que se quer afirmar sem o selo e a chancelaria de uma sintaxe normativa, já que a finalidade primeira desse tipo de poeta é explodi-la.

         Recebi sempre com surpresa, entusiasmo e orgulho os livros que Raimundo Fontenele tem publicado. Cada vez que ele quebrou uma telha, rasgou livros dos medíocres, detonou um sobradão colonial, fez ajoelharem-se os políticos ladrões e hipócritas e os sentenciou à pena de exílio do convívio social, lá eu me senti em comunhão com ele, cúmplice do mesmo santo e abençoado crime que tanto nos irmana, quando se trata de chutar, quebrar, destruir, eliminar todos, que são poucos gatunos, quantos impedem a humanidade de partilhar dos bens e dons da vida, conferidos a todos nós pelo Criador. Sim, a elite dos abomináveis eleitos do Diabo, que aliena o público no particular.

 Então, com imenso prazer releio Chegada Temporal, 1970; Às mãos do dia, 1972; Venenos, 1994; Marginais, 2001, dentre outros.

Hoje, ele nos surpreende, entusiasma e enche de orgulho mais uma vez, com o lançamento simultâneo de duas obras-primas – estes antológicos O troglodita e Amores.

É como um coroamento de uma viagem do poeta em sua circunavegação por São Luís e em exílio. Exílio porque quem verdadeiramente se pode tornar um artista de nome, vivendo aqui nesta província? Meu Deus, raras e honrosas exceções. Costumamos dizer, ficando aqui é melhor morar aqui, mas viver em outros lugares, vivendo aqui. É possível esse milagre?

Certo é que, com os dois últimos livros, o poeta Raimundo Fontenele confirma a conquista de uma poesia forte, humana, singularmente genial. Como poucos ele vem sabendo se impor pelo bom uso do talento que recebeu ao nascer. A maioria joga tudo fora, ou na primeira lixeira de bandalheiras que descobrem nos cérebros. 

Fontes:
Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante. Ano XI. Edição 269. 9 junho 2012.
Foto: http://www.editoraalcance.com.br&nbsp.

Poeta Raimundo Fontenele

         Filnalizo aqui, deixando com vocês este poema do meu livro inédito DIURNIDADE – O LIVRO DAS COISAS.

POEMA DO AMOR DE LONGE

I

Arrancado do pó e do hálito soprado
arrastei-me para o silêncio na madrugada chuvosa,
gotas dágua caíam de um céu pré-existente,
bem antes que o mundo houvesse.
Vieste a mim, por buscar-te
talvez entre as copas das palmeiras,
onde o pássaro cantava.
O amor. Cego assim. Doído ou doido.
Isso e as outras estrelas, tão sujas,
esteladas ou estrelares,
e os teus castanhos olhos, puros.
Fui. Um parênteses. Um combo de coisas
novas, conosco havidas,
assim esta tua sombra a sorrir-me na luz.

II

Não se maldiga da sorte, a morte é passageira,
outra vida te espera muito mais verdadeira,
e de onde nada esperas, eis tua fortaleza.
Eis tua casa forte, teu amor esperado,
a mulher que amaste num longínquo passado,
é a flor que agora colhes no jardim ao lado.

A flor que vira rosa e tem espinhos
que se cravam na carne lentamente.
Não somente na carne, mas também na alma,
e o coração solfeja, num ritmo alucinante,
melodias tristonhas de canções ardentes.

III

Amei a tua boca e os pássaros​,
e os teus lábios de mil novecentos e
sessenta e oito,
ou foi depois?
Frutas no prato. E a tua mesa,
unhas e medos, tudo junto.
Foi-se o domingo e a tarde,
que prometiam tanto.

IV

conchas de cristais
em tua mão de ouro.
contido zelo em
penumbras de aço.
juntar-me a ti, após,
num só abraço.

os lábios sinto
sem as palavras.
o mundo estranho
mudo. só muros
recortando
corpo e alma.

ervas para o chá,
hortelã. e gozo
as primícias do dia.
fugiu de mim a Musa
ardente. oh, noite
temo o seguinte.

nutrir o amor com quê?
sílabas anônimas,
palavras incompletas?
Musa, vê-me o aflito
palpitar do pulso:
é o que ouso. e posso.

os passarinhos, lá fora,
despertam a manhã
como podem. com o
canto. eu, não. a cama
não suporta o que grito:
teu nome em chamas.

Eloi, Eloi, Lamá
Sabactani?

V

a dúvida é duvidar se houve ou há
o mesmo amor de antes, ou se já
tudo passou, se foi ao Deus dará.
sem rima ou remo, só a inominável
dor, lição de versos mudos, onde a
palavra calou todas as falas. pois,
para além do silêncio, tudo acaba
e nada ao tempo resiste, só a fala
tateia entre dentes. a língua? cala.
mas o olho a si mesmo se vê no
vão da sala, onde o espelho me vê.

VI

que maravilha, esse amor. e sete
vidas de gatos, de Jacó, Raquel
e Lia, eu também as daria
em torno a ti. voo de pombas
sobre a relva verde. ervas
medicinais que a tudo curam.

a lua, então, fulgura. pálida
de neve, e de amargura
faço as minhas preces
subirem  até o sol de junho.
ali te enxergo e vejo
o que espero cumprir-se
qual promessas de amor:
aqueles dias idos de agosto.

VII

onde andará aquela que amei?
no bosque ou na avenida se
derramam seus passos
até as estrelas. posso vê-la,
sozinha, e posso tê-la
em meus tristes sonhos.

onde andará aquela que amei?
branca sereia, e eu num barco torpe
não fui a lugar nenhum
a procurá-la. e agora a solidão
cai como pedra, ou treva
ou como terra que já não se vê.

onde andará aquela que amei?
quanto a mim, descubro
telhados. pulo de aviões
sem paraquedas, avanço
aos trancos e barrancos
da doce juventude.

aquela que amei, está aqui.
dentro de mim, colada à
minha pele. tempestuoso
amor que bate-bate. voo
de pássaros às cegas, e sei
o quanto dói o que me negas.

VIII

parte-se-me o coração
como nuvens, aos pedaços.
inquietude bebe sombras,
leva borrões, manchas
do que ficou  e findou-se.

o poema é coisa viva,
rasteja, se mexe feito cobra
e vibra silente. armadura
para conter a lágrima,
e viver o que ainda existe.

IX

estranhei na madrugada as batidas do coração. loucamente apaixonado, e aí eu podia, tinha só 20 anos e ela estava bela, o  domingo que veio dela me encharcou de luz. os dias adivinhavam o que eu queria,  as noites sabiam o que eu não sabia, e é que ficaria sozinho, com as estrelas desgarradas e meu mundo desmoronando. chutei tudo que aparecia pela frente: pedra, lembrança, soluços.
atormentado pelo poder do amor,  me perguntava porque ela saiu assim de  mim, arrancando as palavras da minha boca, deixando que, caído, eu arrastasse a cara na poeira do chão e mergulhasse de vez numa sofreguidão de copos, cigarros e drogas pesadas. o sangue vermelho das veias misturado com o branco das anfetaminas. as pupilas dilatadas dos olhos fitando o colorido violento dos quadros de grandes artistas fixados nas paredes da imaginação. os cogumelos colhidos no campo me levando para viagens de cartões postais e angústias do fim do mundo.
mas antes, muito antes, eu senti seu perfume adocicado de beija-flor, toca seus cabelos como quem segura liames que nos ligam ao céu e a beijei com desmaios e devaneios, respirei dentro de sua respiração ofegante, morto de desejo e de silêncios, a vida se partindo como vidros quebrados.  e ela ali, comigo e longe, afastando-se. e ela ali, comigo e distante, com a brancura do seu corpo deixando-me sozinho na encruzilhada da perdição. e ela ali, comigo e sumindo para sempre.

X

Desgarrado, sem pátria e sem amor
ainda chamo seu nome vez em quando.
Mas lembro: movia-me nas pedras,
melancólico e só, quando sorria.

Sem ela, por onde andei e o que fiz
foi um plantio do inútil, um não viver
com máscaras no rosto, ondas do mar
que vi, ao longe, vida de espuma.

Ave, Maria, mãe dos esquecidos do tempo.
Ave, Maria, mãe dos perdidos nas trevas.
Ave, Maria, mãe dos iludidos na terra.
Ave, Maria, mãe, só penso nela.

Ó Senhor, pai dos amantes abandonados.
Ó Senhor, pai dos desesperados.
Ó Senhor, pai dos ludibriados.
Ó Senhor, pai, perdi-me dela.

Agora digo adeus ao sonho que se vai,
ela quebrou meu coração com pedra,
afogo as mágoas no rio Uruguai,
até queimar meu coração de luz.

Viver de amor, sofrer, morrer de amar.
Viver de amor, assim vou me acabar.
Longe de mim, ela se fez de surda
e muda. E a minha vida mudou: infinda.

a poesia enlouquece.
cava nos dentes rombos de palavras.
percebe na relva os orifícios da dor,
por isso escrevo o proscrito,
o que não é amor,
o que geme sozinho.

a poesia o amor o proscrito,
a dor os orifícios os dentes:
percebo na relva
que quem geme sozinho
perdeu-se pelo amor
de uma mulher.

26 de abr. de 2020

SOCO NO MURO



ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM

72 anos completo em agosto. É sério tudo isso que estou vendo, lendo, ouvindo, vivendo?
O certo é que estou de volta no blog Literatura Limite (www.literaturalimite.blogspot.com.br) e que também pode ser encontrado dentro do site TORDESILHAS, o mais novo e inovador portal de notícias da netmaranhense.
A minha nova coluna chama-se SOCO NO MURO, como se fosse um direto de Mike Tyson no queixo disso tudo que tem me incomodado mais que nunc et semper atualmente. A hipocrisia, a burrice, a chatice e o terno branco. A esquerda dinossáurica vestindo novos pelegos, como se não pudéssemos sentir seu cheiro de mofo a milhas de distância. Os traidores e inimigos do povo. Os que escarnecem enquanto roubam e saqueiam esta nação.
Socar esse MURO sem nenhum medo de quebrar a mão.
Viva a diferença!!!

BILHETINHO PRA ELA

Veja bem, são tempos "bicudos" os que estou particularmente vivendo. Sei que a coletividade passa também por um drama comum que é de todos.
Muitos não sabem o que está de fato acontecendo. Outros preferem ignorar. Uns temem. Tem até alguns que se alegram, não sabendo ou fingindo não saber, que também correm perigo.
Mas há os que sabem. Visionários. Sensitivos. Farejadores como cães. Olhos de lince. Os que dormem como ou com as corujas. E no dizer sintético e genial de Pound: "o artista é a antena da raça".
Nada nos aproxima mais do que a dor. Talvez o amor se lhe iguale. E a sociedade humana percebe-se e sabe que está intoxicada até alma. De venenos variados. De ódios com determinada direção. De vingança planejada e executada a conta-gotas. De indiferença e tédio. De morrer à míngua.
Quanto a mim, você sabe. Talvez os 12 trabalhos de Hércules não lhe pesassem tanto. Mas devo cumprir esta missão até o fim.
Será que sabem do que estou falando?: Moro, covid19, o projeto satânico em movimento, o sétimo selo, o terceiro cavaleiro do Apocalipse, Soros, Trump, Bolsonaro, a chave da porta do céu, o número da Besta...
Mudar de vida é como trocar de pele. Em determinado momento nem sabemos mais quem somos, o que fazemos ou para onde estamos indo. 
No entanto, vamos. Em busca daquilo que mais nos aproxima. O amor e a dor.

VOZES POÉTICAS

A VOZ DE CASSAS NO PARALELO 17

O poeta é um dos sobreviventes do grupo ANTROPONÁUTICA. Hoje residindo em São Paulo continua sua trajetória poética com mão firme e poderosa.
Palavras de Micheliny Verunsche sobre a poesia de Luís Augusto Cassas, na contracapa do seu livro Paralelo 17, Editora Penalux, 2018:
“A poesia de Luís Augusto Cassas carrega uma espécie de mística militante. Por um lado, convoca a materialidade do espiritual, como no Jesus crucificado pelas mãos do artesão hippie, e por outro percebe como ninguém a urgência do mendigo-iogue em sua fome.
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Li outros livros do autor e encontro nesse Paralelo 17 a marca profunda dessa crença em uma poética que, operando alternadamente nas voltagens transcendência-imanência, traça um percurso original na produção contemporânea da poesia brasileira. Leia-se!”
A ÁRVORE DA CRIAÇÃO
30 anos pressenti
a morte do pai. o excesso de sábado.
a bílis. a rodada de cerveja. a última feijoada.
o anjo da gula. a gargalhada da agonia.
a serpente no coração.
foi hoje. o nó na garganta.
os aparelhos desligados. a explosão da respiração.
o copo de lágrimas. a terra prometida. jardins sem éden.
o túmulo virando berço. o tronco decepado.
o fracasso de adão.   

27 de dez. de 2019

CAIXA DE SONETOS


O FOLHETIM DA SEMANA, do nosso blog LITERATURA LIMITE (acesse-o no link www.literaturalimite.blogspot.com.br), depois de uma prolongada ausência está de volta. Uma parada estratégica. Uma parada macunaímica. Uma parada pra reciclagem. E até uma parada forçada. Com força total, voltamos para divulgar o lançamento de meu novo livro de poesias CAIXA DE SONETOS. Uma abordagem lírica, romântica, telúrica, sensual até,e contemporânea ser humano e suas intrincadas relações e questionamentos da natureza do amor e seus desdobramentos
         O lançamento dar-se-á durante o Churrasco de Confraternização do II Encontro do Grupo (de Whatsaap) Amigos de São Domingos.
Local: Castelo do Feio, situado na orla da histórica Lagoa do Zé Feio.
Data:18 de janeiro de 2020 (sábado), a partir das 10 horas.
CAIXA DE SONETOS: INTROITO
        O soneto, palavra italiana que tanto pode significar pequena canção, ou mais precisamente pequeno som, é um poema de forma fixa, composto por quatro estrofes, sendo que as duas primeiras têm quatro versos cada, e as duas últimas de três versos cada, que a gente passou a denominar como sendo o soneto uma forma poética de dois quartetos e dois tercetos.
         Há três formas de apresentação do soneto:
         Soneto italiano ou petrarquiano, o mais comum e usado apresenta duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas estrofes de três versos (tercetos).
         Soneto inglês ou Shakespeariano, três quartetos (4 versos cada) e um dístico (2 versos).
          Soneto monostrófico, apresenta uma única estrofe de 14 versos.
         Uma vez que o soneto é caracterizado exatamente como um poema de 14 versos – tradicionalmente 2 quartetos e 2 tercetos –, o acréscimo de um ou mais versos no final do poema (de acordo com a conveniência do escritor) faz da obra um soneto irregular – estrambótico, como o usado, por exemplo, por Miguel de Cervantes, o célebre escritor espanhol e autor da obra prima da literatura universal Don Quixote de La Mancha.
         Finalmente, chegamos à autoria do soneto.
         O soneto teria sido criado por Jacopo da Lentini, poeta siciliano e imperial de Frederico II, porém o poeta toscano Guittone d´Arezzo tornou-se o primeiro a adotar aquilo que seria reconhecido como a melhor de expressão de uma emoção, pensamento ou idéia: o soneto.
         E finalmente chegamos ao poeta italiano Petrarca, por todos reconhecido como o autor a aperfeiçoar e dar forma definitiva ao soneto, como chegou até nossos dias, com seus sonetos dedicados a Laura de Novaes, por quem possuía um amor platônico.
         Convém não esquecer que Dante foi também um sonetista extraordinário, o que pode ser comprovado em seu primeiro livro de sucesso Vita Nuova, com seus sonetos de amor dedicados à jovem Beatriz .
         Outro mestre do soneto de amor é Luís de Camões, o poeta português autor também da obra prima Os Lusíadas, e o poeta e dramaturgo William Shakespeare, autor de peças imortais como Hamlet, Édipo Rei, entre outras, foi também um dos grandes sonetistas em língua inglesa.
         Trazemos nesta edição quatro históricos sonetistas: Petrarca, Camões, Shakespeare e a inglesa Elizabeth Barret Browning e um aprendiz, no caso, eu, com alguns sonetos e um poema, a maioria tendo como temática o Amor.
         Registro, ainda, que entre nós, brasileiros, muitos poetas praticaram essa técnica com absoluto sucesso e louvor: Leandro Konder Reis, Manoel Bandeira, Drummond, e meu amigo Viriato Gaspar, poeta maranhense radicado em Brasília que com os seus 50 Sonetos, ganhou prêmio da Academia Maranhense de Letras.  E muitos outros.
         Resolvi correr o risco. Nesta idade e altura da vida estou lançando o livro CAIXA DE SONETOS, com apresentação do meu amigo de juventude, o poeta Viriato Gaspar, de cuja apreciação escolhi algumas palavras que poeta proferiu a respeito desta minha insensata aventura:
UMA PEQUENA CAIXA MÁGICA DE ENCANTOS
Viriato Gaspar
Raimundo Nonato Fontenele é, sem favor nenhum, um dos grandes nomes da arte poética do Maranhão. Um dos principais poetas da assim chamada Geração Antroponáutica, integrou a Antologia que viria a se tornar um marco na literatura daquele estado, por romper com as estruturas do establishment acadêmico que emperrava a poética de então na Ilha de São Luís. Por iniciativa da nossa amiga-irmã-mãe-anjo-da-guarda Arlete Nogueira da Cruz Machado, o Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do Estado patrocinou a pequena antologia, numa edição de capa preto-e-branca, para baratear os custos, reunindo os então jovens poetas que começavam a agitar a cena cultural maranhense.
Chagas Val, Luís Augusto Cassas, Raimundo Fontenele, Valdelino Cécio e eu integrávamos uma tropa de choque poética, ávida por primeiro dinamitar os alicerces do marasmo, e depois, bafejar um sopro de modernidade na poesia que transitava então, nas rodas literárias, quase toda arcaica, monótona e sonolenta como uma tarde de domingo depois de uma lauta feijoada completa. Aproximamo-nos, então, até por identificação e intensa admiração, das grandes vozes poéticas da literatura maranhense, Nauro Machado, Bandeira Tribuzi e José Chagas, de quem recebemos orientação, estímulo, apoio, incentivo e até mesmo utilíssimas sugestões de leituras e indicações teóricas de estudos e aperfeiçoamento.
Nauro e Arlete, Tribuzi e dona Maria, e o solitário Chagas foram como faróis a balizar nossa navegação pelos meandros da arte poética, nomes aos quais não se pode deixar de acrescentar, por justiça, o de José do Nascimento Morais Filho, uma das grandes almas que já tive a satisfação de encontrar. Zé Morais era um desses corações imensos, sempre pronto à solidariedade, ao abrigo e ao acolhimento. Um gentleman mulato, de olhos verdes sinceros e arregalados e voz tonitruante,  um amigo de quem só se pode falar com imensa saudade, a recordar a grandeza de sua alma e a imensidão de seu escancarado coração.
Raimundo Fontenele, recém-chegado a São Luís, vindo de uma fracassada, por absoluta falta de vocação, tentativa de vida monástica num seminário de Fortaleza, destacava-se, entre nós, pelos versos nervosos, febricitantes, versos crespos, de corte moderno e afiado, uma linguagem absolutamente contemporânea, atual, plasmada em leituras de Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Artaud, Pound, Elliot, E.E. Cummings, além dos exercícios concretistas dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e de Décio Pignatari, leituras assíduas de um navegador contumaz das grandes correntes da vanguarda contemporânea. Como dele disse o grande crítico Oswaldino Marques, uma dicção poética de versos paroxísticos, convulsos, de cortes nervosos e feição escancaradamente moderna.”
(CONTINUA... no livro CAIXA DE SONETOS, claro)

OS SONS DOS SONETOS

O LEITO

o leito é o começar de outro rio
por onde a foz de tudo inunda tudo
e descreve na água círculo a círculo
um perene correr que nunca funde-se

o leito é o após-rio, a antinoite
a varar profundos córregos cansados
o leito é o só pensar o acomodar-se
a ser o barco a fluir em outro barco

o leito é o demarcar do rio ao meio
de  lado a lado céu a terra e
areia de lençol por onde a calma

é todo um despejar de veros sonhos
até depois da última lançada
onde começa o mar e o mar acaba


SONETO 8

Nem preciso dizer o que o seu amor
fez comigo esse ano: está na cara.
Revolveu-me como se faz com a raiz,
e me deixou mais triste, mas feliz.

Amar e segredar com sua boca,
usar seus dentes, ser louco por um triz.
Deixar que essa paixão, que é tão louca,
Seja a doçura do doce que provei,

quando na tarde algum domingo
ela era um favo de mel quando a beijei.
Amor avaro, ó Eros da beleza,

rimas a minha vida com a tua.
E eu, sozinho, caminho por aqui,
com os pés no chão e a cabeça na lua.

SONETO DE SONHOS

Enquanto dormes e sonhas também sonho
que estou dentro do sonho que tu sonhas.
E sonhamos nós dois o mesmo sonho,
entre as cobertas, os lençóis e as fronhas.

Sonho que beijo, mas me beijas primeiro
enquanto acordas e me acordas inteiro,
e assim despertos, e sem café na cama,
ensaiamos no amor: comédia ou drama.

Mas não a tragédia. Nem passo em falso
será dado neste cenário de amor intenso,
em que me apresentas e te apresento.

Dormir ou não dormir, eis aqui a questão:
voltamos ao sono que repousa e anima,
e pões, amor, na minha boca a tua língua.

SONETO DO AMOR QUE É BOM

Amar demais não dói, mas fere a alma
quando escutamos  só a voz do vento.
E não se ouve a mulher que, em sua calma,
também tem queixas, mágoas e lamentos.

Quem ama abre espaço para o outro,
deixa-o seguir sua própria natureza.
Não enche o saco e nem se faz de louco
apagando cada traço da beleza.

É manso e silencia, o quanto pode,
sobre o que sofre e sobre o que padece
para que o outro não sofra; e até esquece

alguma pedra incômoda no sapato.
E isso é do primeiro ao último ato,
e a qualquer “help!” só ele nos socorre.

SOB AS COBERTAS

Sem um arranhão. Só com palavras nobres
eu te cubro e tu me cobres, em silêncio
quase sagrado, no nosso círculo de fogo
e abandono. Prendes-me sem algemas.

Ouço o sussurrar da fonte. Nos teus lábios
entreabertos, rubros, conto teus dentes.
Eles me mordem onde não dói. Segredam
nos meus ouvidos que o tempo urge.

Dou-lhe a razão e aperto-a contra o peito
para que seu coração fale comigo.
E ele fala: “amore, podemos continuar

de onde paramos?” Respondo-lhe “claro”.
Entrelaçamos as pernas. Um beijo cresce.
E é este beijo que nos leva até às estrelas.

INRI

Deus, que tem o coração de ouro,
é o único ser que não respira e vive,
isso digo e assino, dou testemunho e fé
pois tudo em minha vida é  milagre.

Do fogo, e não do barro, me criaste
para arder na luz e dissipar-me na treva,
mesmo no abandono da cruz irei seguir
os passos de Jesus. Será? Irei?, me diz.

O remorso e o desespero não, meu Deus,
tem piedade da ovelha sempre errante,
envolvida nas manhas e erros das manhãs.

Deus, que tem o coração de ouro,
que não respira e vive, ó sumo bem,
essas labaredas me queimam, por quê?
(do livro no prelo CAIXA DE SONETOS)