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15 de out. de 2016

A NOITE DOS AUSENTES - O SÁBIO CEGO



Naquela tarde de quinta feira nuvens carregadas pairavam o céu do meu bairro, não demorou muito até que alguns curtos filetes de água caíssem do céu. Acomodei-me embaixo do teto de ferro da parada de ônibus, naquele instante uma reflexão saltou entre meus neurônios, já havia uns quinze anos que frequentava aquela parada de ônibus e juntando com o período onde andava sempre acompanhado de minha mãe, lá se iam mais uns sete. O ambiente dos coletivos sempre representou uma espécie de reduto democrático imposto, com regras definidas inclusive, os idosos, grávidas e deficientes com cadeiras reservadas, na ausência de alguns desse grupo qualquer pessoa pode sentar nas cadeiras, mesmo sendo negro, branco, pardo, clérigo, ateu, agnóstico, católicos ou afins. Com o passar dos anos o trânsito da cidade de São Luís vem crescendo numa ascendente caótica preocupante, haja vista a cidade não ter sido planejada em geral, como também não foram às vias para automóveis. Algo que sempre me chamou atenção, era que enquanto nos horários de pico algumas dezenas de pessoas se espremiam dentro dos coletivos, do lado de fora se podia ver uma quantidade enorme de carros muito das vezes carregando somente uma ou duas pessoas, o contraste entre essas duas situações demonstra tacitamente a trágica distância entre a realidade das classes sociais de São Luís e de outras capitais espalhadas por esse mundão de meu deus.

Ao descer a Praça Deodoro exalava um ar abafado, tudo por conta do choque entre a quentura da manhã e a chuva fina que caia nas pedras de mármore da Praça. Enquanto isso os vendedores de guarda-chuvas e de “sombrinhas” corriam de um lado para o outro abordando os transeuntes que eram vomitados para fora dos ônibus lotados. Coloquei o livro por dentro da camisa e comprei um churros que logo estava levemente molhado, na subida da escadaria de entrada da Biblioteca um deficiente visual fitou-me fortemente com seus olhos esbranquiçados enquanto erguia em minha direção sua vasilha de alumínio com algumas poucas moedas. Adentrei rapidamente a Biblioteca, mas aquela imagem do deficiente permaneceu em minha mente retornando de vez em quando.

Lá dentro depois de entregar o livro, sentei em uma das mesas circulares no salão e comecei a olhar com parcimônia todo aquele ambiente, imaginei quantos escritores de nossa grande tradição literária por lá estiveram desde a inauguração do prédio construído em estilo neoclássico no dia 12 de Setembro de 1951. Dias antes havia lido um artigo que tratava do genial trabalho de pesquisa realizado por Jomar Moraes e o professor americano  Frederick Granger Williams sobre a grande obra de Sousândrade. Parte da obra do escritor havia ficado por anos esquecida nos arquivos da Biblioteca desde seu falecimento em 21 de Abril de 1902. Por volta de meados da década de setenta, o professor Frederick Granger Williams encontrou alguns poemas publicados por Sousândrade em jornais dos Estados Unidos, referente ao período que o poeta esteve morando no país. Logo em seguida viajou ao Maranhão e juntamente com o escritor Jomar Moraes que a época era o diretor da Biblioteca realizou um grande trabalho de resgate da obra desse grande poeta do romantismo.

Já se passavam das 18h:00 da tarde, dali a alguns minutos a Biblioteca seria fechada e esvaziada totalmente, somente as câmeras de segurança ficariam vistoriando as dependências durante a noite, meu plano estava prestes a ser colocado em prática. Resolvi sair um pouco e ver como estava a noite lá fora na Praça, ao sair o mesmo cego de horas antes me fez uma pergunta assustando-me, num canto escuro do primeiro degrau da escada ele disse:

- Rapaz, nem sempre a curiosidade é nossa amiga, sabia!

Olhei de lado ele estava tateando as moedas no chão como se estivesse contando os valores das mesmas, então lhe indaguei:

- Até onde eu sei a curiosidade é mãe do progresso da humanidade.

Mais uma vez ele fitou-me com aqueles olhos de medusa, e disparou.

Garoto essa curiosidade a que se refere é exatamente aquela curiosidade saudável. A mesma que acompanhou Galileu, Newton e Einstein. Sabe meu rapaz a juventude costuma nos trair nesses períodos iniciais de nossas vidas.

- Você me fala isso em nome de sua experiência própria?

Por favor, sente-se rapaz vou te contar uma breve história sobre coisas que existem e sempre existirão, mas fatos alheios a nós fazem com que essas tais coisas passem despercebidas e intocadas por muito e muito tempo.


Sentei do lado daquele cego desconhecido, que mais parecia um farrapo humano, e comecei a ouvi-lo com bastante atenção, ele cheirava a fumo, segundo meu olfato era fumo da marca caipora, meu pai durante muitos anos foi adepto desse fumo. 

Continua...

Por Natan Castro

7 de out. de 2016

A NOITE DOS AUSENTES (PARTE II) - AS INICIAIS



Confesso que ainda na quarta a lembrança do bilhete veio à tona. A informação insólita de que aconteciam reuniões dentro da Biblioteca Benedito Leite, começou a suscitar uma batalha em meus pensamentos, duas vertentes uma contrária e outra a favor realizavam naquela ocasião embates no interior de minhas análises. Sempre tive uma forte propensão por assuntos exóticos, e esse se mostrava além de exótico inteiramente misterioso beirando o improvável. Uma vertente de meus pensamentos buscava sempre análises mais racionais, não era sempre que me via aceitando uma possibilidade sem antes realizar sobre a mesma diversas perguntas e indagações, eliminar qualquer dúvida fazia parte da finalização desse processo.

Na quinta passei o dia lendo o manual que havia tomado emprestado na Biblioteca. Estava na metade do livro, nada que fugisse aos manuais de aventuras turísticas, no final de semana surgiu algo inusitado na leitura. Cheguei a uma página onde se podiam ler diversos apontamentos, entre os parágrafos, tratava-se de observações sobre debates, numa dessas observações o autor citava a necessidade dos membros do grupo se engajarem mais nos temas escolhidos. Algo que chamou minha atenção profundamente é que sempre que se referiam a nomes essas observações usavam somente letras como M.F, S.A ou M.S, algo que me jogou contra a parede, o que antes era apenas uma pulga atrás da orelha, passou dali pra frente a ser algo mais instigante.

A semana seguinte havia chegado, junto dos cafés, dos almoços, do calor extenuante, o inverno sempre foi uma estação mais amiga quando o assunto era leituras, tomada de decisões, mudanças de rumo em minha vida. Naqueles dias havia tentado diversas coisas, cinema, caminhadas, violão, tudo na tentativa de me livrar daquelas informações, por vezes pensava se outras pessoas haviam passado por aquilo, se haviam também se deparado com aquelas informações, muitas pessoas frequentam e de repente podem ter também se deparado com aquelas informações. Em outros momentos pensava que de repente eu seria um escolhido, deveria estar escrito em algum lugar, teoria da conspiração? Já havia chegado a terça e eu já estava quase no fim do manual, sentado numa mesa de bar entre a leitura de parágrafos, baforadas de cigarro, lá pras tantas como que num desfecho de uma dedução, algo em minhas loucas análises dizia que eu deveria tentar desvendar o que de fato existia por detrás das informações da reunião secreta na Biblioteca. De repente ficou tudo claro, um plano límpido e cristalino se desenhava, agora era só esperar a quinta-feira chegar para colocá-lo em prática.

Continua....

Por Natan Castro


23 de fev. de 2016

Nowhere Man



Por Natan Castro

Ele havia deixado para trás família, emprego, amigos e uma velha companheira a música. Com passos desdenhosos concentrava-se somente em andar sempre adiante, dia e noite, noite e dia. Quando sentia fome sentava-se onde desse, pensava um pouco, olhava ao redor e vezenquando achava uma lata de lixo ou conseguia algo mais apropriado num desses restaurantes de beira de estrada, desses que raramente separam restos de comidas para pessoas necessitadas. Nunca mais havia fitado os olhos de um ser humano, na verdade já havia esquecido a ultima vez que isso havia acontecido. Naquele homem, que naqueles dias mais parecia um farrapo humano nada no passado interessava, muito menos no futuro e tampouco algo do presente. Era aquele homem algo análogo a um pássaro que muito sem pensar estar sempre à espera da próxima revoada em direção a um lugar qualquer.

A barba cada vez mais longa, assim como o cabelo que cobria quase a sua visão. Faziam daquele homem uma visão incógnita aos olhos dos passantes, quem poderia imaginar que por detrás daquelas vestes sujas, daquele andar trôpego estava um homem exemplar. Um cidadão admirável, passar assim desapercebido era seu intuito. Muito raramente ele parava nos parques e fixava o olhar em crianças que por lá brincavam, aquilo de alguma forma lhe inspirava, ou quem sabe lhe incentivava a continuar sua caminhada. Ele nunca mais sorrirá, porém algumas vezes deixava poucas lágrimas rolarem por sua face. Certa vez em meio a uma chuva torrencial de um inverno rigoroso, ele se viu encostado junto a janela de um bar, com a roupa totalmente encharcada, com muito frio e fome e era noite, ele parou para ouvir um pianista que tocava uma peça conhecida. Ficou ali durante toda a execução da música e ao final chorou copiosamente, muito emocionado sentou-se no chão e as lágrimas se confundiram com as gotas de chuva que caiam continuamente do céu, e ali adormeceu em meio ao temporal noturno, naquela cidade desconhecida, somente as notas daquela canção lhe eram familiares.

O que havia se tornado nem ele mesmo mais fazia ideia de saber. Continuou assim por longos anos, sempre de cidade em cidade a buscar por nada, a desejar sempre tão pouco, a caminhar no limite da exaustão. No caminho, a cada quilometro que ficava para trás, ficava também um pouco de outro homem, que outrora muitos conheciam e também muitos aprenderam a admirar, mas que em determinado momento de sua vida, resolveu partir. Com causas que talvez nunca consigamos entender e somente ele pudesse revelar, mas isso era o que menos lhe interessava, ou para ser bem mais sincero acho nunca nem lhe passou pela cabeça, essa súbita ideia de explicar algo, deixar pistas, os motivos da sua debandada rumo a esse seu mundo interior.

6 de fev. de 2016

Bandeira de Aço - Documentário sobre o disco antológico


Por Natan Castro

Não há dúvidas que Bandeira de Aço deu ponta o pé inicial numa música genuinamente identificada com nossas raízes culturais. Antes disso tínhamos Alcione e João do Vale, os dois já devidamente encaminhados no cenário da música brasileira, mas de fato o sincero esforço de identificar o nosso DNA artístico e cultural realizado pelo Laborarte, nos legou um belo filho que foi o disco Bandeira de Aço.

Josias Sobrinho e César Teixeira, anos 70
Marcus Pereira
No documentário abaixo temos depoimentos dos protagonistas do antológico registro, dentre eles o próprio Papete, Josias Sobrinho, Chico Saldanha, César Teixeira, Ronaldo Mota e Sergio Habibe. Não fosse o magistral trabalho de pesquisa realizado por Marcus Pereira, talvez um trabalho dessa importância jamais fosse possível. 

Capa do Disco







Um momento importante do vídeo é exatamente as declarações dos autores sobre a famosa briga referente aos direitos autorais do disco. Durante muitos anos eles os autores acreditaram terem sidos enganados pelo intérprete das canções e pela gravadora a Marcus Pereira Discos, o caso finalmente foi esclarecido pelos dois lados no documentário.

Assim como relata o documentário, São Luís no final da década de 70 gozava de certo amadurecimento cultural e artístico por parte de algumas peças do fazer artístico da cidade. Encabeçado pelo pioneirismo do Laborarte tivemos bons frutos no teatro, com prêmios importantes como a peça do grande Aldo Leite ganhando o prêmio Molière, tínhamos o inicio do Guarnicê de Cine Video, e na música fomos deflagrados por gente de fora desencadeando no projeto do disco Bandeira de Aço. Ao final do documentário uma triste constatação nos vem a mente, que é a certeza que de lá pra cá ninguém mais mergulhou de forma livre e verdadeira em nossas riquezas culturais e artísticas, continuando ele o próprio Bandeira de Aço sendo o último e único grande projeto voltado para nossa imensa qualidade musical.