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12 de nov. de 2016

Ferreira Gullar Versus Os Intelectuais de Esquerda



- Folha de S. Paulo

Cada dia que passa me convenço mais de que, sobretudo quando se trata de política, as pessoas, em geral, têm dificuldade de aceitar a realidade se ela contraria suas convicções.

Recentemente, durante um almoço, ouvi, perplexo, afirmações destituídas de qualquer vínculo efetivo com a realidade dos fatos. Minha perplexidade foi crescendo tanto que, após tentar mostrar o despropósito do que afirmavam, fingi que necessitava ir ao banheiro e não voltei mais ao tal papo furado.

Não resta dúvida de que, até certo ponto, essa dificuldade de aceitar a realidade decorre do momento que estamos vivendo, tanto no Brasil como no mundo em geral.

Tem-se a impressão de que atravessamos um período de mudanças radicais quando os valores, sejam ideológicos, econômicos ou éticos, entram em crise.

Isso parece ter a ver tanto com as utopias quanto com a implantação de novos meios de comunicação. Estes tornaram o mundo menor ou, dizendo de outro modo, é como se todos os povos, nos diversos pontos do planeta, vivessem uma mesma atualidade. Sabemos, a todo instante, de tudo o que ocorre em qualquer região, em qualquer país, em qualquer cidade do planeta.

No caso de nós, brasileiros, acresce o fato de que chegamos ao fim de uma fase que culminou no afastamento da presidente da República e na implantação de um governo interino, agora permanente. Acresce o fato de que o governo que findou era a expressão de um regime populista, caracterizado por um ideologismo demagógico, apoiado no setor pobre e carente da população. Na verdade, versão primária de um regime dito de esquerda em aliança com o capitalismo corrupto, que ele fingia combater.

Pois bem: que o povão desinformado se deixe levar pelas benesses recebidas é compreensível. Difícil de explicar, porém, é a atitude de intelectuais de esquerda que aceitam a burla como verdade.

E era isso que transparecia na tal conversa do encontro a que me referi no começo desta crônica. Uma das pessoas presentes, dizendo-se contra Dilma Rousseff, tampouco admitia o governo Michel Temer. Quando a lembrei que o governo de Temer tinha apenas um mês de existência e que herdara do anterior uma situação crítica com mais de 11 milhões de desempregados, ela respondeu: "Na cidadezinha onde moro não há desemprego. Duvido muito desses números".

Lembrei-a que aqueles eram dados do IBGE, divulgados havia três meses, quando ainda era Dilma quem presidia o país, ela respondeu: "E o IBGE não podia estar infiltrado por adversários do governo?"

É que essa senhora se diz de esquerda e, embora não possa negar o estado crítico a que o PT conduziu o país, usa de argumentos infundados para colocar em dúvida o fracasso petista. Já observaram que os que defendem esse populismo nunca tocam nos escândalos revelados pela Lava Jato, no assalto à Petrobras, nas propinas dadas a funcionários e políticos inclusive do PT? É que têm dificuldade de aceitar a realidade dos fatos e admitir que estão errados. E se alguém faz referência a tais escândalos, gritam: "Mas isso é mentira!" Ou seja, para quem não suporta a realidade, só é verdade o que lhe convém.

Saí dessa roda e fui me sentar com outro grupo, que falava de futebol, particularmente do Vasco, meu time do coração, que anda mal das pernas, pois acabara de ser desclassificado, ainda na primeira rodada da Copa do Brasil. Mas eis que chega um velho companheiro, simpatizante do PC do B, do finado PCB e muda o assunto da conversa, de futebol para a polícia. Foi então que um dos presentes afirmou que o comunismo já acabara, uma vez que a própria China era hoje a segunda maior potência capitalista do mundo.

– Isso não, contestou o velho comuna. O comunismo está mais vivo do que nunca. A China encarna a nova forma que o regime socialista ganhou.


– Sim –brinquei eu–, é o comunismo capitalista! Todos riram, menos o autor daquela tese surrealista.

Ferreira Gullar

9 de out. de 2016

Poeme-Se, por três gerações fomentando arte e cultura no Maranhão


Sebo Livraria Poeme-se

Akademia dos Párias - Livro
O Sebo Livraria Poeme-Se é o mais antigo em atividade na capital maranhense e um dos mais importantes espaços de arte e cultura de todo o Estado. Tudo começou com um grupo de poesia no final dos anos 80, o Grupo Poeme-Se de poesia surgiu como uma extensão dos trabalhos de outra importante iniciativa poético-literária do período, a Akademia dos Párias. Um coletivo de jovens poetas e escritores que agitou a pacata sociedade ludovicense durante quase dez anos. O Grupo Poeme-Se tinha entre suas principais atividades a confecção de poemizetas (camisetas pintadas com poemas) e cartazes onde se podia ler poemas de poetas maranhenses, tudo produzido de forma bastante amadora ao melhor estilo “do it yourself”. Por volta do final do ano de 1989 com o fim das atividades do grupo, um de seus integrantes Ribamar Filho, levou pra frente a ideia de manter um sebo com venda de livros, nascia assim o Sebo Livraria Poeme-Se.

Ribamar Filho
Localizado no bairro do Centro mais precisamente na Praia Grande, o local é reduto de amantes de literatura e arte e cultura em geral. Bem difícil visitar o local e não passar no Sebo Poeme-Se, passagem obrigatória para turistas e todos que desejam saber e conhecer mais sobre a cultura maranhense. O sebo livraria já foi palco de lançamentos de livros de grandes nomes da literatura maranhense, além de saraus de poesias e debates. Até hoje é comandado por Ribamar Filho, que serve a todos como um verdadeiro anfitrião, com quase trinta anos de existência o Sebo foi e ainda é peça fundamental na formação de três gerações de leitores maranhenses.

Zeca Baleiro na Poeme-se
Para a comemoração desses 28 anos o proprietário Ribamar Filho está preparando alguns eventos, podemos citar um encontro de colecionadores de vinis e o lançamento de um festival de poesia que dará luz a uma antologia com poetas surgidos a partir do ano 2000 no Maranhão. Desta forma sempre que houver daqui pra frente novidades envolvendo as atividades do Sebo Livraria Poeme-Se, o blog Literatura Limite estará conjuntamente divulgando e apoiando essa iniciativa, o intuito é colaborar para que essa chama de resistência cultural permaneça sempre acesa, viva a Poeme-Se, viva a arte e a cultura do Maranhão. 


Por Natan Castro

https://www.estantevirtual.com.br/poemesse

25 de jul. de 2016

CHAGAS VAL, A CULPA É DO FREUD!


oficialmente falando:
Dos cinco antroponautas, ele sempre foi o mais estranho, o mais solitário, o mais arredio. Pouco nos deixou escrito de sua biografia. Nasceu em Estreito, distrito de Buriti dos Lopes, Piauí, a 23 de julho de 1943. Por lá mesmo fez no Grupo Escolar Leônidas Melo o curso primário. O ginásio, fê-lo (está na moda o sê-lo-ia, o fá-lo, se bem que este nunca saiu de moda, ó governantes!) em Parnaíba no Colégio São Luís Gonzaga e cursou até o segundo ano científico no Colégio Lima Rebelo. Em 1963, aos 20 anos chega a São Luís, onde conclui o terceiro ano científico no Colégio São Luís.
            Passa, então, a lecionar em várias escolas da capital maranhense: Rosa Castro, Luís Viana, SENAC, Escola Normal do antigo Liceu Maranhense, hoje Colégio Estadual do Maranhão, e Colégio Estadual Castelo Branco. No ano de 1974 licencia-se em Letras pela Universidade Federal do Maranhão.
Após aposentar-se como professor, torna-se funcionário da Fundação Cultural do Maranhão, depois Secretaria da Cultura, onde desenvolve trabalho no setor editorial daquele órgão cultural, participando, inclusive, da comissão de leitura, responsável pela análise e aprovação de obras que farão parte dos diversos planos editoriais da referida Secretaria.
Em 1973 dera início a sua trajetória de escritor e poeta, publicando o livro de poemas Chão e Pedra, que teve o reconhecimento de escritores e críticos como Arlete Nogueira da Cruz, Jomar Moares, José Frazão e outros, seguindo-se as demais publicações: Chão Eterno, poesia, 1979; Mundo Menino, contos, 1979; Teoria do Naufrágio, poesia, 1987; Floração das Águas, poesia, 1992; Estado Provisório da Água, poesia, 1993 e, por fim, Anatomia do Escasso Cotidiano, poesia, 1998.
no mesmo barco:
O dia exato, a hora certa, em que ano mesmo nos conhecemos não sei dizer. Houve algum encontro disperso, alguma conversa sobre poetas e poesia, e também sobre as nossas próprias vidas. Mas o destino, a história, as circunstâncias cuidaram e conspiraram para nos reunirmos, os cinco: Chagas Val, Valdelino Cécio, Viriato Gaspar, Luís Augusto Cassas e eu, em torno de um projeto e movimento, ou, quem sabe, muito mais um momento de jovens revoltados com a patifaria intelectual e a indigência cultural dominante naquela quadra setentista no Estado do Maranhão e na sua Athenas Brasileira, que a gente passou a chamar de Apenas.
As exceções conhecíamos e respeitávamos: Nauro, Zé Chagas, Tribuzzi, mestre Domingos Vieira Filho, Arlete, Jomar, e mais uns poucos e só. O mais era uma profusão de louva-deuses carcomidos pela insônia do tempo, envelhecidos, versos velhos, prosa decaída, e muito blá blá blá em mesa de bar.
O resto a gente queria passar a máquina, patrolar, cantar de galo num poleiro sem penas, e talvez nos olhassem apenas como uns frangotes querendo ocupar um espaço todo acadêmico, demarcado por injunções políticas, favores permissivistas, troca-troca de influências à mesa do poder e dos poderosos.
E saímos com o Movimento Antroponáutica, cujo nome, se não me falha a memória, foi gestado em conspirações alcoólicas muito mais pelo Viriato e o Cassas, em homenagem também ao Tribuzzi e seu poema com esse nome. Eu queria outro nome. O Chagas Val não estava nem aí, pra nome nenhum. E marcamos e delimitamos a história da literatura e da poesia maranhense de tal forma, que o Estado, através de seu órgão oficial de cultura, reconhecendo nosso valor, reuniu-nos a outros jovens poetas e publicou a Antologia Hora de Guarnicê, com prefácio de Josué Montelo e muita louvação oficialesca.
Hoje somos apenas três sobreviventes. As Musas levaram primeiro o Valdelino, e agora, porra!, ontem mesmo, dia 22, agarram meu pobre irmão e poeta Chagas Val pelo escassos cabelos e o transportaram como a um profeta Elias em carruagem de fogo. Pra cima, pro céu, pro Olimpo poético que o espera desde o nascimento e confirmação do seu destino na terra.
foi mesmo Freud:
      
  Dedicado professor, casou-se com Maria José, que além de dar-lhe 4 filhos, lhe deu também amor e compreensão, amparando-o naquilo que ele mais necessitava: familiar afeto. Embora tudo isso não fosse suficiente para curar-lhe a dor de uma ferida mental, enraizado e encravada no seu psiquismo e na sua alma.

            Fui muitas vezes, muitas mesmo, em sua companhia, com muita sede aos potes e aos cântaros de águas turvas.  A bebida esteve presente em determinada época na vida do poeta Chagas Val que procurava nela o que?
            Frequentava por essa época, início dos anos 70, o consultório do Dr. Beethoven, psiquiatra, pertencente à escola mais careta dos tratamentos mentais, das angústias sem nome, das depressões profundas: essa escola que ainda hoje é o pilar do tratamento psiquiátrico no Maranhão. Quilos, metros, medidas que não se mede de drogas paliativas. Com exceção da classe minoritária de abastados que devem procurar outros meios de tratamento mais suave e mais caros.
            Chagas Val não tinha como escapar daquele círculo miserável: o médico bebia, tinha suas fobias incuráveis e administrava drogas. E o círculo, este que falei, é assim: toma-se a dosagem tal durante determinado tempo, aí quando não faz mais efeito aumenta-se a dosagem, e a vida segue e as receitas vão aumentando a dosagem numa progressão aritmética.
            Mas a poesia o salvava e o salvou, e ele conseguiu chegar aos 73 anos, menos um dia. É muita vida para quem tem um mal sem cura. Depois de casado, quando foi morar no Bairro do Maranhão Novo, frequentei seus almoços de domingo ininterruptamente. Mesmo depois que parti de São Luís, sempre que ali voltava, jamais deixei de lhe telefonar e acertar nosso almoço domingueiro.
            E falávamos sempre de literatura e de poesia. Já não se falava mais de dor ou sofrimento. Não era preciso. Estas coisas fazem parte do rosto-máscara. Não é preciso falar.
            Não é sobre sua poesia que desejaria falar, como crítico e tal. Nem lamentar que ele tenha ido assim, para mim, repentinamente, pois estando longe não acompanhei seus últimos anos. O que lamento é que sua vida tenha tido uma dose de infelicidade secreta. A família, o lar, a ordem caseira, as atribuições cotidianas, isso tudo amenizava aquele mal que ninguém conhecia, com exceção dos muito próximos dele. Eu conhecia.
Por isso amaldiçoo certos carrascos da medicina psiquiátrica. Não são todos, mas há uma parcela que lida com remédios, pacientes, laboratórios e dinheiro. Muito dinheiro.

uma poesia:

POEMA 10

A vida reinventada
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
       
           Chagas Val


Texto final:

Raimundo Fontenele





6 de jul. de 2016

SOB TEU CÉU, SOBRE TEU MAR


By Francisco Aragão
Por Natan Castro

É manhã em São Luís e uma explosão de brancuras, raras claridades que saem e só procuram se entranhar, independe de querer. Tez de gente amanhecida, vestes brilhantes de quarta-feira, quartas-feiras sem sentido. Nem há sentido no barulho de tantas ondas que quebram na Beira-Mar, resquícios de embarcações que trouxeram a poeira, que permaneceu no olhar de nossa gente multicolor. Ao nascer o pequenino já nasceu aqui cheio desse olhar de precisão. Que se encare essa ilha e se permita as intrigas que dela submergem a nos atingir.

Ainda existem aqueles que se assenhoram, daqueles que se aburilam nos coletivos matinais, buscando matar a fome de tantos necessitados. É dia em São Luís e tudo é desigual, pois que aqui tudo nasce e morre em slow-motion, a idade da capital se esconde nos fatos, espremidos nas poeiras dos livros, porém com um ar mais melindroso que os nossos, chegaram aqui estes cheios de ouro-de-tolos em suas mãos, buscando em nós o deslumbre. Antes importava pouco o vil metal, éramos tribo virgem a descoberto, tínhamos um orgulho nato que nos satisfez desde o avistar das velas. Vês que é verdade que sempre tivemos sol, mar, futebol com travinha, bumba-boi, cacuriá, peixe fresco do portinho, Sampaio, Moto e Mac, tiquira, Guaraná Jesus e uma rede preguiçosa a nos embalar.

Faz pouco tempo fomos descobertos, dai sopraram essências, perfume em nossas vistas, chegaram do sudoeste, sul, centro-oeste de tanto lugar. Nossa pele gritou as memórias de sol e mar, primeva nossa vergonha alheia. Eles chegaram e nos ensinaram a desejar, andar mais rápido, salivar dinheiro, esquecer a fome, ruminar, por fim ficamos confundidos uns aos outros. Hoje há tantas cidades e tantas tribos em nossa capital, tantas marias e joãos, tanto barulho de máquina de registrar, carros e carrões, cabelos loiros, portas de vidros, cartazes iluminados dependurados no ar, tantas cidades, confusas realidades. A cidade que hoje acorda no Tirirical, não é a mesma que amanhece pra lá do São Francisco. Tanta gente, hoje a Ilha e seus transeuntes diferenciados sacolas a carregar, gente enganada pelo brilhar do ouro-de-tolo, ouro-de-tolo com seu falso brilhar.

Quando chove a marca saltita nas peles, nosso povo, velho feudo. São Luís e o brilho de lágrimas e sangue em jornais pulp-fiction, tantas cidades e duas verdades, a ressaca de uma quarta-feira com nossas cinzas fumegando nas fogueiras que outrora anunciavam o boi-bumbá.

21 de abr. de 2016

O POETA ANTONIO AÍLTON DIZ A QUE VEIO A GERAÇÃO 90


Nesta quarta feira, 20 de abril, nossa coluna prossegue com o encantamento dos poetas, essa espécie de encantadores de serpente, pois as palavras são isto: cobras, algumas venenosas, outras, como as jiboias, nos sufocam com seus abraços, e outras mais, apenas cobras passivas emoldurando paisagens.
Lembro de uma frase do saudoso mestre Domingos Vieira Filho, estudioso, crítico, escritor sapiens (olha a Dilma aí, gente!), durante muitos anos Diretor do Departamento de Cultura do Estado, quando este era ainda apenas um apêndice da Secretaria de Educação e Cultura, ah, vamos lá, a frase: “o Maranhão é pródigo em poetas”.
Dizia-o em alto relevo, com gratidão, com satisfação por ser e pertencer a um Estado que lhe dava tanto motivo para a reflexão e o entusiasmo espiritual, o prazer poético, que é como um gozo com a mulher amada.
Certamente, vivesse ainda, e tivesse em suas mãos um dos livros, ou todos, do poeta Antonio Aílton sentiria o mesmo que sinto eu: a presença de um artesão do verso, mas não destes que se consomem em noites insones procurando métricas, descobrindo rimas, fabricando metáforas ocas de sentido e vazias de mensagem para enganar leitores obtusos e que se cansam de forma rápida do esforço e do “trabalho” de ler.
Nada disso. O poeta Aílton traz em si a presença de uma poesia viva, investigativa, que não se conforma em habitar ambientes fechados, úmidos, obscuros, contrários à luz que emana do espírito sofredor, criador e, por isso, superior. Temos aqui, para o nosso deleite, os versos inventivos do Aílton, e algumas pinceladas da sua biografia, junto com estas mal traçadas aí de cima, que não expressam toda a maturidade presente e a grandeza futura da sua poesia. (RF)
  




ANTONIO AÍLTON, maranhense, professor, poeta e ensaísta, é Doutorando em Teoria Literária pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Mestre em Educação [enfoque em Cultura e Imaginário] pela UFMA, Especialista em Crítica da Literatura Contemporânea, pela UEMA, e graduado em Letras - UFMA.
Entre suas publicações tem Compulsão Agridoce (Poesia - Paco Editorial, 2015) Os dias perambulados & outros tOrtos girassóis (2008, Prêmio Cidade do Recife de Poesia), As Habitações do Minotauro (Poesia, 2001 - Prêmio Cidade de São Luís) e Humanologia do eterno empenho: conflito e movimento trágicos em A Travessia do Ródano, de Nauro Machado.
É colaborador do Suplemento Literário e Cultural JP Guesa Errante, de São Luís do Maranhão.
E-mail: ailtonpoiesis@gmail.com
  
IDADE DOS METAIS


Ao amanhecer por entre as ruas,
o sol tropeçou em dois cadáveres.

Sobras da noite inoxidável,
a catadora de latinhas
tem mais coisas a fazer.


                                  
ESCRITOS ALEATÓRIOS PARA MÁSCARAS E INCERTEZAS
  


Flor é a palavra flor, não por dizer, mas por silenciar

Flor é o crisântemo aceso, aguardando com ansiedade
a visitante tardia

Flor é o bicho de Lígia Clark quando você toca
e ele se abre

Flor é a orelha decepada de tuas obsessões psicossexuais
derramando girassóis no ocaso para espantar os
últimos corvos
(há sempre relações possíveis entre flores e navalhas)

Flor: rã de Patrick Süssekind na vulvinha virgem da próxima vítima
engolindo insetos e aspirando o hálito ainda quente de um
perfume desconhecido

Há flores que nascem no estrume das feiras livres de Paris

Mas não exagere em arte conceitual, chá de papoula é
natureza morta

pintada de amarelo



O FENÔMENO

pôs plaqueta de closed
no seu cul-de-sac
e voltou ao Nada



CADEIRA DE BALAÇO


Os bichanos vêm aprender comigo
o conceito de falta de dinheiro
eles ficam ali sobre a velha cadeira
e se espicham, até dormirem
entediados
com o que tenho a dizer

tosse,
tosse
e

cuspe



O PRISIONEIRO


Preso, Bob não pode defender sua ração dos ratos. Bob esgota sua paciência e não fode mais cadelas há muito tempo. Apenas se lambe furtivo e ganido, na solitude amarga das pulgas. Os gatos vêm rir de Bob: de dia, tomam sol e se lambem no telhado baixo para o qual Bob salta raivoso, sem os alcançar para o estraçalho; de noite se lambem no telhado de Bob, e Bob apenas pressente a rinha malévola. Olham Bob e se espicham, fingem que se armam, que caçam os ratos que roubam a ração de Bob. “Bob, velho cão sonolento, puah”. Bob não lê livros ou revistas, não assiste a televisão, não canta, não toma sol. Bob não é um cão depressivo, mas se pergunta o que é tão mais importante que um pedaço de carne, o que poderia ser tão mais importante que a liberdade, que foder, por exemplo (claro que ele é um animal e só conhece esta palavra. Também lembra das velhas revistas em inglês fuck yes); o que seria mais importante que até mesmo brincar como as crianças fazem se espojando na areia. Bob provavelmente morrerá dentro de alguns dias enquanto alguns homens argumentariam e contra-argumentariam sobre a condição de Bob de ser Cão. Enquanto Cão geral, claro, sobre sua possível existência ou inexistência no universo empírico, ou enquanto “objeto teórico formalmente situado”, e sua possível formulação. A tese: “Bob, cão sem fronteiras”.


Pesquisa e texto final:

Raimundo Fontenele


24 de mar. de 2016

JAMERSON LEMOS, O POETA-INVENTOR

É o seguinte: a primeira vez que ouvi esta expressão neomalditismo foi quando o poeta Jamerson Lemos chegou com este papo:
             – É, poeta, sabes como é!... O negócio é ser poeta neomaldito.
            E realmente havia saído uma antologia da poesia francesa assim denominada: os novos malditos. Pertenciam à herança cultural que nos legaram Villon, Baudelaire, Verlaine e o genial Rimbaud.
Isso era no Maranhão dos anos sessenta e nove e eu estava embalado pelo sonho de também me tornar poeta, pois, apesar da pouca idade, já havia tentado de tudo para encaminhar-me profissionalmente na vida, e sempre dera com os burros nágua.
O poeta pernambucano Jamerson Lemos viera de Recife com seu pai, o Sr. Lemos, corretor imobiliário e em São Luís se estabeleceram. Seu pai enviuvara, era isso, e lhe dava uma mesada com a qual o poeta resolvia as necessidades mais prementes.
Na Praça Deodoro a gente se reunia, uma patota de malucos, pra queimar um fumo e jogar conversa fora. O Cafeteira, quando prefeito, fizera na praça uma espécie de arena, com vários degraus, a qual chamávamos de Senado. Foi ali que vi o poeta Jamerson pela primeira vez. Parou, deu uns pegas num baseado, fomos apresentados um ao outro e fiquei de lhe mostrar alguns poemas meus.
Lembro que no nosso próximo encontro, quando lhe mostrei alguns poemas ele disse: “ainda és um poeta verde”, mas me incentivou deveras. Ele já havia publicado seu primeiro livro de poesia, o Superfície do Vento, bem recebido pela crítica e leitores. Fora também membro da Academia Maranhense dos Novos, movimento de fôlego curto e vida efêmera, que contara com, entre outros, o poeta Fernando Braga, hoje radicado em Brasília.
Poesia enxuta, liberta, sem máculas estéticas, herdeira da tradição da grande poesia greco-latina, mas que trazia em si os signos contemporâneos, com uma dicção poética própria, inaugurando tudo que é novo, na forma e no conteúdo, com um estilo original e único.
E o poeta em si, um andarilho, um inconformado, avesso a qualquer tipo de trabalho e de ação que burocratiza, robotiza e nos torna secos e vazios, de fé e de alma, de consciência e renovação constante, mudanças, transmutações psíquicas e experimentação essencial na busca do ser que somos, embora nunca saibamos o quê, nunca estejamos onde devíamos estar. E por isso a busca. E por isso o andarilho incansável dentro de si mesmo, que era isso que o saudoso Jamerson Lemos era e foi. O caminhante fazedor de caminhos.
Um dia o poeta meteu na cabeça que devia levar uma mala cheia de maconha de São Luís pra Recife. Com o dinheiro publicaria seu novo livro. Era uma boa grana. Coitado, quando desceu no aeroporto na capital pernambucana a polícia já o esperava. Ele nunca me disse como, mas alguém havia dedurado. O poeta amargou seis meses na prisão de Itamaracá.
Voltou pra São Luís apenas para uma breve passagem e mudou-se para Tersina onde viveu até 2008, quando faleceu, prematuramente, aos 63 anos de idade. Falo prematuramente porque certos amigos nós gostaríamos que fossem iguais a Matusalém.
Jamerson Lemos é um poeta único no panorama da poesia brasileira. Sem mídia, isolado numa região atrasada e esquecida como sempre foi o nordeste brasileiro durante muitos anos, sua poesia se iguala à melhor poesia publicada no Brasil a partir dos anos 70.
O Jamerson que conheço é esse: um maldito como eu, segundo a tradição poética francesa do que esta palavra significa. É o gauche de Drummond. O deslocado, o que não se adapta a uma sociedade medíocre, desalmada, empobrecida pela burrice e a hipocrisia. E assim nos acostumamos a navegar no barco ébrio, navio negreiro dos apátridas como nós para quem o porto seguro está longe, não existe, ou é só miragem.
A seguir o poeta Jamerson Lemos visto do ponto de vista formal, na biografia homenagem que lhe dedica o escritor piauiense Francisco Miguel de Moura. E cinco momentos da mais alta e inventiva poesia que, felizmente, frutificou entre nós (RF).




JAMERSON LEMOS – BIOGRAFIA
Por Francisco Miguel de Moura

Jamerson Moreira de Lemos nasceu em Recife (PE), em 22-12-1945 e faleceu recentemente em Teresina (5-8-2008). Filho de José Batista Moreira de Lemos e Ornila Moreira de Lemos. Poeta, deixando sua terra, viveu alguns anos em São Luís (MA), onde certamente se contaminou com a boa poesia daquela Província iluminada, de Gonçalves Dias a Ferreira Gullar, pra não falar nos mais novos. Tanto é verdade que o seu primeiro livro foi editado pelo Governo do Maranhão, com a participação da Academia Maranhense de Letras, no final da década de 60, século XX. Sempre o parto do primeiro livro é longo, por vários fatores que não cabe aqui explicar. Não poderia ser diferente com Jamerson Lemos. Saiu com o nome da “Superfície do Vento”, 1968, seleção de um calhamaço que me mostrara antes, com o título provisório de “Cerca de Arame”. Depois publicaria ainda “Sábado Árido” (1985) e “Nos Subúrbios do Ócio” (1996), ambos em Teresina. Deixou muitos inéditos, entre os quais “Istmo Soledad”, ao qual dei um prefácio já publicado aqui e alhures, situando sua poesia e seu fazer poético entre os melhores cultores da poesia-práxis, uma corrente derivada do concretismo, cujos poetas brasileiros mais conhecidos são Mário Chamie, Armando Freitas Filho, Mauro Gama e Adailton Medeiros (este natural de Caxias-MA). Esse modo de fazer poesia valoriza o ato racional de compor e busca um sentido intercomunicante entre versos e palavras, tudo integrado ao real quotidiano, objetivo, ou seja, o dado social-histórico vai de braços dados com a poesia e a pesquisa semântica ou semiológica. Quem mais se celebrizou neste “sertão-vereda” foi o João Cabral de Melo Neto, pernambucano como Jamerson Lemos. A preocupação maior com letras, sílabas e palavras do que com o espaço em branco ou preto da página faz da poesia de Jamerson um antilirismo que a muitos preguiçosos assusta. Mas, se bem observada, sua poesia é de um apaixonado das coisas belas, dos sentimentos mais puros e da riqueza na expressão, num estilo que parece desinteressado da vida e do real, deixando visível a veia do bom humor em todos os poemas.
A poesia-práxis é do Brasil dos anos 60. O CLIP – Circulo Literário Piauiense, movimento daquela década, de certa forma enquadra bem a poesia deste poeta que entrou para a convivência dos clipianos. Se do CLIP não fez parte oficialmente, foi por ter chegado ao Piauí pouco depois. Mas, de tal maneira integrou-se aos criadores do CLIP (Hardi Filho, Chico Miguel e Herculano Moraes), que seria pecado não incluí-lo nessa geração cujos efeitos ainda ressoam.
Casado com dona Maria das Dores de Morais Lemos, funcionária dos Correios já aposentada, Jamerson Lemos deixa órfãos seus dois filhos: Juninho e Ceres Josiane.
Duas vidas: uma, a familiar e sentimental como poucos; outra, a profissional, onde se desdobra para conciliar o vendedor de imóveis com o poeta. Reconhece Alberoni Lemos que não foi fácil ao poeta Jamerson Lemos. Daí que é impossível saber bem de sua poesia sem o conhecimento do homem, que se dizia descendente de judeu, em seus conflitos filosóficos e existenciais – acrescenta o grande homem de imprensa, Alberoni Lemos.

 (in “O Estado”. 04-10-87, Teresina, PI).





5 POEMAS DE JAMERSON LEMOS

ARMADILHA

a música escorre pela noite
como estreito regato.
Igualmente minha mente
escorre pela noite.
isso ou aquilo, antes, depois,
uma rua tortuosa,
pequena cidade a ferver
distante.
quanto tempo fui tolo?
a música escorre pela noite,
pulsa como um coração.


DO MOVIMENTO À NOUTE

O mistério da espuma do mar
é não haver mistério algum.
Fundo longilíneo
maravilhoso o mar não se sabe um
convite à morte ao amor à
vida. Há mistério, há?

A espuma do mar longe de ser algo
incógnito, transcendental, flora
estrelinhas nas algas, águas,
sargaços e areia, namora
da luz às conchas, à lua minguante
e permanente se renova.

Do mar o mistério da espuma
inexiste – bolhitas ou escumas –
existe o mistério à bruma
de noite à noute uma a uma
a onda virada serpente
engole a solidão da gente.


NAS RUAS

não mais voltarei aqui
seguirei as curvas do vento
tentar não tendo
assim eu me perdi

nada do que vi vi
nisso me acalento
foi bom todo momento
vivi

subida descida
noite amanhecida
espuma do Mar

tempo sem bruma
lua me luma
ar

SONETO DA TERÇA

quando você se entristece
uma coisa qualquer se me entrista.
um gole de rum a mais que eu insista
é coisa pouca e você não esquece.

quando, porém, se nada teça
vida minha e pobre de artista
você me toca e me diz: desista
meu bom amor, amo-te na terça.

muito bem, tento-te de novo
alma de pombo, espírito de corvo,
sobras-te-me na estação.

volvo-me a ti amor em praia,
soluço de sol, sal de caia –
da casa, só a luz e verão.


UM SONETO

vou fazer pra você um soneto
rimado, consoante o seu olhar
de avenca e musgo do pomar —
mestiço escuro noturno preto.
um soneto solto, lírico no ar,
pétala-ninfa, luz no alto-mar,
lâmpada azul a clarear do teto
à cama — lâmpada-luz-objeto. 
Pra você e esses seus cabelos.
               belos.

Pra você.
um soneto rimado de sorrisos,
pequenina barca — S.O.S.
Estou nu,                             Vê?


Pesquisa e texto final:

Raimundo Fontenele


Comentário do poeta Carlos Soares:

"Vai, Jamerson, ser gauche na vida", frase do mineiro Drummond de Andrade autoreferindo-se, cabe feito uma luva ao caso do poeta pernambucano, pelo tipo de vida que teve e foi. Poeta maldito? Neomaldito? Creio que não. Creio que todos os poetas, mesmo os "malditos", são benditos. E isso por um fato muito simples: o jornalista Roberto Rech, ao noticiar a publicação do livro de poesia ANTOLOGIA POÉTICA IMPUBLICADA, de Carlos Soares (Imprensa Livre Editora, Porto Alegre, 1995), disse: "Certamente, agradará a todos, menos os tiranos de plantão e os invejosos incompetentes. Os primeiros, segundo Armando Valladares, `não toleram e odeiam os poetas por que são as vozes deles que se erguem e denunciam suas infâmias'. Os segundos, porque são energúmenos de nascença. E assim permanecerão até o fim dos tempos..." Dono de uma poesia simples, mas não simplória, como podemos constatar - pelo menos nos versos exemplares trazidos no artigo de Raimundo Fontenele - Jamerson não teve os ofuscantes holofotes da glória literária voltados para ele, nem o apreço dos vendilhões da crítica, nem sequer - talvez - o seu "minuto de fama", mas uma coisa ele obteve com sucesso: viveu a vida que quis viver, escolheu seu caminho com os próprios pés, e manteve-se firme diante das vergonhosas escórias do poder que a tudo compra, corrompe e destrói no mais íntimo de sua pureza: a dignidade de ser fiel a si mesmo! Carlos Soares, em Porto Alegre, 24/03/2016.