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5 de set. de 2016

O HOMEM DA FORCA VELHA


         Mil perdões. Acho que o nosso homem de setembro do blog LITERATURA LIMITE, escritor Sotero dos Reis, não tem nada a ver com esta história. Ou tem? Vamos ver...


            FRANCISCO SOTERO DOS REIS, o homenageado do mês do nosso Blog www.literaturalimite.blogspot.com.br (não deixe de acessá-lo) nasceu em São Luís do Maranhão a 22 de abril de 1800 vindo a falecer nesta mesma cidade a 16 de janeiro de 1871, filho de Balthazar José soa Reis e de Maria Tereza Cordeiro.

            Suas credenciais não são poucas quando se trata deste difícil e, às vezes, incompreendido universo das letras e da literatura: foi e é (porque sua obra está aí para quem quiser nela buscar prazer e conhecimento) jornalista, poeta, escritor, tradutor historiador literário e filólogo. E emérito professor, o que o levou, pela natureza do que professava com ardor e intransigência, a se constituir no autor da primeira gramática de língua portuguesa.

            Vejamos o que diz José Neres, escritor e pesquisador maranhense, do nosso homenageado mensal Sotero dos Reis, no seu Estudo de Literatura no Maranhão do Século XIX pelos Livros Didáticos de Sotero dos Reis, baseando-se em escritos biográficos do também mestre Henriques Leal e de outros bambas maranhenses do passado:

“Francisco Sotero dos Reis (1800 – 1871) era um homem “de baixa estatura, seco de carnes, de tez clara, pálpebras superiores demasiadas espessas” e, ao mesmo tempo, um “grande educador, quer na cátedra do magistério, quer na tribuna jornalística”. Além de haver sido “o primeiro professor público do Maranhão após a independência”, foi também poeta, jornalista, político e gramático que teve seu lugar de destaque não apenas como integrante do chamado Grupo Romântico Maranhense, como também por influenciar diretamente com seus trabalhos de cunho didático-pedagógico na formação educacional do Maranhão, sendo, além disso, “um dos primeiros e um dos mais significativos representantes de nossa historiografia e crítica literária durante o Romantismo”.

E continua:
“Entre os diversos trabalhos de Sotero dos Reis voltados para a educação formal estão os cinco volumes de seu Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira, volumosa obra que “fecha historicamente o primeiro ciclo de histórias literárias no Brasil, demonstra nitidamente esses condicionamentos historiográficos que ajudaram para a variedade das histórias brasileiras daquela época” e que é vista também como “pilar do ensino da língua portuguesa em São Luís”.

            Esta é apenas uma das facetas do grande maranhense Sotero dos Reis, muitas vezes esquecido por quem devia reviver constantemente sua memória, revitalizar sua extensa bibliografia, reeditando-a, levando-a ao conhecimento de estudantes dos Cursos Elementares e Universitários.

            Bem melhor fariam os órgãos de educação e cultura do nosso Estado se tomassem tais providências, não só com referência ao Sotero dos Reis mas a tantos outros maranhenses que enriqueceram, com sua literatura, suas letras, seus tratados e  pesquisas nos diversos ramos do conhecimento e saber humanos,a história da literatura maranhense e brasileira.

            Mas o governo está ocupado em politizar ideologicamente as escolas e universidades, ministrando conceitos de Educação que nada têm a ver com a formação do ser humano na construção de valores éticos e morais que o tornem uma peça chave no desenvolvimento da nossa civilização e história tão enxovalhada com a velhacaria e politicagem que parecem tão arraigadas ao solo maranhense, qual raiz apodrecida de um dente que precisa ser extirpada sem o que haverá saúde. É o ensino de dogmas velhos e ultrapassados, chavões dos movimentos libertários dos anos sessenta, válidos então, mas que agora fazem parte da história e não podem conviver com os novos tempos e novas realidades que estamos vivendo. O presente é o presente e não história.

            Foi com esta determinação e com estes valores que o professor Sotero dos Reis entregou-se de corpo e alma, em todos os momentos de sua copiosa e transbordante vida intelectual, criando, ensinando, educando, confiante que os seus sucessores  seguissem-lhe os passos no rumo do conhecimento e do saber.

            Por enquanto, ficamos por aqui. Ao longo mês, o nosso homenageado estará de volta; antes, porém, devemos uma explicação:



LARGO DA FORCA VELHA, PRAÇA DA ALEGRIA E SOTERO DOS REIS

Quem diria que um dia a Praça da Alegria, um logradouro com nome tão festivo, teria sido palco de tortura e enforcamento. Localizada na esquina entre as Ruas de Santana e do Norte, tem, como diversos espaços urbanos de São Luís, nome oficial consagrado a um importante ilustre cidadão maranhense, Sotero dos Reis, nascido em 1800 e morto em 1871.

A praça, que data do início do século XIX, recebeu em 15 de fevereiro de 1815 uma forca construída a mando do então Ouvidor Geral do Crime, o desembargador José Francisco Leal. Fato que concedeu à praça a alcunha de Largo da Forca Velha. Na época, escravos negros que desobedeciam a seus donos eram torturados e mortos no local. Em 1849, para mudar a história do espaço e retirar dela esse título mórbido, o largo passa a se chamar Praça da Alegria. Apesar disso, uma placa ainda indica o antigo nome no local até os dias de hoje, na casa de número 352, esquina da Rua do Norte com a de Santana.



Mas, ao longo de sua história, já recebeu outros nomes: Sotero dos Reis (1868), Colombo (1890); 13 de Maio (1929), fazendo referência a abolição da escravatura no Brasil, tendo em vista o triste passado da praça; Saturnino Bello (1951), em homenagem ao ex-governador do Maranhão; e Coronel Manoel Inácio (1963). Mas até hoje só é chamada de Praça da Alegria. Nome mais bonito não havia de ter. Ali já funcionou feira livre e já teve um mercado. Hoje, o logradouro, um dos mais arborizados da cidade, foi reformado (março/2015) pela Prefeitura.

Pesquisa e texto final:

Raimundo Fontenele 

1 de jan. de 2016

Gonçalves Dias (Poeta, Romântico e Brasileiro)


Antonio Gonçalves Dias nasceu num sitio a algumas léguas da vila de Caxias, em 14 de agosto de 1823. Sete dias antes a vila tinha conseguido sua independência frente ao domínio português. Seu pai era o comerciante José Manuel Gonçalves Dias de origem portuguesa, lutou ao lado dos compatriotas contra a independência de Caxias. Sua mãe Vicência Ferreira era uma mestiça fruto da união de sangue branco, negro e indígena. Ainda bem jovem o poeta viu seu pai se separar de sua mãe e casando-se com Adelaide Ramos de Almeida. Com a idade de 15 anos o poeta viaja a Portugal a mando de seu pai para estudar, lá inicia os estudos de Direito em Coimbra, nesse período conhece Alexandre Herculano poeta fundamental do recém criado Romantismo de Portugal. Aos vinte anos ainda em Portugal o poeta escreve Canção do Exílio, considerado por muitos como um dos poemas mais importantes de toda a poesia nacional. Após estudos no século XX observou-se a genialidade desse poema de Gonçalves Dias, ao se perceber que em momento algum de seus versos o poeta usa adjetivos, uma obra-prima. Trechos do poema foi usado na letra do hino nacional  “Nossos bosques têm mais vida” / “Nossa vida” no teu seio “mais amores”.  


Após a morte do pai os negócios da família que eram tocados pelo seu progenitor foram fortemente abalados, desta forma sua madrasta pedi ao poeta que ele retorne ao Maranhão, pois já não vê condições financeiras de continuar pagando os estudos do poeta em Portugal. Mas ele recusa-se a retornar indo morar com o Sr. João Duarte Lisboa Serra que sabendo da sua situação lhe oferece moradia e continua os estudos com a ajuda dos amigos Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, Joaquim Pereira Lapa e José Hermenegildo Xavier de Morais. Em 1845 retorna ao Brasil com uma breve passagem pelo Maranhão, em meados de 1846 transfere-se ao Rio de Janeiro, nesse mesmo ano escreve a peça de teatro Leonor de Mendonça, mas é impedido de montá-la por conta de a mesma possuir linguagem incorreta segundo o Conservatório do Rio de Janeiro. De 1847 a 1851 produz segundo os críticos as melhores páginas de sua obra, desse período temos os Primeiros cantos, As sextilhas de Frei Antão que representou uma resposta ao Conservatório do Rio de Janeiro por conta do impedimento de Leonor de Mendonça, nas sextilhas o poeta toma todos de surpresa por compor um texto utilizando todos os períodos do português de até então, tamanho era o conhecimento que o poeta possuía da língua portuguesa, um verdadeiro “ensaio filológico”. Em 1849 foi convidado a lecionar história e latim no colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara com Joaquim Manuel Macedo e Porto Alegre finalizando a essa fase escreve os Últimos Cantos.

Gonçalves Dias e Ana Amélia


Em 1851 Gonçalves Dias viaja ao Maranhão com o intuito de descasar sua amada Ana Amélia, o grande amor da sua vida, porém a família de sua musa de 14 anos não fora de acordo com o casamento. O motivo seria a origem mestiça de Gonçalves Dias, na sociedade maranhense da época tal informação era vista de forma preconceituosa por muitas famílias. O desejo de Ana Amélia era fugir com o poeta para o Rio de Janeiro, porém o poeta não foi a  favor do desfecho, o motivo teria sido pelo fato da amada ser prima de seu grande amigo Alexandre Teófilo, Gonçalves Dias tinha pela família do amigo profundo respeito, pois a mesma teria através de seu amigo custeado a parte final de seus estudos em Portugal. Desta forma como represália Ana Amélia foge com um comerciante de origem familiar muito parecida com a do poeta, ao saber é deserdada por sua mãe, tempos depois a musa do poeta se separa e casa-se novamente. Gonçalves Dias estraçalhado de dor retorna ao Rio de Janeiro e casa-se chegando a ter uma filha que morre precocemente nos primeiros anos da infância. Anos depois em passagem por Portugal o poeta reencontra seu grande amor Ana Amélia, porém ela ainda muito magoada com o desfecho do romance, não aceita uma conversa com o poeta, o que o leva a escrever um de seus mais belos poemas, um verdadeiro clássico da primeira fase do Romantismo Brasileiro Ainda Uma Vez, Adeus.


De 1854 a 1863 o poeta inicia sua fase em cargos públicos dentre eles a Secretária de Assuntos dos Negócios Estrangeiros passando por vários países da Europa em missão oficial de estudos e pesquisa. Desse período são os primeiros cantos de Os Timbiras e o Dicionário da Língua Tupi, no retorno ao Brasil viajou pela Amazônia e diversas regiões do norte e nordeste a serviço da Comissão Cientifica de Exploração. Tempos depois retorna a Europa buscando tratamento médico, onde conclui a tradução de A noiva de Messina de Schiller. Em 10 de setembro de 1864 embarca para o Brasil a bordo do navio Ville de Boulogne, o navio naufragou no Baixo dos Atins nas costas do Maranhão, o restante da tripulação consegue se salvar, porém o poeta já bastante doente fica preso no camarote da embarcação e morre aos 41 anos de idade.

Em 1904, Homenagem aos 40 anos de morte do poeta feita pelo escritor
 Antonio Lobo no palco do Arthur Azevedo.


Dizem os registros que por volta de 1904 em homenagem aos 40 anos de falecimento do poeta, o ilustríssimo fundador da Academia Maranhense de Letras Antonio Lobo, sobe no palco do Teatro Arthur Azevedo no centro da capital Maranhense, teatro esse que se encontrava lotado naquela ocasião e inicia a declamação magistral do poema Ainda Uma Vez, Adeus, logo o teatro inteiro é tomado de uma forte comoção silenciosa perante a interpretação do intelectual, de repente se ouve um choro soluçante vindo de algum lugar dos camarotes, dizem que a mulher tomada por tanta emoção seria agora a senhora Ana Amélia, que mesmo depois de tantos anos ainda sofria bastante por conta daquele romance mal resolvido com o maior nome da poesia do Maranhão e um dos maiores do Brasil.


Por Natan Castro (Editor)

OXENTE! A GENTE NÃO SAIU DO BRASIL IMPÉRIO? POR ISSO GONÇALVES DIAS ESTÁ AQUI



Gonçalves Dias (1823-1864) nasceu onze meses após a queda do Brasil-Colônia e o surgimento do Brasil-Império. E o período de 1823 a 1831 foi de grande efervescência política e cultural. Dom Pedro I, tremendamente autoritário, dissolve a Assembléia Constituinte e outorga uma Constituição, além de lutar pelo trono português contra seu irmão Miguel. Foi também acusado de mandar assassinar Libero Badaró, jornalista e político italiano radicado no Brasil, um combatente a favor da liberdade e contra a tirania e autoritarismo do imperador. No meio de tanta escaramuça, politicalha intestina, desaprovação dos políticos e com baixa popularidade não teve outra saída a não ser abdicar o trono imperial a favor de seu filho Dom Pedro II, uma criança ainda, e tivemos que conviver com um governo regencial.

(É a história se repetindo como farsa o que temos hoje no Brasil. De lambuja, tivemos até o assassinato de Celso Daniel para ficar tudo inserido no contexto. E Dilma e Lula querendo manter-se no Poder a todo custo).

Mas vamos lá para o Brasil Império. Foi então, por essa época, que surgiu nas letras brasileiras a escola literária conhecida como Romantismo, num ambiente confuso e inseguro politicamente. E este movimento vem carregado de lusofobia. Chega de luso, diziam, como dizemos agora chega de Lula. O movimento buscava sobretudo afirmar o nacionalismo, descobrir valores intrínsecos a nós mesmos. Descobrir um Brasil distante daqueles valores lusitanos, suas emoções e seus heróis e mitos que impregnavam a prosa e a poesia de Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, por exemplo.

Nós tínhamos os nossos índios. Ali buscaríamos nossas raízes antropológicas, sociais, democráticas. José de Alencar com seus romances Iracema e O Guarani, e Gonçalves Dias com sua poesia: Canção do Tamoio, I-Juca Pirama, Canto do Piaga, O Canto do Guerreiro, Canto de Morte, Marabá e também seu Dicionário da Língua Tupi são fundadores entre nós desse Romantismo carregado de brasilidade, das cores, cheiros e sabores tropicais, fonte inesgotável de toda arte literária que lhes sucedeu. Além disso três são os traços marcantes e característicos desse movimento romântico: 1) o egocentrismo, também chamado de subjetivismo, ou individualismo. Evidencia a tendência romântica à pessoalidade e ao desligamento da sociedade. O artista volta-se para dentro de si mesmo, colocando-se como centro do universo poético. A primeira pessoa ("eu") ganha relevância nos poemas. 2) o nacionalismo: corresponde à valorização das particularidades locais. Opondo-se ao registro de ambiente árcade, que se pautava pela mesmice, vendo pastoralismo em todos os lugares, o Romantismo propõe um destaque da chamada "cor local", isto é, o conjunto de aspectos particulares de cada região. Esses aspectos envolvem componentes geográficos, históricos e culturais. Assim, a cultura popular ganha considerável espaço nas discussões intelectuais de elite. 3) a liberdade de expressão: é um dos pontos mais importantes da escola romântica. "Nem regra, nem modelos", afirma Victor Hugo, um dos mais destacados românticos franceses. Pretendendo explorar as dimensões variadas de seu próprio "eu", o artista se recusa a adaptar a expressão de suas emoções a um conjunto de regras pré-estabelecido. Da mesma forma, afasta-se de modelos artísticos consagrados, optando por uma busca incessante da originalidade. E aqui iniciamos o nosso trabalho de homenagear, mensalmente, por enquanto, um escritor maranhense. E acredito começarmos bem, pois Gonçalves Dias, pela sua obra que resistiu ao tempo, é um dos grandes nomes da literatura brasileira e universal, orgulho do Maranhão de ontem, de hoje e de sempre.
Texto e Pesquisa de Raimundo Fontenele, escritor e poeta maranhense