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12 de nov. de 2016

Ferreira Gullar Versus Os Intelectuais de Esquerda



- Folha de S. Paulo

Cada dia que passa me convenço mais de que, sobretudo quando se trata de política, as pessoas, em geral, têm dificuldade de aceitar a realidade se ela contraria suas convicções.

Recentemente, durante um almoço, ouvi, perplexo, afirmações destituídas de qualquer vínculo efetivo com a realidade dos fatos. Minha perplexidade foi crescendo tanto que, após tentar mostrar o despropósito do que afirmavam, fingi que necessitava ir ao banheiro e não voltei mais ao tal papo furado.

Não resta dúvida de que, até certo ponto, essa dificuldade de aceitar a realidade decorre do momento que estamos vivendo, tanto no Brasil como no mundo em geral.

Tem-se a impressão de que atravessamos um período de mudanças radicais quando os valores, sejam ideológicos, econômicos ou éticos, entram em crise.

Isso parece ter a ver tanto com as utopias quanto com a implantação de novos meios de comunicação. Estes tornaram o mundo menor ou, dizendo de outro modo, é como se todos os povos, nos diversos pontos do planeta, vivessem uma mesma atualidade. Sabemos, a todo instante, de tudo o que ocorre em qualquer região, em qualquer país, em qualquer cidade do planeta.

No caso de nós, brasileiros, acresce o fato de que chegamos ao fim de uma fase que culminou no afastamento da presidente da República e na implantação de um governo interino, agora permanente. Acresce o fato de que o governo que findou era a expressão de um regime populista, caracterizado por um ideologismo demagógico, apoiado no setor pobre e carente da população. Na verdade, versão primária de um regime dito de esquerda em aliança com o capitalismo corrupto, que ele fingia combater.

Pois bem: que o povão desinformado se deixe levar pelas benesses recebidas é compreensível. Difícil de explicar, porém, é a atitude de intelectuais de esquerda que aceitam a burla como verdade.

E era isso que transparecia na tal conversa do encontro a que me referi no começo desta crônica. Uma das pessoas presentes, dizendo-se contra Dilma Rousseff, tampouco admitia o governo Michel Temer. Quando a lembrei que o governo de Temer tinha apenas um mês de existência e que herdara do anterior uma situação crítica com mais de 11 milhões de desempregados, ela respondeu: "Na cidadezinha onde moro não há desemprego. Duvido muito desses números".

Lembrei-a que aqueles eram dados do IBGE, divulgados havia três meses, quando ainda era Dilma quem presidia o país, ela respondeu: "E o IBGE não podia estar infiltrado por adversários do governo?"

É que essa senhora se diz de esquerda e, embora não possa negar o estado crítico a que o PT conduziu o país, usa de argumentos infundados para colocar em dúvida o fracasso petista. Já observaram que os que defendem esse populismo nunca tocam nos escândalos revelados pela Lava Jato, no assalto à Petrobras, nas propinas dadas a funcionários e políticos inclusive do PT? É que têm dificuldade de aceitar a realidade dos fatos e admitir que estão errados. E se alguém faz referência a tais escândalos, gritam: "Mas isso é mentira!" Ou seja, para quem não suporta a realidade, só é verdade o que lhe convém.

Saí dessa roda e fui me sentar com outro grupo, que falava de futebol, particularmente do Vasco, meu time do coração, que anda mal das pernas, pois acabara de ser desclassificado, ainda na primeira rodada da Copa do Brasil. Mas eis que chega um velho companheiro, simpatizante do PC do B, do finado PCB e muda o assunto da conversa, de futebol para a polícia. Foi então que um dos presentes afirmou que o comunismo já acabara, uma vez que a própria China era hoje a segunda maior potência capitalista do mundo.

– Isso não, contestou o velho comuna. O comunismo está mais vivo do que nunca. A China encarna a nova forma que o regime socialista ganhou.


– Sim –brinquei eu–, é o comunismo capitalista! Todos riram, menos o autor daquela tese surrealista.

Ferreira Gullar

5 de set. de 2016

A INSÓLITA VIAGEM DE HITLER AO MARANHÃO




No ano de 1944 começou a correr pelo interior e também pela capital maranhense, a lenda do “Monstro da Praia de Guimarães” Tal monstro estaria aparecendo numa Praia do Município de Guimarães sempre a noite durante alguns dias. A época foi solicitada o auxilio das forças armadas com navios e similares no intuito de verificar o que de fato estaria acontecendo. Nada foi comprovado sobre a existência de um possível monstro marinho ou algo parecido.

Recentemente a revista alemã chamada Der Spiegel em uma reportagem citou o diário de bordo de um submarino alemão o SS-199, nesse diário estaria contido informações de um destino que esse submarino teria tomado no dia 04 de Agosto daquele ano, com as seguintes coordenadas: 2°o7′57” de Lat. S e 44°36′04” de Long. W. Essas são as coordenadas náuticas onde se encontra o município de Guimarães no interior do Estado. Dias antes Adolf Hitler teria sobrevivido ao atentado que ficou conhecido como operação “Valkyrias”. A bomba que deveria explodir junto do seu corpo acabou explodiu longe dele e próximo de alguns generais nazistas. Logo depois do acontecido um desses generais atingido pela explosão avisou antes de morrer a Hitler que tinha preparado um submarino para sua fuga, algumas poucas informações do serviço de inteligência alertavam para um atentado contra o Führer, logo depois Hitler embarcou fugindo para um destino desconhecido até por ele mesmo, a ideia era que a informação do destino da fuga estivesse com a menor quantidade de pessoas possíveis, evitando assim o vazamento da informação.

A matéria do Der Spiegel cita ainda a informação de um pescador chamado Coutinho, segundo a reportagem o mesmo estava em uma das dez noites que o submarino esteve submerso nas águas de Guimarães, ele teria presenteado os tripulantes, dentre eles Adolf Hitler e sua amante Eva Braun com dois cestos contendo peixes e camarões. O encontro da tripulação com o pescador se deu porque em uma dessas noites onde Eva Braun sentindo-se entediada no interior do submarino pediu que fosse levada a praia, então ela foi colocada num bote junto de um dos tripulantes, por lá passeou por algumas horas sobre o luar estrelado de Guimarães. Por conta da escuridão no espaço entre o submarino e a praia, o mesmo emergia e focava suas luzes rumo à praia ajudando o bote no caminho correto, esse fato fez surgir à lenda do “monstro da Praia de Guimarães”. No inicio do décimo primeiro dia que estava em águas maranhenses o submarino tomou o caminho de volta ao seu país de origem a Alemanha Nazista.


6 de jul. de 2016

SOB TEU CÉU, SOBRE TEU MAR


By Francisco Aragão
Por Natan Castro

É manhã em São Luís e uma explosão de brancuras, raras claridades que saem e só procuram se entranhar, independe de querer. Tez de gente amanhecida, vestes brilhantes de quarta-feira, quartas-feiras sem sentido. Nem há sentido no barulho de tantas ondas que quebram na Beira-Mar, resquícios de embarcações que trouxeram a poeira, que permaneceu no olhar de nossa gente multicolor. Ao nascer o pequenino já nasceu aqui cheio desse olhar de precisão. Que se encare essa ilha e se permita as intrigas que dela submergem a nos atingir.

Ainda existem aqueles que se assenhoram, daqueles que se aburilam nos coletivos matinais, buscando matar a fome de tantos necessitados. É dia em São Luís e tudo é desigual, pois que aqui tudo nasce e morre em slow-motion, a idade da capital se esconde nos fatos, espremidos nas poeiras dos livros, porém com um ar mais melindroso que os nossos, chegaram aqui estes cheios de ouro-de-tolos em suas mãos, buscando em nós o deslumbre. Antes importava pouco o vil metal, éramos tribo virgem a descoberto, tínhamos um orgulho nato que nos satisfez desde o avistar das velas. Vês que é verdade que sempre tivemos sol, mar, futebol com travinha, bumba-boi, cacuriá, peixe fresco do portinho, Sampaio, Moto e Mac, tiquira, Guaraná Jesus e uma rede preguiçosa a nos embalar.

Faz pouco tempo fomos descobertos, dai sopraram essências, perfume em nossas vistas, chegaram do sudoeste, sul, centro-oeste de tanto lugar. Nossa pele gritou as memórias de sol e mar, primeva nossa vergonha alheia. Eles chegaram e nos ensinaram a desejar, andar mais rápido, salivar dinheiro, esquecer a fome, ruminar, por fim ficamos confundidos uns aos outros. Hoje há tantas cidades e tantas tribos em nossa capital, tantas marias e joãos, tanto barulho de máquina de registrar, carros e carrões, cabelos loiros, portas de vidros, cartazes iluminados dependurados no ar, tantas cidades, confusas realidades. A cidade que hoje acorda no Tirirical, não é a mesma que amanhece pra lá do São Francisco. Tanta gente, hoje a Ilha e seus transeuntes diferenciados sacolas a carregar, gente enganada pelo brilhar do ouro-de-tolo, ouro-de-tolo com seu falso brilhar.

Quando chove a marca saltita nas peles, nosso povo, velho feudo. São Luís e o brilho de lágrimas e sangue em jornais pulp-fiction, tantas cidades e duas verdades, a ressaca de uma quarta-feira com nossas cinzas fumegando nas fogueiras que outrora anunciavam o boi-bumbá.

2 de jul. de 2016

A HORA E A VEZ DO ROCK MARANHENSE



Por Natan Castro

Nonato e Seu Conjunto
É bem recente o inicio dos registros fonográficos de música no Maranhão, algo em torno de um pouco mais de quarenta anos. Talvez o primeiro grupo musical a realizar a gravação de um disco ainda nos anos 70 foi o Seu Nonato e Seu Conjunto, um grupo de baile que obteve um sucesso bastante interessante em São Luís, com apresentações inclusive em outros estados do nordeste. O grupo realizava uma mistura bem interessante de samba, soul, funk e pitadas de música latina, foi uma das primeiras bandas do país a gravar um reggae.

Com a chegada dos anos 80 começaram a surgir ainda que de forma bastante tímida as primeiras bandas de rock do estado, bandas em sua maioria influenciadas pela explosão do Rock Brazuka e também da Turma da Colina de Brasília. Fora isso algumas poucas bandas começaram a surgir influenciadas pelo New Wave Heavy Metal British, movimento que lançou grandes nomes do metal como Iron Maiden, Def Leppard e Judas Priest. Dessa época podemos citar a banda de Trash Metal maranhense chamada Ácido, diz a lenda que a banda tocou no lendário festival Setembro Negro em Teresina ao lado do pessoal do Sepultura do inicio de carreira. Na segunda metade da década começaram a surgir nomes que seriam responsáveis por um inicio de uma cena que somente hoje começa a se estabelecer, bandas como Ânsia de Vômito, Amnesia, Daphne, Face Oculta, Paul Time, Alcmena e outras. Com a chegada da década de 90, algumas informações foram de extrema importância para o inicio de formação de um público alternativo, o advento de um programa de radio (Time Rock), lojas de discos e acessórios como a Submundo do Rock, Casa do Rock, Traffic Sound, figuras fundamentais nesse período podemos citar o radialista Gilberto Mineiro e Joacy James desenhista, cartunista, chargista, agitador cultural, membro do movimento punk maranhense, além de integrante de bandas de punk como a Última Marcha, Pedro da Cooperativa Rola Rock’n’Roll e da banda Comportamento Estranho, uma das bandas mais antigas em atividade no meio rock da capital. Vários bares surgiram e desapareceram durante todo esse período, desses um com certeza ficou na história do underground de São Luís, o famoso Bar do Bento no bairro São Francisco, era um dos poucos locais voltados para headbangers, punks e hardcores do Maranhão. 

Banda Ânsia de Vômito

Tive a oportunidade de assistir o último show de uma das melhores bandas da década de 90 nesse local, a banda era o Sarcoma que tinha na bateria e vocal Eduardo Patricio, outra figura imprescindível para a cena rock daqueles anos. Posso citar dois shows que foram de suma importância para a galera rock’n’roll da capital exatamente na primeira metade da década, o primeiro foi da lendária banda punk/hardcore paulistana Ratos de Porão. O outro show foi da primeira grande banda de rock nacional surgida nos anos 90 os brasilienses Raimundos, realizaram um show memorável, sem dúvidas o maior público de um show de rock do período. O ano de 1996 marca o lançamento do primeiro disco de rock de uma banda maranhense, a banda Daphne lançou o disco Semblantes no Ilha Rock Festival, festival realizado por Gilberto Mineiro radialista, apresentador do programa Time Rock da rádio Mirante Fm. Eu tive a oportunidade de estar no dia do lançamento, o festival aconteceu no Ginásio Costa Rodrigues no centro de São Luís. Anos depois a banda Ânsia de Vômito uma das mais conhecidas no meio metaleiro do estado, também lançaria o primeiro álbum de uma banda de metal maranhense.

Banda Daphne
EP "As aspas serão explicadas adiante"
No inicio dos anos 2000, uma banda em formato de trio, surgiu na cena e não há dúvidas que deixou saudade num público que já havia se acostumado a consumir rock’n’roll na ilha do amor. O pessoal da Catarina Mina um trio formado por violão, baixo e bateria, um cara das antigas assumiu as baquetas Eduardo Patrício ex-Sarcoma e ex-Samsara, no baixo Bruno Azevedo e no violão e vocal Djalma Lúcio que despontava como um dos melhores letristas da nova safra de compositores maranhenses. A banda lançou um EP que ainda hoje é muito lembrado por uma turma saudosista que seguia o trio em diversos shows ao redor da ilha. O EP chamado “As aspas serão explicadas adiante” tinha um cover dos Smiths e duas músicas que tocaram bastante em rádios de São Luís voltadas ao público alternativo. A banda estava no meio das gravações do primeiro disco denominado Sabão, quando repentinamente encerrou as atividades. A banda Catarina Mina representou um dos primeiros esboços de um trabalho profissional realizado por uma banda de rock do estado.

Nos últimos quinze anos a cena vem passando por certo amadurecimento, ainda que tímido e lento em alguns momentos, mas é bem verdade que amadureceu. Chegamos à segunda metade dos anos 2010 com frutos desse amadurecimento, podemos citar duas bandas que melhor representam esse novo momento, são elas a banda de Heavy/Trash Metal conhecida como Jack Devil e os músicos da banda Soulvenir, banda de rock/indie/eletrônico.
Banda Jack Devil
Pela primeira vez bandas de rock surgidas na cena alternativa maranhense, conseguiram com esforço e talento ultrapassar os limites do estado. Os caras do Jack Devil com muita garra e raça, já tocaram em diversos festivais do Brasil e América Latina também, além de já terem lançados dois discos com ótima aceitação do público e boas criticas de revistas especializadas. Algo quase impensável em outras épocas. A Soulvenir apesar de ser uma banda recente já nos primeiros anos de existência alcançou um feito bastante relevante para a cena rock do estado, recentemente a banda venceu o festival EDP Live Bands Brasil, alcançando o primeiro lugar, deixando para trás cerca de 1.400 bandas do país inteiro, com o prêmio a banda ganhou a oportunidade de gravar um disco pela gravadora Sony Music e participar de um grande festival em Portugal ao lado de grandes nomes do rock mundial. É visível o ótimo momento que a cena atual do rock maranhense vive, com alguns bares voltados totalmente para o público do rock, junte a isso os avanços na divulgação trazidos pelas redes sociais, esses adventos em muito ajudam no surgimento de bandas novas, ao que nos parece estamos vivendo os primeiros instantes de uma possível efervescência de uma cena que agora já podemos acreditar ter alcançado o amadurecimento necessário para chamar a atenção de outros centros musicais do país. E caso essa cena alcance os holofotes do reconhecimento, tem tudo para levar junto de si, toda uma leva de artistas que se identificam com o meio alternativo, ou seja, artistas voltados para a música regional maranhense, o reggae e os demais ritmos provenientes da incrível diversidade rítmica maranhense.
Banda Soulvenir

22 de jun. de 2016

A ESQUISITA FOBIA DE SER MARANHENSE



Por Natan Castro

Não é exagero nenhum dizer que o povo maranhense sofre de uma profunda crise de identidade. Iniciamos com essa afirmação para aprofundar o assunto na seara da arte e da cultura, nessa parte que nos toca sensivelmente o problema é muito mais acentuado. O passado literário do estado, recheado de glórias com autores de extrema relevância nas letras nacionais. Tudo isso com o passar dos anos virou frágeis lembranças na mente de muitos maranhenses, vindo a virar coisa de historiador, pesquisadores aposentados, professores saudosistas. Com a sucessão dos mandatários na gestão estadual a problemática da indigência cultural tem se acentuado, nos legando problemas seríssimos, a falta de renovação da tradição com politicas que visam somente o perfeito encarceramento artístico dos entes culturais.

Na atualidade essas informações passadas são capazes de deixar qualquer adolescente maranhense, seja ele estudante do ensino médio e outros sem entender praticamente nada. Nas escolas, universidades e entes educacionais, falam-se de tudo menos de nossos heróis do passado, figuras fundamentais como Manuel Beckman, Apolonia Pinto, O matemático Souzinha, Sousândrade, Canhoteiro, Turibio Santos, só para citar alguns, são personas que inexistem nas cabeças de nossos jovens. No campo da música o Estado do Maranhão, nas ultimas décadas vem sendo invadido não só pela música de outros estados bem como em alguns casos por suas culturas. Nos últimos anos o forró de Fortaleza, depois o funk carioca, o axé baiano, recentemente o tecnobrega e o sertanejo universitário. Com as nossas fronteiras sendo invadidas por todos os flancos pelo imaginário de fora, o processo de desintegração de nossos valores culturais produziu essa falta de identidade que nos deparamos hoje. Tal recrudescimento causa no inconsciente coletivo do nosso povo uma ridícula fobia de se afirmar maranhense. As alarmantes noticias vinculadas em âmbito nacional ajudaram em muito a acentuar o problema. Precisamos urgentemente debater a problemática desse rompimento com as verdades de nossas raízes, com multa de num futuro muito próximo, passarmos pela perda total de nosso passado, causando o inicio da perda completa de nossa maranhensidade.

16 de jun. de 2016

30 e Poucos Anos em São Luís


Centro Histórico São Luís MA

Por Natan Castro

Anteontem sai a resolver assuntos pessoais e tive a oportunidade de atravessar a cidade de São Luís, a Ilha Rebelde ou Ilha do Amor como preferem chamar alguns, essa cidade onde eu moro desde que nasci no fatídico ano de 1980, ano esse onde se foram personas imprescindíveis na minha formação. Dentro de um coletivo ao lado do meu filho adolescente, me senti na obrigação de lhe falar mais sobre aqueles locais, são ruas, prédios, monumentos, pontes, praças, bairros, em suma um pouco da cidade que moramos e por algum motivo passa incólume de qualquer reflexão da grande maioria de sua população. Tentava com aquelas indicações inserir na consciência do meu filho o quanto aquela cidade estava entranhada no meu inconsciente, mais precisamente na minha alma.

Desde muito cedo aprendi a viver aqueles locais, em períodos menos perigosos, na minha pré-adolescência podíamos andar por diversos locais de nossa cidade, como por exemplo, o centro antigo da cidade local hoje reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Meu filho ouvia meu discurso e vezes ou outra olhava atenciosamente os locais indicados com parcimônia. No meio daquela espécie de tour quase desimportante me veio a cabeça um verso de Ferreira Gullar do seu grandessíssimo livro Poema Sujo onde ele citava aquela cidade mesmo estando de longe em Buenos Aires assim como o fez Gonçalves Dias nosso poeta maior décadas atrás.

Na São Luís de junho de 2016 a cidade vive a angústia de ser uma das cidades que mais sofre no Brasil com a falta de planejamento haja vista que o primeiro esboço de organização urbana de nossa capital nos remete ao período de colonização, naqueles tempos as cidades eram pensadas tendo como objetivo o escoamento de mercadorias, pessoas e quase tudo rumo ao litoral. Em 2016 vivemos o ápice de um caos organizacional, com o crescimento desacerbado da cidade rumo a periferia, trazendo com isso um inchaço e confusão no trânsito da cidade nos horários de pico. Uma leva considerável de trabalhadores que todas as manhãs saem dessa periferia em direção aos bairros centrais onde se encontram as oportunidade de trabalho, uma considerável leva de maranhenses dentro de coletivos superlotados alguns com mais de quinze anos de fabricação, que se chocam com os carrões da classe média baixa e alta que nesse exato momento se movimentam em direção a trabalho, faculdades, hospitais e condomínios realizando um perfeito inferno urbano em três horários todos os dias religiosamente.

Hoje não sou mais aquele adolescente morador de um bairro perto do centro, hoje sou um pai de um garoto muito mais atento que eu aos problemas do planeta quando eu tinha sua idade. Foi há alguns anos atrás, mas para mim aquele período em minha memoria surge como uma época romântica, é bem verdade a cidade mudou bastante, naquele período existia duas cidades dentro de uma, a cidade velha que compreendia o centro histórico e bairros que tomavam a direção de bairros antigos e de outros que começavam a fazer parte da periferia. E do outro lado da ponte do São Francisco a cidade chique, a nossa zona sul de bairros como o próprio São Francisco que na minha infância ia para brincar de empinar papagaio e sura e ficar impressionado com os prédios que começavam a tomar os ares do bairro inteiro. Hoje em dia posso dizer que existe ainda essas duas cidades com mais três realidades sobrepostas a ela. A chegada das grandes empresas que a meu ver demoraram a abarcar na Ilha, os cinco shoppings que se abarrotam de gente por todos os lados nos finais de semana, a explosão imobiliária com condomínios para todos os lados, tudo isso surgindo de forma totalmente desorganizada e desajustada, desencadeando uma ridícula falta de segurança em toda a cidade, roubos e furtos pra todos os lados enfim, São Luís de uma vez por todas chegou a pós-modernidade. É essa cidade que continuarei vivendo e que meu filho entregará a seus filhos, com o andar da carruagem o mito da carruagem de Donana de tempos atrás ficará cada vez mais esparso na névoa dos tempos passados, tempos esses que ninguém mais ousa lembrar e outros nem tempo tem para isso, pois estão distraídos entre buzinas, buracos, assaltos e outdoors prometendo o rejuvenescimento quase tácito. 

8 de jun. de 2016

AS DEZ + DA MÚSICA MARANHENSE



Nem só de descaso político e outros quiproquós vive o Estado do Maranhão, antes de qualquer coisa temos um passado glorioso no campo cultural e muito dessa tradição ainda se perpetua nos dias atuais. Escolhemos dez músicas do cancioneiro popular que melhor representam a diversidade musical do povo maranhense.

10. Gavião Vadio – Nicéas Drummond

09. Versos Antigos – Banda Daphne  

08. Sereia - Escrete   

07. Pastorinha – Chico Maranhão  

06. Tribo de Jah – Regueiros Guerreiros    

05. Lenha – Zeca Baleiro      

04. June – Nosly     

03. Ilha Bela – Carlinhos Veloz        

02. Sobrados – Papete         

01. Oração Latina – César Teixeira   

27 de mai. de 2016

MARANHÃO - ARTISTAS USAM GOLPE COMO OCASIÃO



Por Natan Castro

É histórica a inercia da classe artística do Maranhão no que diz respeito a inépcia dos seus governantes no trato com as agendas da arte e da cultura. É público e notório a profícua capacidade do Estado em manifestar cultura em todo o seu território. A variedade rítmica deflagrada anos atrás é somente um dos vários traços desse genuíno talento de produzir arte, peculiaridade que vai de encontro a inúmeras adversidades que o estado passou no decorrer de sua história. A politica do Panis Et Circense que foi imortalizada pela família Sarney durante seus quase cinquenta anos a frente do governo do Estado, criou uma leva de artistas de “ocasião” agentes culturais forjados na ridícula dependência de benesses de governos que usaram e abusaram da pungente cultura do estado para servir a meros interesses eleitoreiros.

Nos dias atuais com o atual governo do jurista Flávio Dino, membro histórico da oposição contra os desmandos dos governos anteriores, infelizmente a situação da arte e cultura do estado continua a mesma. Com praticamente um ano e seis meses a frente do governo, Flavio Dino só demonstrou o quanto se assemelha aos antigos mandatários, já passaram pela pasta da cultura três secretários e todos se mostraram inaptos a continuar no mesmo. Recentemente uma verdadeira anomalia gestora foi acometida pelo governo no poder, quando aglutinou as pastas da cultura e do turismo, se não bastasse a ridícula junção, foi nomeado para assumir as duas secretárias um advogado recém-formado, sem nenhuma experiência com a gestão de nenhuma das pastas, nas entrevistas dadas pelo mesmo fica bastante visível seu profundo despreparo, inexiste em sua fala conhecimento sobre o assunto, algo que julgamos ser de suma importância haja vista a tradição cultural que o estado possui no Nordeste do país.

O estrago ainda se faz bem maior, quando essa mesma classe artística se auto-reproduziu com o passar dos anos. Na gestão atual vários desses possuem um discurso alinhado ao discurso produzido pela gestão desastrosa da cultura, haja vista, que diversos deles juntamente com alguns familiares estão alocados em cargos no âmbito das duas secretarias. Existe um axioma no fazer artístico que diz que antes de qualquer coisa arte é transgressão, e apartidária e sua real posição é de oposição e cobrança a qualquer poder estabelecido seja na esfera municipal, estadual ou federal. É dever de todo artista ter essas premissas como norte em suas carreiras artísticas. O artista alçado ao titulo de vidente por grandes nomes como o poeta francês Arthur Rimbaud, como tal se difere dos demais e por conta disso tem por obrigação esse policiamento dos atos políticos em relação ao bem estar geral da população de uma cidade, estado ou país. No Estado do Maranhão artistas de ocasião usam e abusam do espaço das redes sociais para falarem dos assuntos mais diversos, o que mais se sente falta nesses comentários é de um debate claro e objetivo sobre as demandas culturais que com o passar do tempo só aumenta a indigência cultural de um estado tão rico de cultura. O mais recente ato dessa classe de pseudos-artistas foi a ocupação do IPHAN no centro histórico da capital, como forma de protestar pela extinção do Ministério da Cultura (Que foi revogada pelo Presidente interino Michel Temer) e também contra o possível “golpe” que levou ao processo do impeachment da presidenta petista Dilma Roussef. Para a meia dúzia desses artistas não representa golpe a junção das secretárias de cultura e turismo do governo Flávio Dino, porém de igual proporção a transformação do ministério da cultura em secretaria de governo isso sim foi tido por eles como golpe. Finalizando o verdadeiro golpe na cultura do Estado do Maranhão é a falta de um verdadeiro senso artístico e cultural desses que se dizem agentes de cultura em nosso Estado.

13 de mai. de 2016

VULTOS MARANHENSES - REGINALDO FORTUNA


Reginaldo Fortuna
Por Natan Castro

"Estou convencido de que a charge num jornal tem o mesmo peso que um editorial; ela não pode cair na vala comum da ilustração. Quem desenha na página nobre trabalha fundamentalmente com opinião, de uma maneira muito particular: a charge é mais direta que o texto. Nela, as acrobacias de estilo, em que tudo que é dito numa frase comporia um 'mas, porém, contudo, todavia' no parágrafo não tem lugar."

Reginaldo José de Azevedo Fortuna é o autor das palavras acima. O grande chargista conhecido no meio como Reginaldo Fortuna é maranhense de São Luís (MA). Tido por muitos como um dos maiores chargistas do Brasil, Reginaldo Fortuna é contemporâneo de grandes nomes como Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Borjalo, com alguns deles inclusive foi fundou o lendário O Pasquim.

Fortuna sempre foi reconhecido pelo seu profundo perfeccionismo que se percebia por detrás de um traço inconfundível. Detentor de uma personalidade forte o chargista é o autor do primeiro gibi brasileiro moderno “O Bicho”, possui uma sólida carreira em importantes jornais e revistas de renome nacional dentre eles Correio da Manhã, de 65 a 69, fundou o Pasquim, foi editor de arte da Enciclopédia Barsa, de Veja, diretor de redação de Cláudia, criou com Tarso de Castro o Folhetim, na Folha de S.Paulo, onde também foi chargista.

Reginaldo Fortuna morreu no ano de 1994 vitima de um fulminante ataque cardíaco.

O grande Millôr Fernandes sobre Reginaldo Fortuna

Charge do Fortuna

Encarcerado entre o ontem e o amanhã, na prisão perpétua do presente, Fortuna ri. Olhe-se daquele lado e se percebe que ele pode ser tudo menos um bípede implume. Mas mudando de calçada vê-se imediatamente que é um filho prodígio que nunca fugiu de casa. Anda sempre com cara de poucos amigos, mas tem muitos. Sobretudo uns. De vez em quando se atira do décimo andar onde mora, porque, humorista nato, recusa-se a aceitar a lei da gravidade. Apenas, por precaução, se atira para dentro. Tem o mesmo nome da deusa de Famagusta mas a ele no le gusta. Isso porque da cornucópia da deusa saía muito dinheiro e, no Brasil, de cornucópia nem é bom falar. Abstêmio, se abstém sobretudo de não beber. Moralista, acha que, no fundo, toda mulher é nua. Poeta, é dos que conquistam uma mulher para justificar a compra de meia dúzia de rosas. Radical, acha a mulher muito superior ao homem, o que, segundo o Bornay, é uma superstição como outra qualquer.

Tem trinta e poucos anos de altura, um metro e sessenta e tantos de jornalismo profissional, e não brinca com crianças porque quem brinca com crianças amanhece assassinado. Analista profundo, jamais caiu na rotina embora tenha caído em inúmeras arapucas. É contra qualquer discriminação mas a que mais o irrita é a da companhia telefônica, que só põe no catálogo gente que tem telefone. Quando a gente quer telefonar prum amigo que não tem telefone, o nome dele nem está lá. Vai ficar rico em 1970, mas ainda não sabe. Pelo contrário, de vez em quando, para pânico nosso, diz que, como Tarzã, pretende mudar de ramo.

Fortuna tem, em suma, a personalidade dele mesmo, riso hipotético, traço desconfiado e só anda onde não deve. Onde deve não o deixam entrar. Exageradamente tímido, certo dia, descobrindo um ladrão embaixo da cama, chamou a polícia, mas deu o número do apartamento ao lado, para evitar o escândalo. Define o humorista como um homem que foi buscar tôs e saiu lãquiado, acha que o adultério só é um pecado mortal se o marido estiver armado, diz que em matéria de América cada um tem os Estados Unidos que merece e é tarado por coisas que destesta.


Perfeicionista nato, fica tão irritado quando alguém confunde um Steinberg da primeira fase com um Einstein post-mortem como um técnico de cactos quando alguém confunde uma Opuntia com uma Pereskia. Entre suas descobertas mais importantes estão o furo da rosca, o oco exterior e a moeda sem coroa. Atualmente está pesquisando o som de uma mão batendo palmas. Enfim, o grande mal do Fortuna é que todo mundo o leva a sério. Nunca foi tratado com a hilaridade que merece. (Millôr Fernandes)

22 de mar. de 2016

Maria Firmina dos Reis – Primeira Romancista Brasileira e Musa das Feministas


Por Natan Castro

Maria Firmina dos Reis foi uma mulata, bastarda que nasceu em São Luís em 1825. Era prima do grande escritor maranhense Sotero dos Reis o autor da primeira gramática brasileira. Segundo alguns historiadores é visível a influência de Sotero dos Reis na formação intelectual de Maria Firmina dos Reis. Considerada a primeira romancista do Brasil, tal titulo se deu por conta do lançamento do seu romance chamado Úrsula. Além de ser o primeiro romance lançado no Brasil por uma mulher, foi lançado por uma mulata, num período onde o papel da mulher na sociedade brasileira era tremendamente limitado, não bastasse isso o romance possui em suas entrelinhas criticas as práticas escravagistas tão em voga no século XIX.    

Maria Firmina além de ser detentora de todo esse pioneirismo literário feminista, essa personagem das letras maranhenses possui uma história de vida bastante interessante, diferente de alguns autores, Maria Firmina literalmente vivia na prática muito das ideias que sustentava no seu romance. Ela foi reconhecidamente a primeira educadora feminina do Estado do Maranhão, antes de ser professora do Estado ela já de forma pessoal ajudou a educar varias crianças na capital maranhense. A escritora viveu os últimos anos de sua vida na cidade de Guimarães (MA), além de lecionar na cidade, Maria Firmina educou e criou praticamente sozinha cerca de onze crianças. Diante de tais informações verificamos o quão é sui generis a figura dessa escritora de origem negra e nordestina, num período de nossa história onde a mulher era impedida inclusive de votar, essa mesma mulher teve a audácia de escrever um romance de teor humanista, num meio literário totalmente ocupado por membros do sexo masculino.

Atualmente setores da sociedade como o das feministas e outros voltados para igualdade racial e de gêneros tem na figura de Maria Firmina dos Reis uma espécie de musa, uma heroína que ousou interferir na história do país que era protagonizado totalmente por cabeças masculinas.

Meditação
                                                   (Maria Firmina dos Reis)

Vejamos pois esta deserta praia,
Que a meiga lua a pratear começa,
Com seu silêncio se harmoniza esta alma,
Que verga ao peso de uma sorte avessa.
Oh! meditemos na soidão da terra,
Nas vastas ribas deste imenso mar;
Ao som do vento, que sussurra triste,
Por entre os leques do gentil palmar.
O sol nas trevas se envolveu, - mistérios
Encerra a noite, - ela compr'ende a dor;
Talvez o manto, que estendeu no bosque,
Encubra um peito que gemeu de amor.
E o mar na praia como liso ondeia,
gemendo triste, sem furor - com mágoas...
Também meditas, oh! salgado pego -
Também partilhas desta vida as frágoas?...
E a branca lua a divagar no céu,
Como uma virgem nas soidões da terra;
Que doce encanto tem seu meigo aspecto,
E tanto enlevo sua tristeza encerra!
Sim, meditemos... quem gemeu no bosque,
Onde a florzinha a perfumar cativa?
Seria o vento? Ele passando ergueu
Do tronco a copa sobranceira, altiva.
Passou. E agora sufocando a custo
Meu peito o doce palpitar do amor,
Delícias bebe desterrando o susto,
Que a noite incute a semear pavor.
E um deleite inda melhor que a vida,
langor, quebranto, ou sofrimento ou dor;
Um quê de afetos meditando eu sinto,
Na erma noite, a me exaltar de amor.
Então a mente a divagar começa,
Criando afouta seu sonhado amor;
Zombando altiva de uma sorte avessa,
Que oprime a vida com fatal rigor.
E nessa hora a gotejar meu pranto,
Nas ermas ribas de saudoso mar,
Vagando a mente nesse doce encanto,
Dá vida ao ente, que criei p'ra amar.
E a doce imagem vaporosa, e bela,
Que a mente erguera, engrinaldou de amor,
Ergue-se vaga, melindrosa, e grata
Como fragrância de mimosa flor.
E o peito a envolve de extremoso afeto,
E dá-lhe a vida, que lhe dera Deus;
Ergue-lhe altares - lhe engrinalda a fronte,
Rende-lhe cultos, que só dera aos céus.
Colhe p'ra ela das roseiras belas,
Que aí cultiva - a mais singela flor:
E num suspiro vai depor-lhe as plantas,
Como oferenda - seu mimoso amor.
Mas, ah! somente a duração dum ai
Tem esse breve devanear da mente.
Volve-se a vida, que é só pranto, e dor,
E cessa o encanto do amoroso ente.


[ CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 173-175 ]

13 de fev. de 2016

Movimento Antroponáutica - Atitude e Ousadia Poética No Maranhão em Meio ao Regime Militar


Viriato Gaspar, Raimundo Fontenele, Chagas Val, Valdelino Cécio, L.A Cassas
Por Natan Castro

No inicio dos anos 1970 cinco jovens poetas maranhenses resolveram propor uma ruptura com a tradição poético/literária do estado. Já vivíamos a segunda metade do século XX e por aqui ainda eram perceptíveis traços do simbolismo e parnasianismo nas obras de poesias que eram lançadas. Os cinco propunham uma renovação urgente no fazer poético no Maranhão. Eram eles Viriato Gaspar, Raimundo Fontenele, Chagas Val, Valdelino Cécio e Luis Augusto Cassas, todos poetas genuínos que tinham como interesse maior renovar a poesia no Estado do Maranhão, rompendo com as antigas escolas literárias do Século XIX que tanto influenciaram as gerações passadas. Deles somente Raimundo Fontenele possuía um livro lançado. O nome do movimento é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi,  Antroponáutica é o nome de um poema de sua autoria. O poeta inclusive era junto do grande Nauro Machado e José Chagas, os únicos da geração anterior que os Antroponautas enalteciam e citavam como influência.

Por volta de 1971 começaram os encontros num bar no Canto da Viração no centro de São Luís, as reuniões eram regadas a cerveja e muita discussão em torno dos caminhos futuros da poesia maranhense. A principio o primeiro passo era chamar a atenção da elite literária da capital, o que foi alcançado logo depois que nomes como João Mohana, Nascimento de Moraes, Arlete Nogueira, Jomar Moraes e Nauro Machado perceberam a chegada dessa nova leva de jovens poetas que buscavam mudanças no meio literário do Maranhão. O reconhecimento devido foi buscado ferrenhamente pelos cinco, quase não havia espaço para publicação de seus artigos e poemas, como muita luta começaram as publicações no Jornal do Dia (jornal comprado pelo Sarney que veio a se tornar o Estado do Maranhão), o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), que tinha um critico de cinema o José Frazão que também acolheu muito bem as novas ideias do pessoal.  Após tanto esforço, de fato o primeiro passo havia sido alcançado, os Antroponautas haviam sido reconhecidos como novos nomes da literatura maranhense. Logo em seguida saiu a famosa Antologia Poética do Movimento Antroponáutica e logo depois foram convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que publicou os cinco juntamente com outros novos poetas na Antologia Hora do Guarnicê.

O lançamento do livro Às Mãos do Dia  do Antroponauta Raimundo Fontelene

A seguir a narração detalhada do inusitado lançamento nas dependências da Biblioteca Pública Benedito Leite, pelo próprio Raimundo Fontenele, em entrevista dada a este que vos escreve.

Biblioteca Benedito Leite

R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: a ditadura militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento,, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque nada mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.


O Maranhão desde Gonçalves Dias deu inicio a uma tradição literária que continua até os dias atuais, do Romantismo para cá apresentamos ao país e ao restante do mundo, uma quantidade satisfatória de grandes literatos, para não citar outros gêneros da arte. A geração da Antroponáutica que hoje nos parece quase esquecida pelos tais entes da cultura do Estado, possui um papel relevante, quando o assunto é a renovação dessa brilhante tradição. Os cinco jovens poetas buscaram espaço devido, sonharam com as mudanças e ao conseguir colocaram heroicamente seus nomes na história da arte e da cultura do Maranhão. Tudo isso num período onde a náusea artística era vista como algo peçonhento e altamente prejudicial ao poder estabelecido. 

11 de fev. de 2016

Antonio Vieira, Lopes Bogéa e Patativa – Boa música e descaso cultural no Estado do Maranhão



Por Natan Castro

No Estado do Maranhão os ditos entes culturais ­­­­ (leia-se pessoas responsáveis pelos trabalhos de difusão e fomento da cultura no Estado), possuem uma incrível capacidade de desrespeitar e desmerecer nossos artistas. O descaso é histórico, ao longo do tempo tivemos um verdadeiro êxodo artístico em direção a centros mais respeitosos culturalmente. Muitos desses dos mais diversos gêneros estão espalhados pelo Brasil, alguns inclusive em outros países. Ser reconhecido fora e desconhecido em sua terra natal, é citado por muitos deles como algo repugnante e inadmissível.

Segundo muitos esse desconhecimento se dá pelo fato de uma grande parcela do público maranhense não demonstrar interesse algum nesses artistas. Tal constatação é errônea, pois fica a cargo das pastas culturais do estado e das prefeituras pesquisar, organizar e promover os trabalhos desses artistas no âmbito municipal e estadual. A divulgação nos meios de comunicação entra como elo entre os artistas e o público. No Maranhão sempre foi visível o uso da arte e cultura como mero advento politico-eleitoreiro, ou seja, artigo de ocasião.

Dentre aqueles que por aqui resolveram ficar, coube a incrível luta contra um público obsequioso e uma Secretaria de Cultura medíocre em suas atividades. Isso não é de agora, já vem se repetindo por diversas gestões. Nos últimos anos começamos a verificar um esboço de certo respeito a alguns desses artistas, tudo isso por conta do trabalho sensacional de outro maranhense, que inclusive deixou o estado há alguns anos. Ciente desse profundo descaso, o cantor e compositor Zeca Baleiro nos últimos anos vem realizando o resgate de artistas da velha guarda da música do Maranhão.

Os dois primeiros foram o Sr. Antonio Vieira e Lopes Bogéa, dois grandes nomes de décadas passadas, o resgate propiciou o lançamento de dois CD´s tendo suas músicas sendo interpretadas por grandes nomes da música brasileira inclusive. Junto do lançamento do CD no caso do Sr. Antonio Veira, houve shows tanto em São Luís como em São Paulo homenageando merecidamente o artista. No caso de Lopes Bogéa infelizmente o artista morreu no período da gravação do disco. Vale aqui lembrar que por mais importância que esses compositores tenham para a música do Maranhão, jamais tinham tido a possibilidade gravar um disco próprio, por isso nossos merecidos agradecimentos para a figura de Zeca Baleiro. Mais recentemente foi lançado por ele o primeiro CD da grande sambista do bairro da Vila Embratel, nossa Patativa, somente aos 77 anos a musa do nosso samba conseguiu a proeza de ser reconhecida, o disco que foi lançado pelo selo Sarava de Zeca Baleiro, que promete lançar também logo em seguida um segundo disco com músicas autorais e participação especiais de intérpretes de peso, ainda como forma de divulgação da sambista, terão shows no sul em março de 2016, além de um show já confirmado na Austrália.

Antonio Vieira, Patativa e Lopes Bogéa


Dois desses três grandes nomes da nossa música, já se foram, muito também pela idade avançada. Hoje uma pergunta fica no ar, até quando vamos reconhecer nossos pares musicais somente no final de suas trajetórias? Até quando vamos necessitar dos ditos “primos famosos” para conhecer de forma responsável nossos grandes talentos musicais? 





8 de fev. de 2016

Os 5 discos mais importantes da música maranhense



Por Natan Castro


Longe de qualquer critério meramente regional, os cinco discos citados abaixo, foram escolhidos por serem produzidos por artistas genuinamente maranhenses. Se o estilo é rock, reggae ou outro qualquer, pouco importa. Para os puristas de plantão cabe aqui lembrar que não existe rock de Jerusalém, nem música de sei lá onde, música antes de tudo é universal, ela é música em qualquer lugar que seja produzida, a nós importa somente sua qualidade e sua devida importância artístico-cultural. 

TOP 05 - Velhos Moleques (Compacto)


Em 1986 foi lançado o compacto Velhos Moleques, no compacto temos musicas de quatro grandes nomes da música maranhense do século passado. São eles Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Cristovão Colombo vulgo Alô Brasil e Agostinho Reis. Todos compositores da mais alta estirpe sonora, ambos advindos de uma tradição de música popular, de um período onde o rádio dava as cartas no meio artístico midiático. Ambos com sua devida importância na música popular do Estado do Maranhão, deles o único que gozou de um devido reconhecimento ainda em vida foi Sr. Antonio Vieira, redescoberto por Rita Ribeiro e Zeca Baleiro o compositor teve registrado um show ao vivo em sua homenagem com a participação de Elza Soares e o grande Sivuca, pouco tempo depois veio a falecer. O compacto Velhos Moleques é um registro seminal pelo legado desses quatro nomes e a importância deles para música maranhense.

TOP 04 - Semblantes (Daphne)


Esse é o primeiro disco gravado por uma banda de rock do Maranhão. Lançado em 1996 a banda Daphne chegava ao primeiro disco gozando de certo amadurecimento sonoro. A banda montada ainda nos 80 destila no disco canções de altíssima qualidade, podemos citar Os sonhos não podem sonhar, Semblantes e Versos Antigos uma das canções mais belas compostas no território maranhense. Apesar da qualidade de gravação do disco não ser das melhores, os integrantes conseguiram a superação com arranjos super inspirados e belíssimas letras.



TOP 03 - Tribo de Jah (Roots Reggae)


A banda de reggae liderada pelo radialista Fauzy Beydoun, tinha como integrantes os excelentes músicos advindos da escola de música de cegos de São Luís, ou seja, todos deficientes visuais. O disco é recheado de grandes reggaes, mas sem dúvida a grande música do álbum é Regueiros Guerreiros, após o lançamento do disco rapidamente se tornou um hino entre a galera regueira da capital, a letra é uma grande homenagem direcionada exatamente aos guardadores e lavadores de carro, vendedores ambulantes em geral. Essa turma forma o público que desci para os salões de reggae de São Luís nos finais de semana. Depois do lançamento o sucesso do primeiro disco extrapolou os limites da capital, vindo a Tribo de Jah se tornar conhecida no país inteiro, com participação em importantes festivais de reggae na Europa inclusive.



TOP 02 - Lances de Agora (Chico Maranhão)


Chico Maranhão havia voltado pra capital, depois de importantes participações em festivais do eixo Rio-São Paulo no final da década de 60. Nesse seu retorno na década de 70 ao Maranhão, o artista gravou um dos discos mais inspirados e instigantes da musica maranhense quicá da música brasileira, Lances do Agora, diz a lenda fora gravado pela Marcus Pereira Discos na sacristia da Igreja do Desterro no centro histórico da capital em 1978. Nesse reencontro sonoro do artista com as coisas de sua terra, ele registrou 11 faixas uma delas de autoria do grande compositor paulista Paulo Vanzolini. Chamo atenção para duas grandes verdadeiras obras primas contida no acetato, são elas Velho Amigo Poeta e Pastourinha.



TOP 01 - Bandeira de Aço (Papete)


No mesmo ano de lançamento do disco acima, o grande Marcus Pereira convidou o musicista maranhense Papete, para gravar um disco com as composições da nova leva de compositores do estado, eram eles César Teixeira, Ronaldo Mota, Josias Sobrinho e Sérgio Habibe, o resultado do convite foi o disco Bandeira de Aço. O disco além de demonstrar a imensa qualidade de composição dos nomes citados anteriormente, possui a qualidade de interpretação magistral de Papete, juntamente com seu talento inconfundível para criar sons a partir de sua memória musical, com citações ao Bumba Meu Boi, Tambor de Crioula, Festa do Divino e outras manifestações típicas do nosso Maranhão. Não há dúvidas, Bandeira de Aço mostrou tanto para o Maranhão como para o Brasil, os grandes compositores do magistral laboratório de arte maranhense, o nosso Laborarte.