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13 de nov. de 2018

PEQUENO DICIONÁRIO DE MULHERES


         Voltamos com o nosso FOLHETIM DA SEMANA do nosso blog  LITERATURA LIMITE (acesse-o no link www.literaturalimite.blogspot.com.br), voltado para assuntos da atualidade sem deixar de lado uma pitada de bom humor, ironia, sarcasmo e uma boa dose de literatura.

GOZADAS DO FONTECA

    EU VIVI PRA VER ISSO?
Univ. Federal do PR - tráfico de drogas e sexo na escadaria
          Pode não ter relevância pra ninguém. Tô nem aí. Importante é que vivi pra ver isso. O PT ajoelhado e de bunda de fora. Mesmo que não perca arrogância, a relevância, a élégance.
         A Arrogância: grande parte do núcleo duro do PT é oriundo daqueles movimentos pré e pós 64, e a gente pode citar Zé Dirceu, Pimentel, Genuíno, Dilma e muitos outros que encontraram em Lula, a liderança operária que juntaria, na visão deles, a classe média e a classe operária, num projeto de poder comuno-sindicalista, que iria levá-los ao paraíso. E isso aconteceu. E arrogância virou soberba. E juntou mais gente: a Gleisi, o Lindenberg (argh!), chega...
         A Relevância. Lula no poder enganou até o Diabo. Estabilidade econômica, inflação sob controle, meteu os pés pelo dedo que falta. Política social que incluiu bolsas: família, ditadura, presidiário, índio, e cotas pra tudo. E dinheiro distribuído a rodo para banqueiros, empresários, sindicatos e ONGs. Muitas ONgs. E pras ditaduras cubana, venezuelana, e africanas, e dinheiro pra enriquecer filhos e amigos. E laranjas às pencas. Só na mão de laranjas nos paraísos fiscais são mais de, pasmem!, 50 BILHÕES DE DÓLARES. EU DISSE 50 BILHÕES. CONVERTAM PRA REAL E CAIAM DE COSTAS!  A derrocada não começou com a Dilma e sim com o Lula. A Dilma foi o poste abestado que o Lula usou para tentar limpar seu nome, hoje mais sujo do que pau de galinheiro.
         A Élégance: Não, a décadence. Presos, condenados, processados. Alguns soltos com a conivência de ministros do Supremo. Perderam feio nas urnas. Com a grande mídia toda a seu favor, com muito dinheiro do Fundão e do Petrolão, com os dois maiores institutos de pesquisa jogando junto, com uma porrada de casos suspeitos de fraude eleitoral em inúmeras urnas e o TSE mais surdo, mudo e cego do que os três macaquinhos. Foi uma lavagem de cerca de 67 ou mais por cento. No abafa da malandragem e roubalheira geral, que são a característica mais marcante da política brasileira nas últimas décadas, se convencionou que foi de 55,13% a vitória do é melhor JAIR se acostumando.
         E agora, PT? Voltem às ruas com o Lula Livre, É Gorpi, Resistência e o escambau. Cuidado com a tomatada e os ovos podres!


QUEER MUSEU, ORA MEU, VAI DAR O TEU

         Como no Eclesiastes e Shakespeare, não há nada de novo sob o sol. Portanto, o que temos aqui são novas nomenclaturas para as coisas há muito existentes. Assim é com toda essa parafernália linguística que a Esquerda e o Globalismo, de mãos dadas como dois gays ou duas lésbicas,  usam: LGBTQIO+, ideologia de gênero, QUEER MUSEU. No fundo tudo isso é apenas sinônimo da antiga e “boa” (para eles) sacanagem ou putaria, como queiram.
         O QUEER MUSEU nada mais é que exposições artísticas com uma temática específica e um objetivo ideológico definido. Não é a Arte pela Arte. Não. É uma arte panfletária cuja característica aponta para duas vertentes: sexo e religião. Com o sexo procuram alargar as fronteiras do socialmente permitido, catalogando-se aí várias formas de taras e perversões, entre as quais destacam-se: pedofilia, zoofilia e incesto. Na religião trata-se de profanar símbolos sagrados, objetos de culto, valores cristãos e morais conservados a século.
         Portanto o objetivo é um só: elimina-se as religiões e seus dogmas e tabus e enfraquece-se assim as bases (religiosas, filosóficas, morais) que são o sustentáculo da família tradicional, uma das forças responsáveis pela propriedade privada que a Esquerda e o Globalismo procuram destruir.
         Então é furada essa discussão se o apresentado pelo QUEER MUSEU é ou não Arte. É Arte sim. Arte panfletária, bom e mau gosto não habitam o universo da crítica de arte, gostem ou não, mas é uma arte tão panfletária como toda arte usada pelos sistemas totalitários, seja o nazismo alemão, o fascismo italiano ou o comunismo russo com seus derivados. Entre nós vicejou o integralismo do Dr. Plínio Salgado e o comunismo do Luís Carlos Prestes.
         Mas essas exposições do QUEER MUSEU devem estar sujeitas a normas legais vigentes nos países em que são mostradas, com censura classificatória de idade e, se algumas obras dessa arte pregam o incêndio de igrejas, os cristãos e religiosos atingidos podem também ter a liberdade de exigir e pregar o incêndio dessas exposições.  Senão, essa liberdade e democracia tão apregoadas por todos não passam de uma grande hipocrisia.
         Esse, pois, o objetivo político: a destruição da religião e da família.
         Interessa-lhes, pois, uma sociedade mundial composta absolutamente apenas por escravos na qual, claro, eles serão os únicos senhores e patrões.

ESCOLA SEM OU COM PARTIDOS

         Taí. É aqui que a porca torce o rabo. O que existe na verdade é o aparelhamento das escolas e universidades por professores militantes de partidos de esquerda, cujos expoentes são PT, PCdoB e PSOL.
         Nos perdemos numa discussão tosca e acirrada há vários anos, em vários locais escolares e casas legislativas, gastando o dinheiro dos nossos impostos com despesas de luz, água, transporte, funcionários, audiências públicas e qual o resultado prático até agora?
         Nenhum. Os professores militantes continuam militando dentro das salas de aula, fazendo a cabeça das nossas crianças e jovens. Não é que não se discuta e mostre a política para os alunos. Mas os professores têm que ensinar sobre as várias correntes e ideias, sobre capitalismo, sobre liberalismo, conservadorismo, nazismo, socialismo, fascismo, sem tomar nenhum partido, sem querer que os alunos sigam suas próprias convicções.
         Não precisa todo esse auê. É tão simples resolver isso.
         Basta o Presidente Bolsonaro demitir por justa causa os professores que agem como militantes porque eles estão infringindo artigos da grande lei, a Constituição. Todo mundo não fala em respeito à Constituição? Esquerda, Direita, Centro e Lados Oblíquos todos não são unânimes em defesa da Constituição?
         Então. Justa causa neles.


Do livro (inédito) PEDAÇOS DE ALBERTO CARONTE apresento-lhes o conto:

PEQUENO DICIONÁRIO DE MULHERES


Mulher-uva

         Isto foi um marco da infância. Poderia dizer a.J. e d.J. Antes de Janete e depois de Janete. Um grande divisor de águas. Um Moisés angelical com seu cajado rachando um rio em duas metades. Nada de rio Jordão. Rio Pucumã, um riozinho quase seco durante os grandes estios, mas caudaloso e invadindo as margens verdejantes nas grandes cheias de ótimos invernos.
         Janete era a filha mais nova de uma família numerosa e abastada que viera de Tianguá e fixara residência numa cidade chamada São Domingos, porque só o tempo é memorável e faz milagres. E sem precisar de nenhuma máquina do tempo, dessas encontráveis em lixo travestido de ficção científica, o tempo vem até aqui e coloca Janete, dez anos, diante de si, ó Caronte, com seus doze anos de idade. Janete, uma morena clara, os olhos castanhos e alegres e um sorriso que por certo fazia cócegas em seus lábios. Linda, linda, linda. 
         – Alberto, vamos menino, te veste, está na hora da missa – a voz da mãe era a mão da rotina carregando Caronte todos os domingos para a missa das nove. E ele ia. A infância toda seria assim e talvez toda sua vida, não fosse Janete.
         Moravam num casarão, Caronte, seu pai e sua mãe. E mais uma família. Um primo seu, casado e com filhos, a esposa dele era costureira, ótima profissional. E foi por isso que Janete entrou por aquela porta e na vida dele, Caronte.
Acabaram os dois, juntos, correndo no imenso quintal, cheio de laranjeiras, mangueiras, cajueiros, e ela, além de correr, pulou dentro do coração e do sangue do menino Caronte, com seus desejos sólidos e líquidos. Sólido, seu membro duro. Líquido, suas lágrimas verdadeiras.
         Janete chegou pela primeira vez para provar um vestido justamente num domingo quase às nove horas. Ela entrou e, com tal visão diante dos seus olhos, Caronte não teve dúvidas. Inventou uma doença, uma dor de cabeça ou de barriga qualquer, na qual sua mãe acreditou piamente tão perfeita foi sua representação da tal enfermidade, e lá se foi ela sozinha com seu missal negro e seu véu branco.
Ele ficou em casa tirando uma onda de doente, e curtindo momentos apaixonados em companhia daquela jovenzinha que viera alegrar esse e outros domingos mais que os cânticos religiosos das missas dominicais.

Mulher-jaca

Era sua adolescência. Na pequenina Pucumã, mais estreita em mentalidade que em coordenadas geográficas, Caronte estava se sentindo só e oprimido. Só, porque nesta idade os jovens não reconhecem os próprios pais, tanto vão se afastando um do outro o que foi e o que virá. Oprimido porque, por conta do seu mal comportamento e bebedeiras, não havia mais uma garota na cidade disposta a, com ele, flertar, namorar, ficar. Os pais jamais aprovariam e uma ou outra que tentava desobedecer a proibição paterna era sempre vítima de algum castigo familiar.
A vida seguia seu rumo, com seus acontecimentos rotineiros e suas, para Caronte, benditas exceções. Como aquela grande festa organizada pela juventude pucumãnense onde seria coroada a rainha do coco babaçu, acontecimento anual que punha toda a juventude em polvorosa. A alegria pairava no ar, pois só se viam jovens em grupo, rindo e falando muito, visitando o comércio local, vendendo convites, arrecadando donativos e prêmios que seriam distribuídos às primeiras colocadas no concurso de beleza local.
Sabedor de que das cidades vizinhas chegariam rapazes e moças atraídos por aquela festa que já era uma tradição esperada por todos durante onze meses, Caronte viu naquilo uma oportunidade para se dar bem. Arranjar alguma namoradinha, bonita de preferência, pois as feias que o perdoassem, mas como ele havia lido no poeta Vinicius de Moraes “beleza é fundamental”.
Chegou o sábado da festa que se completava no domingo, quando a turma de jovens, num caminhão fretado, se dirigia à vizinha cidade de Colinas para um refrescante banho no rio Itapecuru.
O diabo é que nosso jovem Caronte, alegre e ansioso, angustiado e aflito, esperançoso e sôfrego, começou a encher a cara de cerveja, cachaça, conhaque Frei Damião ainda cedo da tarde. À noite, na tão gloriosa e esperada festa, nem sabe como chegou, nem o que se passou, somente em alguns momentos o cara tinha sopros de lucidez e visualizava um acontecimento ou outro. Ouvia quando a orquestra atacava uma música ou outra.
Lembra de sentar à mesa com alguns amigos que insistiram para que ele fizesse uma boquinha. Frango assado, carne do sol, farofa, de tudo mordiscou um pouquinho, bebeu um refrigerante ali mesmo na boca da garrafa e em dado momento os vapores do álcool pareceram dissipar-se quase por completo. Justamente na hora que os músicos entraram com os acordes da música Poema do Adeus, sucesso do cantor Miltinho, e uma das suas preferidas, quando o álcool lhe fazia cócegas no cérebro e o amor ou a paixão beliscavam seu coração qual um pássaro faminto.
Caronte pediu licença aos amigos, levantou-se e atravessou o salão de festas num passo de zigue-zague e parou diante daquela garota que lhe pareceu um anjo de formosura caído dos céus, mas enviada do município de Tuntum para que não passasse em brancas nuvens e fosse motivo de gozação dos colegas no dia seguinte. A maioria estava dançando, rostinho colado, ou então parados ao lado de uma garota, mãos entrelaçadas, a paquera correndo solta.
Chegara a sua vez e ele saiu castigando o bolero e na certa os pés da garota, que ninguém sabe quantas vezes foram pisados, mas o flerte engatou e Caronte passou o resto da festa, ou de mãos dadas com a menina, ou dançando, abraçando, beijando, acariciando, tudo meio de leve que a moral ali não permitia certos avanços.
Domingo de manhã, mais morto que vivo de ressaca, Caronte saiu de casa se preparando para se juntar à turma e irem curtir um gostoso banho no Rio Itapecuru, na vizinha cidade de Colinas. Ia em companhia de um amigo e, ao se aproximarem da turma, perguntou ao amigo qual era a garota com quem tinha ficado na festa, pois nem de sua fisionomia se lembrava direito.
O amigo então lhe apontou uma morena baixinha, de pernas tortas, arqueadas mais que pernas de cowboys pelo costume da montaria. Caronte quis voltar diante daquela garota que para ele, tão exigente em termos de beleza feminina, aquela garota se assemelhava mais com uma aparição do inferno. E o pior é que viu a garota destacar-se do grupo e caminhar na direção dele e do seu amigo.
Rápido, falou para o amigo: “Vou simular um desmaio, jogar-me no chão e tu avisa pra ela que é um ataque de epilepsia e que vais ter que ir me deixar em casa”. E assim fez, jogou-se ao chão, todo trêmulo, baba escorrendo do canto da boca, revirando os olhos entre gemidos e saracoteios.
E assim terminou aquela promessa de passeio dominical em companhia dos amigos. Preferiu ficar ali mesmo no seu Pucumã, bebendo cerveja, a ter que pagar um mico, diante dos colegas, em companhia daquela garota que mais parecia uma jaca. (Continua na próxima semana)
Texto Final 
Raimundo Fontenele








11 de abr. de 2018

ZONA PROIBIDA


Após mais de um mês gozando merecidas férias o nosso blog LITERATURA LIMITE está de volta para continuar dialogando com nossos amigos leitores sobre literatura e arte, política e cultura, filosofia e religião. Todos estes assuntos e temas relevantes, principalmente neste ano de 2018 quando temos a difícil missão de escolher o governante máximo de nosso país.
Mas, enquanto seu lobo não vem, vamos conhecer este personagem que criei e que dá nome ao meu livro de contos ainda inédito: trata-se de Alberto Caronte.  “Zona Proibida” é um pouco da biografia desse maluco beleza, doido de pedra, um outsider verdadeiro.


ZONA PROIBIDA

Nos poucos meses em que ficamos juntos nos metemos em todo tipo de prazer e dor. Tínhamos encontrado nossa metade mais acabada, mais que perfeita. Se era para seguirmos por uma vereda de salvação, lá íamos nós, fingida e verdadeiramente contritos. Convictos, com o mesmo ardor, nos arrastamos por tocas de perdição, lugares escusos, fontes copiosas de fel que jamais secariam.

  
            Depois da cerca, bem cuidada e estranha, jazia estendido no chão e uma faca enfeitava-lhe o peito, quase na altura do coração, com tinturas vermelhas. Isso. Ele estava ferido, caído na sarjeta. A lua, um pedaço de prata que o céu jogava na sua cara, era a única testemunha. Rastejou como fazem os vermes, no escuro e úmido chão de uma noite morta.

            Sara. Era esse seu nome. Arrancou-lhe do peito aquele pequeno punhal que, feliz ou infelizmente, não o ferira mortalmente. Levou-o, de táxi, para sua casa e o curou com sua amizade, seu amor, seu sexo.

            Ficou com ela por amor e amizade. Amor, porque esse foi o nome da sua perdição.. E amizade, porque esse não é um sentimento de mesquinhos. E ele estava perdido, mas não se sentia mesquinho, pelo menos naquela época. Daria tudo para tornar-se um santo, purificar-se, atingir alguma forma de perfeição. Mesmo que no só no papel. Pois, na real, era um cara que tinha quase todos os desvios, desejos, vícios e taras sexuais. E todos os crimes, e todas as culpas.

            Sara trabalhava numa empresa de telemarketing o dia inteiro. Sábados, domingos e feriados. Horas e horas extras, porque ele precisava de dinheiro para alimentar todas suas necessidades: bebida, drogas, os tais amigos, outras mulheres.

            Moravam numa casinha de madeira, alegre a agradável, de um claro azul que combinava com o marrom suave de grades, portas e janelas. Sempre limpa e asseada, todas as coisas nos seus devidos lugares. Dois quartos, duas salas, uma servindo de copa e a outra de sala de estar, uma cozinha espaçosa, banheiro e área de serviço num minúsculo quintal. Na frente da casa, vasos de plantas diversas: violetas, samambaias de Boston, bromélias, lírios da paz, begônias.

            – São as únicas plantas que suporto. Todas as outras dão azar – ela falou com uma voz de criança que sempre tinha, mesmo quando magoada ou feroz.

            Mas, quem ouvisse aquela voz ao telefone jamais saberia do que Sara era capaz. Estava com trinta anos e ele com quarenta. A forte, a batalhadora era ela. Havia catado aquele homem no lixo, sangrando. Quando sarou, deixou que a chupasse toda, pela primeira vez na vida; trepou nele e gozou entre urros, quase nunca suspiros. Deu-lhe lições de cavalheirismo em alguns restaurantes de grã-finos que, às vezes, frequentavam. Geralmente ele descolava uma grana nos fins de semana, não perguntem como. Há mil maneiras de se fazer dinheiro, inclusive, fazendo-o.

            Mas isso não importa agora. Sabiam que ali naquela casinha de Curitiba poderiam ter sido muito felizes. Eram pirados demais, cada um a sua maneira,, para qualquer plano dar certo. Como no poema de Maiakovski, o solo dos corações também havia secado. Pessoas que, mesmo querendo, não conseguiam amar. O pensamento e a emoção aprisionados pelo medo de sofrer. A determinação de não se repetirem. No fundo, seres originais.

Aos quarenta anos ele tinha enfrentado e perdido incontáveis batalhas. Fracasso em cima de fracasso. Uma terrível escalada para baixo. Quando chegava ao fundo do poço e conseguia anular-se completamente Caronte parava de sofrer. A vida lhe sabia mais tragável. Queria, de novo, voltar a ter um pouco de humanidade. Ela precisava do mesmo que ele, ansiava o mesmo que ele, dois sedentos em busca da mesma água.

Ao final das contas um dos dois devia sobrar. Alguém ia perder na história, e outro alguém ia sofrer mais, e perder mais. E perder tudo. Às vezes isso acontece. Mesmo que não se dêem conta. Flor a embriagá-los com seu perfume-veneno. O espinho e o rastro de sangue que ele deixa atrás de alguém.


Um dia contei o incidente, o cara que me acertou com o punhal, a polícia estava no encalço do cara, por isso ele resolveu sumir. Os vizinhos sabiam disso, só por isso escapou com vida e pela mão de Sara que passava naquele instante e foi com sua cara. Nem bonito nem feio. A simpatia, o papo inteligente, a conversa mole e afiada ganhava as pessoas, inspirava confiança.

Dentro de uma sala de uns quatro metros quadrados. Lá na frente havia uma pequena mesa de madeira e uma cadeira, sem encosto, onde o alemão Nardela, sentado, o torturava. Era a maquininha de tortura, parecia uma daquelas máquinas calculadoras antiquíssimas que se via em escritórios e casas comerciais, com uma manivela do lado direito, que na polícia chamavam de maricota.
Havia também um banco de madeira com, no máximo, uns quarenta centímetros de altura, que acolhera a jaqueta porteña de trinta dólares do infeliz Caronte, do lado oposto ao local onde há pouco se sentara seu algoz. Caronte tentou levantar-se, arrastar-se até aquele banco, ali estaria mais quente que o cimento frio, mas foi inútil qualquer esforço.
Caíra para frente, berrando, logo após a primeira saraivada de choques elétricos. “Sara me salva”, pensou e orou, ajoelhando-se.
A última vez em que se beijaram, umas três horas antes da sua prisão em flagrante, ela fora o empurrando até o sofá. Caiu deitado, ela sentou-se sobre ele, fervendo e trepidante, beijou-lhe os lábios com saliva quente e salgada, e era como se ela estivesse também ajoelhada e rezando. Na verdade antecipava no gozo a condenação. Por isso, embora estivessem molhados pelo desejo de macho e fêmea, abrasados, sedentos, mais quentes eram as lágrimas dela, antes e depois de tanta sofreguidão.
– Porra, já falei! Não sou traficante...
– Tu veio de onde, seu merda?
– Já disse. Vim por último de Camboriú. Mas estive antes em Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, São Luís, por aí...
– Chega! Tu vai falar “jacu” de bosta.
Depois desse diálogo entre o alemão Nardela, um policial com fama de torturador, e Caronte, acusado de tráfico de droga, a autoridade girou a manivela da Maricota com ódio e velocidade. Caronte pulou, um boneco de mola saltando para o nada. Deu de cara no chão, sangue escorria do seu queixo, mas ele não sentia dor alguma. Ficou ali caído, ofegante.
Abriu os olhos e estava sozinho. Mais de quarenta minutos se passaram, e só agora ele pode ver, com espanto, o local em que se encontrava. Na chegada o pânico foi tanto que praticamente não enxergou nada. A não ser a mesa, a máquina, o banco e a penumbra.

Chegou e pôs todos os sonhos na mesa. Eles iam ter do bom e do melhor, comer nos melhores restaurantes, viajar para qualquer ponto do universo. Falou aquilo e ela acreditou. Nem sabia como pode prometer tanto, logo ele que desde os sete anos de idade sabia que a vida nunca seria uma promessa. O certo é que estavam ali, ele e Sara, num lugar chamado Frango Sem Nariz. Era uma casa para lá de suspeita. Espécie de bar, restaurante, e, nos fundos, salas de jogatina, lugar para consumir drogas, quartos para a prática do sexo. Se você tivesse duzentos mangos para pagar uma hora, podia fazer o que quisesse.

Era um tempo de suspeitos, de asas lúgubres sobrevoando nossas cabeças e de sombras negras que se misturavam a nossa própria sombra. Foi assim que tudo começou naquela tarde chuvosa de setembro de uma quarta-feira, às duas e meia, num estacionamento de uma rua no bairro Barigui. Era primavera, mas não eram flores, e sim revólveres apontados na direção de Caronte e seu amigo Paçoca.
Haviam estacionado o volksblue, o Paçoca desceu e foi até um barzinho fazer um contato para entrega da mercadoria. Caronte permaneceu no carro, mas logo que Paçoca desapareceu, um nó apertou-lhe a garganta, alguma coisa girou angustiada na sua cabeça e ele desceu e foi tudo instantâneo.
Enquanto Caronte descia, ao mesmo tempo em que largava a droga no piso do carro, um Gol da polícia militar entrava no pátio, e dois policiais saltaram e caminharam em sua direção com revólveres em punho e engatilhados.
– Não se mexe... deita no chão, de bruços, porra! – falou um deles, alto, magro, moreno, com aquele bigodinho fino e bem aparado, em cujo crachá podia-se ler Soldado Rodolfo.

A vida tinha se tornado uma coisa valiosa para Caronte e cada ano agora era vivido intensamente, cada ano valia por dez. Se ele tivesse que escrever a história da sua vida seria assim que começaria o livro. Mas ele não estava escrevendo e sim contanto a história da sua vida.
Se ele tivesse outra vida, mesmo que fosse essa que se está contando agora, ele iria querer vivê-la de novo, porque achava que um homem era uma ponte entre o cão raivoso e feroz que se urina de ódio e aquela pomba branca sobre um gramado verde, anunciadora de paz e esperança.

Um fora da jogada.
Desesperado de amor e encharcado com a chuva persistente que caía naquele sábado. Felizmente Caronte estava com o estômago vazio. Não comera nada o dia todo e já eram cinco e picos da tarde, por isso não vomitou na sala de espera do consultório médico. Sara estava lá a uma eternidade.
Aí ela saiu, pálida e linda. Na rua, tonto, o coração cravado por esporas e esperas, quase se afogou nas palavras.
– E aí, Sara, fala logo.
– O doutor passou uns remédios e repouso absoluto, senão vou abortar. Disse que é estresse, cansaço, nervosismo, essas coisas.
Foi tudo o que falaram no trajeto para casa. Estava anoitecendo, Caronte iria ligar a TV, Sara ia ficar no quarto com suas dores e esquisitices, e foi o que aconteceu. Dez horas da noite Caronte não suportou mais aquilo ali, Sara dormia, na rua entrou no primeiro bar que encontrou, pediu um conhaque e uma cerveja e repetiu a dose até perder a conta de quanto s conhaques e cevas derrubara.
Uma noite de infernos se arrastava pelas ruas junto com ele. Instantes de lucidez repetiam martelando em seu cérebro que amar é perder, amar é esquecer, amar é sair de foco.
Caronte sabe apenas que esteve no apê de Verinha, uma puta novinha de tetas imensas que gozava gritando “ai tio, ai tio”, mas foi enxotado de lá aos primeiros claros da manhã. A embriaguez se dissipara um pouco, pés enlouquecidos o levaram a uma viela cheia de barracos de madeira no bairro Barigui.
Bateu três vezes na porta. Duas batidas aceleradas e uma mais lenta, era esta a senha. O cara que lhe abriu a porta com os olhos empapuçados era o Mahala, bicho grilo dono daquela boca-de-fumo, que tocou de leve em seu ombro, fechou a porta e lhe apresentou um baseado apagado e fumado pela metade. Caronte acendeu a guimba, deu uns três fortes tragadas e sentou-se num caixote de madeira no canto da sala.
– Tá mal, hein mano? – perguntou Mahala, cuspindo-lhe na cara por entre as falhas dos dentes.

Raimundo Fontenele
(do livro Pedaços de Alberto Caronte)

14 de dez. de 2017

ZONA PROIBIDA

           Após breve sumiço está de volta o nosso blog LITERATURA LIMITE com sua coluna QUARTA FEIRA É DIA DE RF e com novo endereço na web (www.literaturalimite.blogspot.com.br). Acesse e vamos curtir este texto que faz parte do livro de contos inéditos Pedaços de Alberto Caronte. Literatura e arte, ao contrário do que pensam e proclamam alguns, não é fuga e sim encontro com o outro, com nós mesmos e com o mundo.

ZONA PROIBIDA
         Nos poucos meses em que ficamos juntos nos metemos em todo tipo de prazer e dor. Tínhamos encontrado nossa metade mais acabada, mais que perfeita. Se era para seguirmos por uma vereda de salvação, lá íamos nós, fingida e verdadeiramente contritos. Convictos, com o mesmo ardor, nos arrastamos por tocas de perdição, lugares escusos, fontes copiosas de fel que jamais secariam.
         Depois da cerca, bem cuidada e estranha, jazia estendido no chão e uma faca enfeitava-lhe o peito, quase na altura do coração, com tinturas vermelhas. Isso. Ele estava ferido, caído na sarjeta. A lua, um pedaço de prata que o céu jogava na sua cara, era a única testemunha. Rastejou como fazem os vermes, no escuro e úmido chão de uma noite morta.
         Sara. Era esse seu nome. Arrancou-lhe do peito aquele pequeno punhal que, feliz ou infelizmente, não o ferira mortalmente. Levou-o, de táxi, para sua casa e o curou com sua amizade, seu amor, seu sexo.
         Ficou com ela por amor e amizade. Amor, porque esse foi o nome da sua perdição.. E amizade, porque esse não é um sentimento de mesquinhos. E ele estava perdido, mas não se sentia mesquinho, pelo menos naquela época. Daria tudo para tornar-se um santo, purificar-se, atingir alguma forma de perfeição. Mesmo que no só no papel. Pois, na real, era um cara que tinha quase todos os desvios, desejos, vícios e taras sexuais. E todos os crimes, e todas as culpas.
         Sara trabalhava numa empresa de telemarketing o dia inteiro. Sábados, domingos e feriados. Horas e horas extras, porque ele precisava de dinheiro para alimentar todas suas necessidades: bebida, drogas, os tais amigos, outras mulheres.
         Moravam numa casinha de madeira, alegre a agradável, de um claro azul que combinava com o marrom suave de grades, portas e janelas. Sempre limpa e asseada, todas as coisas nos seus devidos lugares. Dois quartos, duas salas, uma servindo de copa e a outra de sala de estar, uma cozinha espaçosa, banheiro e área de serviço num minúsculo quintal. Na frente da casa, vasos de plantas diversas: violetas, samambaias de Boston, bromélias, lírios da paz, begônias.
         – São as únicas plantas que suporto. Todas as outras dão azar – ela falou com uma voz de criança que sempre tinha, mesmo quando magoada ou feroz.
         Mas, quem ouvisse aquela voz ao telefone jamais saberia do que Sara era capaz. Estava com trinta anos e ele com quarenta. A forte, a batalhadora era ela. Havia catado aquele homem no lixo, sangrando. Quando sarou, deixou que a chupasse toda, pela primeira vez na vida; trepou nele e gozou entre urros, quase nunca suspiros. Deu-lhe lições de cavalheirismo em alguns restaurantes de grã-finos que, às vezes, frequentavam. Geralmente ele descolava uma grana nos fins de semana, não perguntem como. Há mil maneiras de se fazer dinheiro, inclusive, fazendo-o.
         Mas isso não importa agora. Sabiam que ali naquela casinha de Curitiba poderiam ter sido muito felizes.Eram pirados demais, cada um a sua maneira,, para qualquer plano dar certo. Como no poema de Maiakovski, o solo dos corações também havia secado. Pessoas que, mesmo querendo, não conseguiam amar. O pensamento e a emoção aprisionados pelo medo de sofrer. A determinação de não se repetirem. No fundo, seres originais.
Aos quarenta anos ele tinha enfrentado e perdido incontáveis batalhas. Fracasso em cima de fracasso. Uma terrível escalada para baixo. Quando chegava ao fundo do poço e conseguia anular-se completamente Caronte parava de sofrer. A vida lhe sabia mais tragável. Queria, de novo, voltar a ter um pouco de humanidade. Ela precisava do mesmo que ele, ansiava o mesmo que ele, dois sedentos em busca da mesma água.
Ao final das contas um dos dois devia sobrar. Alguém ia perder na história, e outro alguém ia sofrer mais, e perder mais. E perder tudo. Às vezes isso acontece. Mesmo que não se dêem conta. Flor a embriagá-los com seu perfume-veneno. O espinho e o rastro de sangue que ele deixa atrás de alguém.

Um dia contei o incidente, o cara que me acertou com o punhal, a polícia estava no encalço do cara, por isso ele resolveu sumir. Os vizinhos sabiam disso, só por isso escapou com vida e pela mão de Sara que passava naquele instante e foi com sua cara. Nem bonito nem feio. A simpatia, o papo inteligente, a conversa mole e afiada ganhavam as pessoas, inspiravam confiança.
Dentro de uma sala de uns quatro metros quadrados. Lá na frente havia uma pequena mesa de madeira e uma cadeira, sem encosto, onde o alemão Nardela, sentado, o torturava. Era a maquininha de tortura, parecia uma daquelas máquinas calculadoras antiquíssimas que se via em escritórios e casas comerciais, com uma manivela do lado direito, que na polícia chamavam de maricota.
Havia também um banco de madeira com, no máximo, uns quarenta centímetros de altura, que acolhera a jaqueta porteña de trinta dólares do infeliz Caronte, do lado oposto ao local onde há pouco se sentara seu algoz. Caronte tentou levantar-se, arrastar-se até aquele banco, ali estaria mais quente que o cimento frio, mas foi inútil qualquer esforço.
Caíra para a frente, berrando, logo após a primeira saraivada de choques elétricos. “Sara, me salva”, pensou e orou, ajoelhando-se.
A última vez em que se beijaram, umas três horas antes da sua prisão em flagrante, ela fora empurrando-o até o sofá. Caiu deitado, ela sentou-se sobre ele, fervendo e trepidante, beijou-lhe os lábios com saliva quente e salgada, e era como se ela estivesse também ajoelhada e rezando. Na verdade antecipava no gozo a condenação. Por isso, embora estivessem molhados pelo desejo de macho e fêmea, abrasados, sedentos, mais quentes eram as lágrimas dela, antes e depois de tanta sofreguidão.
– Porra, já falei! Não sou traficante...
– Tu veio de onde, seu merda?
– Já disse. Vim por último de Camboriú. Mas estive antes em Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, São Luís, por aí...
– Chega! Tu vai falar “jacu” de bosta.
Depois desse diálogo entre o alemão Nardela, um policial com fama de torturador, e Caronte, acusado de tráfico de droga, a autoridade girou a manivela da Maricota com ódio e velocidade. Caronte pulou, um boneco de mola saltando para o nada. Deu de cara no chão, sangue escorria do seu queixo, mas ele não sentia dor alguma. Ficou ali caído, ofegante.
Abriu os olhos e estava sozinho. Mais de quarenta minutos se passaram, e só agora ele pode ver, com espanto, o local em que se encontrava. Na chegada o pânico foi tanto que praticamente não enxergou nada. A não ser a mesa, a máquina, o banco e a penumbra.
Chegou e pôs todos os sonhos na mesa. Eles iam ter do bom e do melhor, comer nos melhores restaurantes, viajar para qualquer ponto do universo. Falou aquilo e ela acreditou. Nem sabia como pode prometer tanto, logo ele que desde os sete anos de idade sabia que a vida nunca seria uma promessa. O certo é que estavam ali, ele e Sara, num lugar chamado Frango Sem Nariz. Era uma casa para lá de suspeita. Espécie de bar, restaurante, e, nos fundos, salas de jogatina, lugar  para consumir drogas, quartos para a prática do sexo. Se você tivesse duzentos mangos para pagar uma hora, podia fazer o que quisesse.
Era um tempo de suspeitos, de asas lúgubres sobrevoando nossas cabeças e de sombras negras que se misturavam a nossa própria sombra. Foi assim que tudo começou naquela tarde chuvosa de setembro de uma quarta-feira, às duas e meia, num estacionamento de uma rua no bairro Barigui. Era primavera, mas não eram flores, e sim revólveres apontados na direção de Caronte e seu amigo Paçoca.
Haviam estacionado o volksblue, o Paçoca desceu e foi até um barzinho fazer um contato para entrega da mercadoria. Caronte permaneceu no carro, mas logo que Paçoca desapareceu, um nó apertou-lhe a garganta, alguma coisa girou angustiada na sua cabeça e ele desceu e foi tudo instantâneo.
Enquanto Caronte descia, ao mesmo tempo em que largava a droga no piso do carro, um Gol da polícia militar entrava no pátio, e dois policiais saltaram e caminharam em sua direção com revólveres em punho e engatilhados.
– Não se mexe... deita no chão, de bruços, porra! – falou um deles, alto, magro, moreno, com aquele bigodinho fino e bem aparado, em cujo crachá podia-se ler Soldado Rodolfo.
  
A vida tinha se tornado uma coisa valiosa para Caronte e cada ano agora era vivido intensamente, cada ano valia por dez. Se ele tivesse que escrever a história da sua vida seria assim que começaria o livro. Mas ele não estava escrevendo e sim contanto a história da sua vida.
Se ele tivesse outra vida, mesmo que fosse essa que se está contando agora, ele iria querer vivê-la de novo, porque achava que um homem era uma ponte entre o cão raivoso e feroz que se urina de ódio e aquela pomba branca sobre um gramado verde, anunciadora de paz e esperança.
Um fora da jogada.
Desesperado de amor e encharcado com a chuva persistente que caía naquele sábado. Felizmente Caronte estava com o estômago vazio. Não comera nada o dia todo e já eram cinco e picos da tarde, por isso não vomitou na sala de espera do consultório médico. Sara estava lá a uma eternidade.
Aí ela saiu, pálida e linda. Na rua, tonto, o coração cravado por esporas e esperas, quase se afogou nas palavras.
– E aí, Sara, fala logo.
– O doutor passou uns remédios e repouso absoluto, senão vou abortar. Disse que é estresse, cansaço, nervosismo, essas coisas.
Foi tudo o que falaram no trajeto para casa. Estava anoitecendo, Caronte iria ligar a TV, Sara ia ficar no quarto com suas dores e esquisitices, e foi o que aconteceu. Dez horas da noite Caronte não suportou mais aquilo ali, Sara dormia, na rua entrou no primeiro bar que encontrou, pediu um conhaque e uma cerveja e repetiu a dose até perder a conta de quanto s conhaques e cevas derrubara.
Uma noite de infernos se arrastava pelas ruas junto com ele. Instantes de lucidez repetiam martelando em seu cérebro que amar é perder, amar é esquecer, amar é sair de foco.
Caronte sabe apenas que esteve no apê de Verinha, uma puta novinha de tetas imensas que gozava gritando “ai tio, ai tio”, mas foi enxotado de lá aos primeiros claros da manhã. A embriaguez se dissipara um pouco, pés enlouquecidos o levaram a uma viela cheia de barracos de madeira no bairro Barigui.
Bateu três vezes na porta. Duas batidas aceleradas e uma mais lenta, era esta a senha. O cara que lhe abriu a porta com os olhos empapuçados era o Mahala, bicho grilo dono daquela boca-de-fumo, que tocou de leve em seu ombro, fechou a porta e lhe apresentou um baseado apagado e fumado pela metade. Caronte acendeu a guimba, deu uns três fortes tragadas e sentou-se num caixote de madeira no canto da sala.
– Tá mal, hein mano? – perguntou Mahala, cuspindo-lhe na cara por entre as falhas dos dentes.

16 de jun. de 2016

CAIXA DE SONETOS


            Nesta  Quarta-feira é dia de RF, tradicional coluna deste Blog vamos de soneto. Esta forma poética, segundo o que se sabe, apareceu aí por volta do Século XII, na Sicília, região da Itália, famosa também pela Cosa Nostra. Máfia e Soneto é uma mistura pra lá de explosiva. Uma, a Máfia, explode a vida e a outra, o Soneto, explode apenas o coração. O que vem a dar no mesmo.
            Forma poética fixa, 14 versos, de dez sílabas cada, e que eram distribuídos em 4 estrofes. As duas primeiras de 4 versos cada, formando os quartetos e as duas últimas de 3 versos cada, os tercetos.  Quem aperfeiçoou e o difundiu por toda a Europa foi o poeta italiano Petraca, com seu livro Il Canzoniere, composto de 317 sonetos e que exerceu enorme influência sobre toda a literatura ocidental.
            Há quem afirme, porém, que o soneto metrificado teria aparecido por volta do ano 630 a.C., pelas mãos da poetisa grega Safo (a famosa da ilha de Lesbos, patrona da sapataria ilimitada que se difunde hoje na nossa sociedade pra lá de avançadinha. Epa, não sou lesbofóbico, bravas feministas do grelo duro!).
            Não importa. Sofreu modificações. Alteraram-se os números de sílabas, mandou-se muitas vezes a métrica e a rima pra escanteio e seguindo este “barco ébrio” a la Rimbaud, também estou cometendo uns pobres sonetos ou dando minhas cacetadas (Didi Mocó fez escola) na poesia.
            Apresento-lhes, assim, 7 sonetos de um livro ainda inédito composto só de sonetos e que chamei justamente como no título desta coluna, lá em cima, Caixa de Sonetos.  Modestos e envergonhados sonetos, é vero.


1


De noite a vida tarda e o coração,
esse porão de angústias e silêncios,
não teme mais a dona sem mistérios
que me leva pela mão ao grande abismo.

Que bom!,  estou aqui, e ainda hoje
pressinto as sutilezas deste dia
em que herdarei o fruto cobiçado
da grande deusa, mãe das alegrias.

És, então, o pequeno grão de areia
que, na terra, entregue ao abandono
de si mesmo, rastejou feito cobra

pelas ilhas desertas e o mar bravio,
e agora chora o porto já perdido:
de onde se afastou sem haver ido.

2


Um vulto apaga a sombra que deixaste
mover-se ao sol, na tarde cristalina.
Teus olhos são dois rios; corredeiras
que lavam tuas lágrimas na neblina.

O resto é pose, curva do caminho
em que te perdeste rumo ao norte,
sem saberes que a estrada é sinuosa
e tanto leva pra vida ou para a morte.

Assim caminharás, a fronte erguida,
passos trôpegos, e  ombros curvados
sob o peso do fardo que é tua sina.

Nem vulto ou sombra que ao sol se mova
na tarde de areias  movediças:
apenas uma ausência que caminha.

3


Ah, que a tarde vai alta e o dia vem
com seus medos, anseios e desejos
pra nos fazer sofrer e é só loucura
o que se sente nestas horas mudas.

Que venha logo a noite e o seu escuro
é só o que desejamos nestas horas:
um véu que nos esconda deste mundo
até que esta tristeza vá embora.

Não me falta amor e nem dinheiro;
não estou nem doente, nem sozinho.
Essa angústia é sem nome, prenuncia

tempestades ou morte, ou nem isso,
falta apenas o cantar de um passarinho
que anuncie o raiar de mais um dia.

4


No barco de Caronte em mar bravio
fui ter depois à praia ensolarada,
igual a estar fugindo do inferno
até o Brasil, a pátria desejada.

Mas tudo era confuso entre a neblina:
anjos da treva barravam meu caminho
pra que eu não visse mais a luz divina.
Luz sagrada pra quê, neste país de otários?

De pilantras, vagabundos e falsários?
Governantes cruéis ferrando o povo,
como se o próprio povo fosse o gado

abatido e vendido aí aos montes.
Malditos usurpadores do poder!,
eles, e não eu, na barca de Caronte.

5


Chovia no meu céu, e só chovia
a tarde inteira em mim ao desabrigo.
Luzes da ribalta, na urbe entorpecida
e vendilhões do templo nas calçadas.

Veio da Itália o verso de Petrarca,
da Grécia antiga o pensamento puro
e nós, aqui, numa pátria de nada
sem futuro, sem glória, sem la plata.

Privados do orgulho de ser gente,
sem um Moisés que nos guie na jornada,
para fora dos círculos infernais

de dor e fúria, fome e tirania.
Assim é nossa vida, assim é a tarde
nesta pátria de infames e covardes.

6


Onde eu estiver por certo ouvirei
um aviso no canto de alguns pássaros.
Tudo passou e a vida também passa
qual alquimia de algum feiticeiro

que transforma o ouro em prataria,
e a prata em ouro, e o cego passa a ver
aquilo que aqui antes não havia.
As mãos em concha sobre o peito aberto

ao vento e à solidão, ao amor e tudo
traz de novo o sofrimento  de viver
ansiando outra vida mais completa

que esta, debulhada como milho,
sem paz e sem futuro e nenhum brilho,
só  relva e sono na manhã quieta.

7

Ouro e prata ficarão na memória do poema.
São Luís e Ítaca,  que já  foram, não são mais.
Ali bem perto ou longe, beira-mar a dentro,
a vida é pura solidão de espuma e sais.

As caravelas de pedra, e todos os guerreiros
noturnos, cantos de espadas e infindos ais
dormem aqui, onde outrora, luso-brasileiros
se lançavam a este mar por onde agora vais.

Esquinas, navios, barcas de pão e peixes,
lonas cobrindo o escambo e tudo isto
que o sol revela e expõe no dia pleno.

Os marujos cochilam. Ébria, la nave cega vai
no turbilhão de ondas rumo ao naufrágio:
Ítaca, sou teu rei!, coberto de andrajos.


Raimundo Fontenele