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19 de dez. de 2016

J Alves - A Versão Maranhense de Guerras dos Mundos (H.G Wells)



Faleceu hoje a tarde no hospital Aldenora Belo em São Luís o radialista J Alves. No inicio dos anos 70 o radialista ficou famoso por ser responsável pela versão maranhense da narração do livro Guerra dos Mundos de H.G Wells.

A narração do livro de ficção do escritor H.G Wells ficou bastante famosa no mundo inteiro primeiramente com o ator e diretor Orson Wells, em 1938 o diretor de clássicos como A dama de Xangai e o magnífico Cidadão Kane, realizou a narração do livro através do formato radioteatro nos estúdios da CBS. A dramatização causou pânico generalizado em todo território americano, a narração realizada por Orson Wells foi noticiada pela rádio como um fato verídico sendo narrado em tempo real, o imenso talento de Orson levou milhares de pessoas a acreditar que o planeta estava realmente sendo invadido por seres extraterrestres.

Exemplar de O Imparcial da época

Em 1971 J Alves era radialista da Radio Difusora quando teve a idéia de realizar um feito aos moldes do realizado por Orson Wells na década de trinta. A narração ficou bastante famosa no período por fazer obter o mesmo efeito de anos atrás, todos os ouvintes maranhenses que estavam naquele dia sintonizados nas ondas da Rádio Difusora realmente acreditaram na invasão fictícia. No centro de São Luís diversos comércios fecharam as portas, muitos pensaram que o mundo estava acabando de fato, "Não tínhamos o que fazer, era uma brincadeira. Mas não sabíamos o alcance e o poder do veículo que tínhamos nas mãos", afirma Manoel José Pereira dos Santos, o Pereirinha, 61 anos, responsável pelos efeitos sonoros do programa. Um oficial do exército que no dia estava na cidade de Pinheiro, foi obrigado a fretar um avião para chegar a São Luís a tempo, ao chegar se deparou com a trama, a emissora foi obrigada a pagar o frete viário e acabou ficando fechada por três dias.





22 de mar. de 2016

Maria Firmina dos Reis – Primeira Romancista Brasileira e Musa das Feministas


Por Natan Castro

Maria Firmina dos Reis foi uma mulata, bastarda que nasceu em São Luís em 1825. Era prima do grande escritor maranhense Sotero dos Reis o autor da primeira gramática brasileira. Segundo alguns historiadores é visível a influência de Sotero dos Reis na formação intelectual de Maria Firmina dos Reis. Considerada a primeira romancista do Brasil, tal titulo se deu por conta do lançamento do seu romance chamado Úrsula. Além de ser o primeiro romance lançado no Brasil por uma mulher, foi lançado por uma mulata, num período onde o papel da mulher na sociedade brasileira era tremendamente limitado, não bastasse isso o romance possui em suas entrelinhas criticas as práticas escravagistas tão em voga no século XIX.    

Maria Firmina além de ser detentora de todo esse pioneirismo literário feminista, essa personagem das letras maranhenses possui uma história de vida bastante interessante, diferente de alguns autores, Maria Firmina literalmente vivia na prática muito das ideias que sustentava no seu romance. Ela foi reconhecidamente a primeira educadora feminina do Estado do Maranhão, antes de ser professora do Estado ela já de forma pessoal ajudou a educar varias crianças na capital maranhense. A escritora viveu os últimos anos de sua vida na cidade de Guimarães (MA), além de lecionar na cidade, Maria Firmina educou e criou praticamente sozinha cerca de onze crianças. Diante de tais informações verificamos o quão é sui generis a figura dessa escritora de origem negra e nordestina, num período de nossa história onde a mulher era impedida inclusive de votar, essa mesma mulher teve a audácia de escrever um romance de teor humanista, num meio literário totalmente ocupado por membros do sexo masculino.

Atualmente setores da sociedade como o das feministas e outros voltados para igualdade racial e de gêneros tem na figura de Maria Firmina dos Reis uma espécie de musa, uma heroína que ousou interferir na história do país que era protagonizado totalmente por cabeças masculinas.

Meditação
                                                   (Maria Firmina dos Reis)

Vejamos pois esta deserta praia,
Que a meiga lua a pratear começa,
Com seu silêncio se harmoniza esta alma,
Que verga ao peso de uma sorte avessa.
Oh! meditemos na soidão da terra,
Nas vastas ribas deste imenso mar;
Ao som do vento, que sussurra triste,
Por entre os leques do gentil palmar.
O sol nas trevas se envolveu, - mistérios
Encerra a noite, - ela compr'ende a dor;
Talvez o manto, que estendeu no bosque,
Encubra um peito que gemeu de amor.
E o mar na praia como liso ondeia,
gemendo triste, sem furor - com mágoas...
Também meditas, oh! salgado pego -
Também partilhas desta vida as frágoas?...
E a branca lua a divagar no céu,
Como uma virgem nas soidões da terra;
Que doce encanto tem seu meigo aspecto,
E tanto enlevo sua tristeza encerra!
Sim, meditemos... quem gemeu no bosque,
Onde a florzinha a perfumar cativa?
Seria o vento? Ele passando ergueu
Do tronco a copa sobranceira, altiva.
Passou. E agora sufocando a custo
Meu peito o doce palpitar do amor,
Delícias bebe desterrando o susto,
Que a noite incute a semear pavor.
E um deleite inda melhor que a vida,
langor, quebranto, ou sofrimento ou dor;
Um quê de afetos meditando eu sinto,
Na erma noite, a me exaltar de amor.
Então a mente a divagar começa,
Criando afouta seu sonhado amor;
Zombando altiva de uma sorte avessa,
Que oprime a vida com fatal rigor.
E nessa hora a gotejar meu pranto,
Nas ermas ribas de saudoso mar,
Vagando a mente nesse doce encanto,
Dá vida ao ente, que criei p'ra amar.
E a doce imagem vaporosa, e bela,
Que a mente erguera, engrinaldou de amor,
Ergue-se vaga, melindrosa, e grata
Como fragrância de mimosa flor.
E o peito a envolve de extremoso afeto,
E dá-lhe a vida, que lhe dera Deus;
Ergue-lhe altares - lhe engrinalda a fronte,
Rende-lhe cultos, que só dera aos céus.
Colhe p'ra ela das roseiras belas,
Que aí cultiva - a mais singela flor:
E num suspiro vai depor-lhe as plantas,
Como oferenda - seu mimoso amor.
Mas, ah! somente a duração dum ai
Tem esse breve devanear da mente.
Volve-se a vida, que é só pranto, e dor,
E cessa o encanto do amoroso ente.


[ CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 173-175 ]

28 de jan. de 2016

Sartre e Simone Beauvoir – Sexo, Mentiras e Existencialismo


Sartre e Simone Beauvoir
Por Natan Castro

O casal Sartre e Simone Beauvoir formou durante muitos anos no século passado uma espécie de casal 20 do meio intelectual. Sartre o grande nome do existencialismo e Simone Beauvoir uma escritora de renome internacional. Ambos eram franceses e mantiveram durante anos uma relação estável, mas nunca tiveram filhos. A união vista por um viés mais simbólico, sempre existiu a luz de uma liberdade que abrangia os dois lados da relação, tanto no campo teórico quanto no prático. Ambos são reconhecidos como artífices da liberdade, Sartre pelo engajamento em causas politico-sociais revolucionárias que ultrapassava o campo das ideias e aconteciam na prática do dia a dia. Simone Beauvoir a escritora brilhante, musa do feminismo, suas ideias a respeito não só podem ser vistas em obras, como também puderam ser disseminadas através de palestras sobre o assunto ao redor do mundo.

Sartre, Simone e Fidel Castro
Logo quando a união se tornou pública o casal de intelectuais em uma atitude corajosa e um tanto quanto além de seu tempo, deixou bem claro que aquela união se tratava de um relacionamento aberto. Nada mais novo para aqueles tempos que eram de guerras, segregação racial, luta de classes e coisas afins. O que Sartre e Simone deixavam bem claro era que o relacionamento entre os dois, era baseado num movimento de liberdade recíproca, ou seja, os dois lados estavam liberados para relações extraconjugais a qualquer tempo, desde que os mesmos estivessem sempre a par do que estava sempre acontecendo. Além de admirá-los pela coragem estética de suas ideias no campo social e político, o mundo civilizado passou a admirar aquele casal pela audácia conjugal propagada por eles. Na concepção do casal do que adiantava os dois terem como meta existencial a luta pela liberdade como forma de formular um mundo mais igualitário? Se no âmbito do relacionamento eles estariam acorrentados às tradições antiquadas que tanto combatiam.

Ativistas Feministas
São famosos os casos extraconjugais envolvendo os dois intelectuais. Mas não há dúvidas que os mais famosos foram o de Sartre com a radialista americana Dolores Vanetti e do lado de Simone sua relação com o escritor também americano Nelson Algren.

Dolores Vanetti



Em 1945 Sartre viajou aos EUA como enviado do jornal Le Fígaro e Combat, lá conhece a jovem Dolores Vanetti, de pronto nasce uma ardente paixão, logo depois é obrigado a retornar a Paris retomando suas atividades entre escritos, livros, artigos, mas isso tudo não o faz esquecer Dolores e em seguida volta ao EUA para os braços da jovem. Dessa vez passa cerca de três meses com Dolores em meio a vida literária de Nova York, e adia o seu retorno, em suas correspondências com Simone nesses meses fica bastante claro que Sartre reluta em viajar para Paris.  Mas é o que acontece, Simone percebe que é visível o interesse do filósofo por Dolores  “Ao seu retorno dos EUA ele fala muito de Dolores. Eles tinham projetos de passar três ou quatro meses por ano juntos. As separações não me assustavam, mas ele evocava com tanta alegria as semanas passadas em N.Y que eu ficava inquieta. Eu me perguntava se ele não estaria mais apaixonada por ela do que por mim.” Sabe-se que os encontros continuaram por mais tempo, em 1949 numa viagem com Dolores a America Central após se dá conta do quanto essa paixão estava ficando fora do seu controle, propõe a Dolores um afastamento com a relação se resumindo a apenas alguns encontros em um apartamento bancado por ele, mas Dolores Vanetti recusa.

Nelson Algren e Simone Beauvoir
Também em 1949 muito abatida pela profunda relação em  que Sartre tinha se envolvido, Simone Beauvoir viaja para os EUA para participar de conferências divulgando seus livros, e em Chicago conhece o escritor Nelson Algren (O homem do braço de ouro), logo surge uma paixão tórrida entre os dois, Nelson era o escritor boêmio, profundo conhecedor da vida marginal de Chicago, inclusive os personagens de maior parte de suas obras vinham dessa vivência que o escritor possuiu perambulando pelos prostíbulos, bares e mesas de jogos. Simone Beauvoir adentra o mundo de Nelson e encontra nele a mesma verve intelectual de Sartre, porém com um tempero mais rasteiro e viril, de um literato que transitava com facilidade entre o submundo e os salões literários. Nas correspondências entre os dois percebemos a perfeita entrega da escritora perante os movimentos sedutores de Nelson Algren, o escritor pediu Simone Beauvoir em casamento, e não teve resposta, a escritora viveu o resto de seus dias com um anel de prata que ganhou de presente do escritor. A critica literária observou depois a influencia do amante na obra prima O Segundo Sexo, onde Simone discorre sobre seus ideais feministas. Segundo a própria Simone no período em que conheceu Nelson Algren estava a 13 anos sem relações sexuais com Sartre, ainda nos detalhes sexuais que envolveram a relação é famosa a afirmação por parte da escritora que Nelson tinha levado ela pela primeira vez ao orgasmo.

Depois do fim desses dois relacionamentos Sartre e Simone perceberam o quanto era difícil manter as aparências diante da opinião pública. Nos bastidores do relacionamento marcas indeléveis continuaram nos dois lados até o final da vida, o casal de intelectuais mais influentes do século XX estiveram juntos durante 54 anos, em 1980 Sartre morreu e seis anos depois Simone Beauvoir, os dois estão enterrados lado a lado no cemitério de Montparnasse em Paris.

Lista de amantes do casal