8 de set. de 2020

A MINHA SÃO LUÍS

 


O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) fazem a sua maneira uma singela homenagem aos 408 anos de existência dessa Ilha do Amor, Cidade dos Azulejos, Capital do Reggae, e, por fim, Ilha Rebelde.

Aproveito para vender o meu peixe, que não é serra nem pedra, iguarias que o nosso paladar não esquece, quando com limão e a famosa farinha de carema. Meu peixe é o livro A República dos Apicuns (Crônicas Ludovicenses), a sair no próximo ano, de onde retirei os dois capítulos dessas minhas memórias vividas com e em São Luís.


BONDES, TARDES E GAROTAS

(mas antes teve o Seminário de Santo Antônio)

         São várias as formas e maneiras de se homenagear uma cidade.  Igual a uma mulher amada, podemos fazê-lo com música, canção, poesia, crônica, carta, e até uma declaração ao pé do ouvido. No caso da cidade, uma declaração aos quatro ventos ou aos seus quatro pontos cardeais. E também pode ser falando dela e sobre ela para seus amigos.

         Quando eu cheguei pela primeira vez em São Luís ela ia fazer 350 anos de fundação e descoberta. Um francês de nome Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardiere, chegou primeiro. Eu só cheguei em 1962.

         Que destino, o meu! Vim do interior numa carroceria de caminhão que me deixou justamente na Praça Gonçalves Dias. Eram seis da tarde e os sinos dobravam na torre da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Aquela hora, às vezes,  tristonha e silenciosa, quando se tem 13 anos e se separa dos pais para viver num colégio interno.

         Dali da praça fui ter numa hospedagem na Rua Sete de Setembro, do “seu” Tezinho Santos, cidadão colinense, pai de dois filhos: o Aurélio e um outro que criaria fama e deitaria na cama, com todo justo louvor, o Turíbio Santos, esse grande músico erudito maranhense que ganharia os palcos  mais seletos da Europa culta e de todo o mundo civilizado, enfim.

         São Luís sem a ponte José Sarney, mas com seus barcos que nos levava até o São Francisco, onde só havia casebres e choupanas, pescadores e lavadeiras, e a Praia da Ponta d´Areia.

         Os bondes pela cidade, o bonde da Rua do Passeio, até o Cemitério do Gavião, o da Praça Gonçalves Dias e Igreja dos Remédios, onde me casaria no início dos anos 70, passava no Canto da Viração e seguia a Rua Rio Branco até seu destino final, e o bonde que seguia até o Filipinho. O da Rua Grande que dava a volta e seguia pela Rua Afonso Pena.

         Essa São Luís que não existe hoje, mas que vive intacta na lembrança dos que a conheceram, no coração dos amantes daquela época, na mente dos poetas que a cantaram então, ainda a cantam e no futuro mais remoto, a cantarão, cantarão, cantarão...

         No Seminário de Santo Antônio na Praça Antônio Lobo, próximo à Escola Modelo, conheci a primeira fruta mais exótica, antes do Açaí: tinha um pé de Abricó no quintal do Seminário, e havia também uma fonte de água límpida onde nós, seminaristas, tomávamos nosso banho após o jogo de futebol e os exercícios físicos, isso por volta das cinco horas da tarde. A fonte que serpenteia o subterrâneo da cidade, fazendo história, a Fonte do Ribeirão e a Fonte do Bispo.

          E desta cidade não me afastei nunca. Mesmo agora, numa distância de cinco mil quilômetros, aqui em Porto Alegre, é essa São Luís que faz meu coração parecer um bumbo noturno, um tambor de crioula batucando notas da mais sôfrega e pura saudade de outras delícias que a cidade oferecia.

         As lindas garotas distribuídas naquele quadrilátero da Praça da Biblioteca: as do Liceu Maranhense com suas saias azuis e blusas brancas; as do Colégio Rosa Castro, de saias cinzas e blusas brancas; as do Colégio Ateneu, com suas saias marrons e blusas brancas, e as meninas que subiam a Rua Rio Branco vindo do Colégio São Luís, com saias azuis e blusas amarelas.  Amores e cores, que presentes poderiam haver mais belos que esses que nos eram ofertados por essa mágica e querida cidade de São Luís, com seus azulejos e mirantes?


1967 FOI UM ANO BOM

         O ano era o de 1967. Minha segunda chegada a São Luís, a segunda descoberta, a segunda e quase interminável temporada que ajudou na minha formação de jovem e poeta. E militante estudantil de esquerda. E que me jogou, depois, nos braços do movimento hippie.

         Mas vamos por partes, tipo Jack, o Estripador. O ano de 1962, que passei em São Luís, passei-o confinado, como interno, no Seminário de Santo Antônio.  Pouco conheci da cidade, a Rua José Bonifácio, uma casa próxima à Beira Mar onde passei alguns domingos.

         Nós, estudantes do interior, tínhamos as madrinhas, senhoras beneficentes que apoiavam o Seminário de diversas maneiras, e uma delas era receber seminaristas em suas residências, dar-lhes um pouco de afeto e carinho, até mesmo amor, em alguns casos, para compensar a solidão e falta que nos fazia a casa paterna.

         Lembro que fomos num passeio conhecer Alcântara. De barco. Enfrentando aquelas ondas altas e o mar bravio e nessa travessia muito de nós sucumbiu ao enjoo, e numa expressão usual quase botamos “as tripas pela boca”. Eu fui um deles.

         Uma cidade fantasma. Assim me pareceu Alcântara naquele longínquo ano de 1962.  Os prédios em ruínas, as ruas calçadas de pedras com o mato rasteiro com seu verde dando um pouco de vida àquilo que parecia uma natureza morta.

         Lá, nessa época, e num desses prédios de arquitetura colonial portuguesa, um dos quais fora construído para abrigar a comitiva durante visita do Imperador que, segundo a lenda, não chegou a efetivar-se, funcionava o presídio estadual. Para lá eram mandados os indivíduos para cumprir pena por alguma condenação.

         Passados tantos anos, guardo vivamente na memória a figura de um negrão, era assim que chamávamos um cara de pele escura, o tal afro-descendente do politicamente correto, sim, um negro forte, grande, barba por fazer, mal encarado. Seu crime: assassinara a própria mãe com uma mão de pilão. E é apenas isso que guardo daquele passeio, o vômito no barco e o matricida na cadeia. E claro, a paisagem, os prédios em ruínas, poucas e raras figuras humanas. Gente simples. Humilde. Pobre. Esquecida.

         No fim daquele 1962 os padres que dirigiam o Seminário de Santo Antônio resolveram me desligar do mesmo, achavam-me rebelde, brincalhão, sem verdadeiro espírito de seminarista. Fui assim devolvido à Diocese de Caxias que me enviou em 1963 para o Seminário da Prainha, em Fortaleza, mas aí é outra história, e nada tem de ludovicense nela.

         Então voltemos ao ano de 1967. Cheguei em São Luís com o apoio do Padre Manoel da Penha Oliveira e do Deputado Estadual Luís Rocha. Falo em apoio porque eu era um jovem sem nenhum recurso material, meus pais não tinham condições de custear meus estudos. Eu havia trabalhado nas campanhas políticas do Padre Manoel para prefeito de São Domingos, e ajudado também na campanha do Luís Rocha, e assim eles viabilizaram esta minha nova estadia em São Luís.

         Janeiro de 1967 voltei pra sentir aquele cheio de mar e maresia que era uma marca registrada da Ilha. Fiquei um mês e tal hospedado na casa do Luís Rocha, uma casinha de dois pisos na Vila Iná Rego, lembro do DER ali perto, o Canto da Fabril, território motense, o Estádio Nhozinho Santos e aí em seguida fui morar na Casa do Estudante, mas a gente chamava mesmo era de UMES.  Na Rua do Passeio. Lá pras bandas do Cemitério do Gavião.

         UMES e seus entornos. Vila Bessa. Belira. Lira. Madre Deus. Goiabal.  Nesses bairros, nos fins de semana em companhia de dois amigos, o Pestana e o Davilson, a gente saía procurando as famosas festinhas e as garotas. Renato e seus Blue Caps. E os sucessos “Não te esquecerei”, “Menina linda”, “Ana”, “Não quero ver você chorar”, “Dona do meu coração”. Quase sempre versões das músicas do Beatles. Wanderley Cardoso atacava de “Bom rapaz” e “Doce de coco”; Jerry Adriani tinha “Querida”, “És meu amor”, “Quem não quer”. E o chefe da patota, Roberto Carlos e seu parceiro Erasmo Carlos, a ternurinha Wanderléia.

         E tome Rum Montilla com Coca-cola. Muita agarração, muito chamego, beijos e tal, mas ninguém passava do limite, não tinha esse negócio de pílula anticoncepcional disseminada geral e como dizia a música do Roberto “casamento, enfim, não é papo pra mim”.

         Era o segundo ano de mandato do Governador José Sarney. Um dos governadores mais jovens do Brasil. Pertencera ao grupo chamado Bossa Nova da antiga UDN. Militares no poder, Sarney aderiu e passou-se para a ARENA.

         Justiça seja feita. Naquela época o Maranhão vivia momentos políticos de grande euforia e transformação. Pensávamos, e até certo ponto, que estávamos enterrando o passado junto com a prática vitorinista de governar.

         Sarney chamara jovens entusiastas e competentes para a administração pública. Reinaldo Tavares. Haroldo Tavares. E outros. E uma cabeça pensante, o poeta Bandeira Tribuzi.

         Na educação o Dr. José Maria Cabral Marques, que visitara a Alemanha e o Japão, trouxe ideias, projetos, planos que foram sendo implantados ao longo daquele vitorioso primeiro ano da era Sarney: Projeto Bandeirantes, escolas de nível médio, profissionalizantes; Projeto João de Barro, educação de jovens (fora da faixa etária escolar) e adultos. E, então, o mais revolucionário deles: a TV Educativa, talvez a primeira, seguramente umas das pioneiras em todo o território nacional.

         Depois, bem, depois é depois do qual falarei depois. Mas em 1967 ninguém poderia imaginar que José Sarney iria implantar uma nova era de caciquismo político, apoderar-se, enfim, da máquina pública para satisfazer projetos pessoais e satisfação de grupos que lhe eram fiéis, deixando o Estado após tantos anos numa situação de penúltimo lugar nos indicadores sociais.

         Quanto a mim, morava na UMES, tinha um emprego de Assistente Administrativo na Secretaria de Educação, à época instalada no terceiro andar do Edifício BEM, prédio pertencente ao Bando do Estado do Maranhão, na Rua Tarquínio Lopes, a mesma do Cine Roxy, da Assembléia Legislativa, e do inesquecível Colégio Santa Tereza, reduto de meninas, as mais belas e ricas, e, portanto, mais desejadas, mas inacessíveis para um jovem pobretão como eu. Contentava-me em admirá-las, desejá-las... Estudava, à noite, a terceira série ginasial no Liceu Maranhense, depois chamado Colégio Estadual do Maranhão.  Tinha 19 anos, me arrastara nos estudos, mas estava ali, esperando mesmo o quê? Nem eu sabia.

         Mas, de fato, 1967 foi um ano bom.

 

Texto final:

Raimundo Fontenele

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