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6 de jul. de 2016

SOB TEU CÉU, SOBRE TEU MAR


By Francisco Aragão
Por Natan Castro

É manhã em São Luís e uma explosão de brancuras, raras claridades que saem e só procuram se entranhar, independe de querer. Tez de gente amanhecida, vestes brilhantes de quarta-feira, quartas-feiras sem sentido. Nem há sentido no barulho de tantas ondas que quebram na Beira-Mar, resquícios de embarcações que trouxeram a poeira, que permaneceu no olhar de nossa gente multicolor. Ao nascer o pequenino já nasceu aqui cheio desse olhar de precisão. Que se encare essa ilha e se permita as intrigas que dela submergem a nos atingir.

Ainda existem aqueles que se assenhoram, daqueles que se aburilam nos coletivos matinais, buscando matar a fome de tantos necessitados. É dia em São Luís e tudo é desigual, pois que aqui tudo nasce e morre em slow-motion, a idade da capital se esconde nos fatos, espremidos nas poeiras dos livros, porém com um ar mais melindroso que os nossos, chegaram aqui estes cheios de ouro-de-tolos em suas mãos, buscando em nós o deslumbre. Antes importava pouco o vil metal, éramos tribo virgem a descoberto, tínhamos um orgulho nato que nos satisfez desde o avistar das velas. Vês que é verdade que sempre tivemos sol, mar, futebol com travinha, bumba-boi, cacuriá, peixe fresco do portinho, Sampaio, Moto e Mac, tiquira, Guaraná Jesus e uma rede preguiçosa a nos embalar.

Faz pouco tempo fomos descobertos, dai sopraram essências, perfume em nossas vistas, chegaram do sudoeste, sul, centro-oeste de tanto lugar. Nossa pele gritou as memórias de sol e mar, primeva nossa vergonha alheia. Eles chegaram e nos ensinaram a desejar, andar mais rápido, salivar dinheiro, esquecer a fome, ruminar, por fim ficamos confundidos uns aos outros. Hoje há tantas cidades e tantas tribos em nossa capital, tantas marias e joãos, tanto barulho de máquina de registrar, carros e carrões, cabelos loiros, portas de vidros, cartazes iluminados dependurados no ar, tantas cidades, confusas realidades. A cidade que hoje acorda no Tirirical, não é a mesma que amanhece pra lá do São Francisco. Tanta gente, hoje a Ilha e seus transeuntes diferenciados sacolas a carregar, gente enganada pelo brilhar do ouro-de-tolo, ouro-de-tolo com seu falso brilhar.

Quando chove a marca saltita nas peles, nosso povo, velho feudo. São Luís e o brilho de lágrimas e sangue em jornais pulp-fiction, tantas cidades e duas verdades, a ressaca de uma quarta-feira com nossas cinzas fumegando nas fogueiras que outrora anunciavam o boi-bumbá.

2 de jul. de 2016

A HORA E A VEZ DO ROCK MARANHENSE



Por Natan Castro

Nonato e Seu Conjunto
É bem recente o inicio dos registros fonográficos de música no Maranhão, algo em torno de um pouco mais de quarenta anos. Talvez o primeiro grupo musical a realizar a gravação de um disco ainda nos anos 70 foi o Seu Nonato e Seu Conjunto, um grupo de baile que obteve um sucesso bastante interessante em São Luís, com apresentações inclusive em outros estados do nordeste. O grupo realizava uma mistura bem interessante de samba, soul, funk e pitadas de música latina, foi uma das primeiras bandas do país a gravar um reggae.

Com a chegada dos anos 80 começaram a surgir ainda que de forma bastante tímida as primeiras bandas de rock do estado, bandas em sua maioria influenciadas pela explosão do Rock Brazuka e também da Turma da Colina de Brasília. Fora isso algumas poucas bandas começaram a surgir influenciadas pelo New Wave Heavy Metal British, movimento que lançou grandes nomes do metal como Iron Maiden, Def Leppard e Judas Priest. Dessa época podemos citar a banda de Trash Metal maranhense chamada Ácido, diz a lenda que a banda tocou no lendário festival Setembro Negro em Teresina ao lado do pessoal do Sepultura do inicio de carreira. Na segunda metade da década começaram a surgir nomes que seriam responsáveis por um inicio de uma cena que somente hoje começa a se estabelecer, bandas como Ânsia de Vômito, Amnesia, Daphne, Face Oculta, Paul Time, Alcmena e outras. Com a chegada da década de 90, algumas informações foram de extrema importância para o inicio de formação de um público alternativo, o advento de um programa de radio (Time Rock), lojas de discos e acessórios como a Submundo do Rock, Casa do Rock, Traffic Sound, figuras fundamentais nesse período podemos citar o radialista Gilberto Mineiro e Joacy James desenhista, cartunista, chargista, agitador cultural, membro do movimento punk maranhense, além de integrante de bandas de punk como a Última Marcha, Pedro da Cooperativa Rola Rock’n’Roll e da banda Comportamento Estranho, uma das bandas mais antigas em atividade no meio rock da capital. Vários bares surgiram e desapareceram durante todo esse período, desses um com certeza ficou na história do underground de São Luís, o famoso Bar do Bento no bairro São Francisco, era um dos poucos locais voltados para headbangers, punks e hardcores do Maranhão. 

Banda Ânsia de Vômito

Tive a oportunidade de assistir o último show de uma das melhores bandas da década de 90 nesse local, a banda era o Sarcoma que tinha na bateria e vocal Eduardo Patricio, outra figura imprescindível para a cena rock daqueles anos. Posso citar dois shows que foram de suma importância para a galera rock’n’roll da capital exatamente na primeira metade da década, o primeiro foi da lendária banda punk/hardcore paulistana Ratos de Porão. O outro show foi da primeira grande banda de rock nacional surgida nos anos 90 os brasilienses Raimundos, realizaram um show memorável, sem dúvidas o maior público de um show de rock do período. O ano de 1996 marca o lançamento do primeiro disco de rock de uma banda maranhense, a banda Daphne lançou o disco Semblantes no Ilha Rock Festival, festival realizado por Gilberto Mineiro radialista, apresentador do programa Time Rock da rádio Mirante Fm. Eu tive a oportunidade de estar no dia do lançamento, o festival aconteceu no Ginásio Costa Rodrigues no centro de São Luís. Anos depois a banda Ânsia de Vômito uma das mais conhecidas no meio metaleiro do estado, também lançaria o primeiro álbum de uma banda de metal maranhense.

Banda Daphne
EP "As aspas serão explicadas adiante"
No inicio dos anos 2000, uma banda em formato de trio, surgiu na cena e não há dúvidas que deixou saudade num público que já havia se acostumado a consumir rock’n’roll na ilha do amor. O pessoal da Catarina Mina um trio formado por violão, baixo e bateria, um cara das antigas assumiu as baquetas Eduardo Patrício ex-Sarcoma e ex-Samsara, no baixo Bruno Azevedo e no violão e vocal Djalma Lúcio que despontava como um dos melhores letristas da nova safra de compositores maranhenses. A banda lançou um EP que ainda hoje é muito lembrado por uma turma saudosista que seguia o trio em diversos shows ao redor da ilha. O EP chamado “As aspas serão explicadas adiante” tinha um cover dos Smiths e duas músicas que tocaram bastante em rádios de São Luís voltadas ao público alternativo. A banda estava no meio das gravações do primeiro disco denominado Sabão, quando repentinamente encerrou as atividades. A banda Catarina Mina representou um dos primeiros esboços de um trabalho profissional realizado por uma banda de rock do estado.

Nos últimos quinze anos a cena vem passando por certo amadurecimento, ainda que tímido e lento em alguns momentos, mas é bem verdade que amadureceu. Chegamos à segunda metade dos anos 2010 com frutos desse amadurecimento, podemos citar duas bandas que melhor representam esse novo momento, são elas a banda de Heavy/Trash Metal conhecida como Jack Devil e os músicos da banda Soulvenir, banda de rock/indie/eletrônico.
Banda Jack Devil
Pela primeira vez bandas de rock surgidas na cena alternativa maranhense, conseguiram com esforço e talento ultrapassar os limites do estado. Os caras do Jack Devil com muita garra e raça, já tocaram em diversos festivais do Brasil e América Latina também, além de já terem lançados dois discos com ótima aceitação do público e boas criticas de revistas especializadas. Algo quase impensável em outras épocas. A Soulvenir apesar de ser uma banda recente já nos primeiros anos de existência alcançou um feito bastante relevante para a cena rock do estado, recentemente a banda venceu o festival EDP Live Bands Brasil, alcançando o primeiro lugar, deixando para trás cerca de 1.400 bandas do país inteiro, com o prêmio a banda ganhou a oportunidade de gravar um disco pela gravadora Sony Music e participar de um grande festival em Portugal ao lado de grandes nomes do rock mundial. É visível o ótimo momento que a cena atual do rock maranhense vive, com alguns bares voltados totalmente para o público do rock, junte a isso os avanços na divulgação trazidos pelas redes sociais, esses adventos em muito ajudam no surgimento de bandas novas, ao que nos parece estamos vivendo os primeiros instantes de uma possível efervescência de uma cena que agora já podemos acreditar ter alcançado o amadurecimento necessário para chamar a atenção de outros centros musicais do país. E caso essa cena alcance os holofotes do reconhecimento, tem tudo para levar junto de si, toda uma leva de artistas que se identificam com o meio alternativo, ou seja, artistas voltados para a música regional maranhense, o reggae e os demais ritmos provenientes da incrível diversidade rítmica maranhense.
Banda Soulvenir

22 de jun. de 2016

A ESQUISITA FOBIA DE SER MARANHENSE



Por Natan Castro

Não é exagero nenhum dizer que o povo maranhense sofre de uma profunda crise de identidade. Iniciamos com essa afirmação para aprofundar o assunto na seara da arte e da cultura, nessa parte que nos toca sensivelmente o problema é muito mais acentuado. O passado literário do estado, recheado de glórias com autores de extrema relevância nas letras nacionais. Tudo isso com o passar dos anos virou frágeis lembranças na mente de muitos maranhenses, vindo a virar coisa de historiador, pesquisadores aposentados, professores saudosistas. Com a sucessão dos mandatários na gestão estadual a problemática da indigência cultural tem se acentuado, nos legando problemas seríssimos, a falta de renovação da tradição com politicas que visam somente o perfeito encarceramento artístico dos entes culturais.

Na atualidade essas informações passadas são capazes de deixar qualquer adolescente maranhense, seja ele estudante do ensino médio e outros sem entender praticamente nada. Nas escolas, universidades e entes educacionais, falam-se de tudo menos de nossos heróis do passado, figuras fundamentais como Manuel Beckman, Apolonia Pinto, O matemático Souzinha, Sousândrade, Canhoteiro, Turibio Santos, só para citar alguns, são personas que inexistem nas cabeças de nossos jovens. No campo da música o Estado do Maranhão, nas ultimas décadas vem sendo invadido não só pela música de outros estados bem como em alguns casos por suas culturas. Nos últimos anos o forró de Fortaleza, depois o funk carioca, o axé baiano, recentemente o tecnobrega e o sertanejo universitário. Com as nossas fronteiras sendo invadidas por todos os flancos pelo imaginário de fora, o processo de desintegração de nossos valores culturais produziu essa falta de identidade que nos deparamos hoje. Tal recrudescimento causa no inconsciente coletivo do nosso povo uma ridícula fobia de se afirmar maranhense. As alarmantes noticias vinculadas em âmbito nacional ajudaram em muito a acentuar o problema. Precisamos urgentemente debater a problemática desse rompimento com as verdades de nossas raízes, com multa de num futuro muito próximo, passarmos pela perda total de nosso passado, causando o inicio da perda completa de nossa maranhensidade.

16 de jun. de 2016

30 e Poucos Anos em São Luís


Centro Histórico São Luís MA

Por Natan Castro

Anteontem sai a resolver assuntos pessoais e tive a oportunidade de atravessar a cidade de São Luís, a Ilha Rebelde ou Ilha do Amor como preferem chamar alguns, essa cidade onde eu moro desde que nasci no fatídico ano de 1980, ano esse onde se foram personas imprescindíveis na minha formação. Dentro de um coletivo ao lado do meu filho adolescente, me senti na obrigação de lhe falar mais sobre aqueles locais, são ruas, prédios, monumentos, pontes, praças, bairros, em suma um pouco da cidade que moramos e por algum motivo passa incólume de qualquer reflexão da grande maioria de sua população. Tentava com aquelas indicações inserir na consciência do meu filho o quanto aquela cidade estava entranhada no meu inconsciente, mais precisamente na minha alma.

Desde muito cedo aprendi a viver aqueles locais, em períodos menos perigosos, na minha pré-adolescência podíamos andar por diversos locais de nossa cidade, como por exemplo, o centro antigo da cidade local hoje reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. Meu filho ouvia meu discurso e vezes ou outra olhava atenciosamente os locais indicados com parcimônia. No meio daquela espécie de tour quase desimportante me veio a cabeça um verso de Ferreira Gullar do seu grandessíssimo livro Poema Sujo onde ele citava aquela cidade mesmo estando de longe em Buenos Aires assim como o fez Gonçalves Dias nosso poeta maior décadas atrás.

Na São Luís de junho de 2016 a cidade vive a angústia de ser uma das cidades que mais sofre no Brasil com a falta de planejamento haja vista que o primeiro esboço de organização urbana de nossa capital nos remete ao período de colonização, naqueles tempos as cidades eram pensadas tendo como objetivo o escoamento de mercadorias, pessoas e quase tudo rumo ao litoral. Em 2016 vivemos o ápice de um caos organizacional, com o crescimento desacerbado da cidade rumo a periferia, trazendo com isso um inchaço e confusão no trânsito da cidade nos horários de pico. Uma leva considerável de trabalhadores que todas as manhãs saem dessa periferia em direção aos bairros centrais onde se encontram as oportunidade de trabalho, uma considerável leva de maranhenses dentro de coletivos superlotados alguns com mais de quinze anos de fabricação, que se chocam com os carrões da classe média baixa e alta que nesse exato momento se movimentam em direção a trabalho, faculdades, hospitais e condomínios realizando um perfeito inferno urbano em três horários todos os dias religiosamente.

Hoje não sou mais aquele adolescente morador de um bairro perto do centro, hoje sou um pai de um garoto muito mais atento que eu aos problemas do planeta quando eu tinha sua idade. Foi há alguns anos atrás, mas para mim aquele período em minha memoria surge como uma época romântica, é bem verdade a cidade mudou bastante, naquele período existia duas cidades dentro de uma, a cidade velha que compreendia o centro histórico e bairros que tomavam a direção de bairros antigos e de outros que começavam a fazer parte da periferia. E do outro lado da ponte do São Francisco a cidade chique, a nossa zona sul de bairros como o próprio São Francisco que na minha infância ia para brincar de empinar papagaio e sura e ficar impressionado com os prédios que começavam a tomar os ares do bairro inteiro. Hoje em dia posso dizer que existe ainda essas duas cidades com mais três realidades sobrepostas a ela. A chegada das grandes empresas que a meu ver demoraram a abarcar na Ilha, os cinco shoppings que se abarrotam de gente por todos os lados nos finais de semana, a explosão imobiliária com condomínios para todos os lados, tudo isso surgindo de forma totalmente desorganizada e desajustada, desencadeando uma ridícula falta de segurança em toda a cidade, roubos e furtos pra todos os lados enfim, São Luís de uma vez por todas chegou a pós-modernidade. É essa cidade que continuarei vivendo e que meu filho entregará a seus filhos, com o andar da carruagem o mito da carruagem de Donana de tempos atrás ficará cada vez mais esparso na névoa dos tempos passados, tempos esses que ninguém mais ousa lembrar e outros nem tempo tem para isso, pois estão distraídos entre buzinas, buracos, assaltos e outdoors prometendo o rejuvenescimento quase tácito. 

CAIXA DE SONETOS


            Nesta  Quarta-feira é dia de RF, tradicional coluna deste Blog vamos de soneto. Esta forma poética, segundo o que se sabe, apareceu aí por volta do Século XII, na Sicília, região da Itália, famosa também pela Cosa Nostra. Máfia e Soneto é uma mistura pra lá de explosiva. Uma, a Máfia, explode a vida e a outra, o Soneto, explode apenas o coração. O que vem a dar no mesmo.
            Forma poética fixa, 14 versos, de dez sílabas cada, e que eram distribuídos em 4 estrofes. As duas primeiras de 4 versos cada, formando os quartetos e as duas últimas de 3 versos cada, os tercetos.  Quem aperfeiçoou e o difundiu por toda a Europa foi o poeta italiano Petraca, com seu livro Il Canzoniere, composto de 317 sonetos e que exerceu enorme influência sobre toda a literatura ocidental.
            Há quem afirme, porém, que o soneto metrificado teria aparecido por volta do ano 630 a.C., pelas mãos da poetisa grega Safo (a famosa da ilha de Lesbos, patrona da sapataria ilimitada que se difunde hoje na nossa sociedade pra lá de avançadinha. Epa, não sou lesbofóbico, bravas feministas do grelo duro!).
            Não importa. Sofreu modificações. Alteraram-se os números de sílabas, mandou-se muitas vezes a métrica e a rima pra escanteio e seguindo este “barco ébrio” a la Rimbaud, também estou cometendo uns pobres sonetos ou dando minhas cacetadas (Didi Mocó fez escola) na poesia.
            Apresento-lhes, assim, 7 sonetos de um livro ainda inédito composto só de sonetos e que chamei justamente como no título desta coluna, lá em cima, Caixa de Sonetos.  Modestos e envergonhados sonetos, é vero.


1


De noite a vida tarda e o coração,
esse porão de angústias e silêncios,
não teme mais a dona sem mistérios
que me leva pela mão ao grande abismo.

Que bom!,  estou aqui, e ainda hoje
pressinto as sutilezas deste dia
em que herdarei o fruto cobiçado
da grande deusa, mãe das alegrias.

És, então, o pequeno grão de areia
que, na terra, entregue ao abandono
de si mesmo, rastejou feito cobra

pelas ilhas desertas e o mar bravio,
e agora chora o porto já perdido:
de onde se afastou sem haver ido.

2


Um vulto apaga a sombra que deixaste
mover-se ao sol, na tarde cristalina.
Teus olhos são dois rios; corredeiras
que lavam tuas lágrimas na neblina.

O resto é pose, curva do caminho
em que te perdeste rumo ao norte,
sem saberes que a estrada é sinuosa
e tanto leva pra vida ou para a morte.

Assim caminharás, a fronte erguida,
passos trôpegos, e  ombros curvados
sob o peso do fardo que é tua sina.

Nem vulto ou sombra que ao sol se mova
na tarde de areias  movediças:
apenas uma ausência que caminha.

3


Ah, que a tarde vai alta e o dia vem
com seus medos, anseios e desejos
pra nos fazer sofrer e é só loucura
o que se sente nestas horas mudas.

Que venha logo a noite e o seu escuro
é só o que desejamos nestas horas:
um véu que nos esconda deste mundo
até que esta tristeza vá embora.

Não me falta amor e nem dinheiro;
não estou nem doente, nem sozinho.
Essa angústia é sem nome, prenuncia

tempestades ou morte, ou nem isso,
falta apenas o cantar de um passarinho
que anuncie o raiar de mais um dia.

4


No barco de Caronte em mar bravio
fui ter depois à praia ensolarada,
igual a estar fugindo do inferno
até o Brasil, a pátria desejada.

Mas tudo era confuso entre a neblina:
anjos da treva barravam meu caminho
pra que eu não visse mais a luz divina.
Luz sagrada pra quê, neste país de otários?

De pilantras, vagabundos e falsários?
Governantes cruéis ferrando o povo,
como se o próprio povo fosse o gado

abatido e vendido aí aos montes.
Malditos usurpadores do poder!,
eles, e não eu, na barca de Caronte.

5


Chovia no meu céu, e só chovia
a tarde inteira em mim ao desabrigo.
Luzes da ribalta, na urbe entorpecida
e vendilhões do templo nas calçadas.

Veio da Itália o verso de Petrarca,
da Grécia antiga o pensamento puro
e nós, aqui, numa pátria de nada
sem futuro, sem glória, sem la plata.

Privados do orgulho de ser gente,
sem um Moisés que nos guie na jornada,
para fora dos círculos infernais

de dor e fúria, fome e tirania.
Assim é nossa vida, assim é a tarde
nesta pátria de infames e covardes.

6


Onde eu estiver por certo ouvirei
um aviso no canto de alguns pássaros.
Tudo passou e a vida também passa
qual alquimia de algum feiticeiro

que transforma o ouro em prataria,
e a prata em ouro, e o cego passa a ver
aquilo que aqui antes não havia.
As mãos em concha sobre o peito aberto

ao vento e à solidão, ao amor e tudo
traz de novo o sofrimento  de viver
ansiando outra vida mais completa

que esta, debulhada como milho,
sem paz e sem futuro e nenhum brilho,
só  relva e sono na manhã quieta.

7

Ouro e prata ficarão na memória do poema.
São Luís e Ítaca,  que já  foram, não são mais.
Ali bem perto ou longe, beira-mar a dentro,
a vida é pura solidão de espuma e sais.

As caravelas de pedra, e todos os guerreiros
noturnos, cantos de espadas e infindos ais
dormem aqui, onde outrora, luso-brasileiros
se lançavam a este mar por onde agora vais.

Esquinas, navios, barcas de pão e peixes,
lonas cobrindo o escambo e tudo isto
que o sol revela e expõe no dia pleno.

Os marujos cochilam. Ébria, la nave cega vai
no turbilhão de ondas rumo ao naufrágio:
Ítaca, sou teu rei!, coberto de andrajos.


Raimundo Fontenele

8 de jun. de 2016

GRANDE PRESENÇA! ODORICO MENDES, O PRIMEIRO TRADUTOR PARA O PORTUGUÊS DAS OBRAS DE VIRGÍLIO E HOMERO

Creio que a melhor homenagem que se presta a alguém, no lugar de ficar tecendo loas, é apresentar seu trabalho, sua obra, seus feitos. Pois, numa sociedade tão conturbada, mesquinha e medíocre como a nossa, neste momento histórico de tanta iniquidade e promiscuidade política que vivemos, é comum elogiar alguém, ou mesmo até indicá-lo para postos e cargos de relevância mesmo que o mesmo não tenha a minha condição ou currículo que o comprove. Parece que basta a posição e opulência, ou situação de riqueza ou poder que possui quem o indica ou o apresenta. Isso basta. É nesse pântano fétido que patinamos atualmente.
Por isso, neste primeiro momento, não tecerei nenhum comentário sobre ODORICO MENDES, nosso homenageado neste mês. Pequenos traços biográficos, um pequeno texto sobre o seu trabalho de tradutor da Ilíada, de Homero, e o mais importante: a tradução do Capítulo I da Ilíada, esta sim, considerada uma tradução primorosa e inventiva com o veremos na sequência (RF).


Manuel Odorico Mendes, nasceu em São Luís do Maranhão em 24 de janeiro de 1799 e faleceu em Londres em 17 de agosto de 1864. Foi político, tradutor, poeta, publicitário e humanista brasileiro, mais conhecido por ser autor das primeiras traduções integrais para português das obras de Virgílio e Homero, sendo precursor da moderna tradução criativa.
Descendente de família tradicional do Maranhão, Odorico Mendes nasceu em São Luís onde residiu até aos dezessete anos de idade. Depois de uma vida dedicada à política e à literatura, faleceu subitamente em Londres. Foi o primeiro tradutor da Ilíada para português, considerado por muitos como o mais acabado humanista lusófono.
Atualmente (2007) Odorico Mendes é o nome de uma rua, no bairro do Cachambi, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Em São Luís do Maranhão, sua terra natal, entre as Ruas dos Remédios (atual Rio Branco) e das Hortas está localizada a Praça Odorico Mendes, numa das áreas mais nobres da velha São Luís.  Odorico Mendes conta entre seus descendentes com um bisneto famoso: o escritor francês Maurice Druon.
 Os estudos em Coimbra
Desde muito cedo toma contacto com a poesia dos clássicos gregos e latinos, interessando-se pelo seu estudo. Com o objetivo de o fazer cursar medicina, o pai envia-o em 1816 para Coimbra onde, depois de cursar os estudos preparatórios, ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Completou o curso de Filosofia Natural, após ter cursado Filosofia Racional e Moral e a cadeira de Língua Grega.
Em Coimbra, Odorico Mendes viveu intensamente o conturbado momento político que Portugal atravessou depois da Revolução do Porto. A influência das Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, do vintismo, a Independência do Brasil e a intensa atividade acadêmica e política que então vivia em Coimbra, marcaram a sua formação cívica, levando-o à leitura de Rousseau e Voltaire e ao convívio com alguns dos futuros vultos do movimento liberal em Portugal. Os anos em Coimbra foram decisivos e tiveram influência direta em toda a sua atividade política e literária futura.
É neste contexto que trava amizade com Almeida Garret e escreve os seus primeiros versos: ‘’Hino à tarde’’, onde canta a saudade da pátria e infância. O falecimento do pai, ocorrido em 1824, e a escassez de dinheiro forçam-no a regressar ao Maranhão sem terminar a sua formatura em medicina. O objetivo seria regressar e terminar os estudos, mas a complexa situação política que encontra na sua cidade natal acaba por prolongar a sua presença, fazendo gorar em definitivo os seus projetos acadêmicos.
Odorico Mendes chega ao Maranhão quando a instabilidade resultante da independência brasileira, ocorrida dois anos antes, leva ao agudizar de tensões internas no Brasil e ao aparecimento da Confederação do Equador, proclamada no Pernambuco e em outras províncias setentrionais, num movimento republicano que é dura e cruelmente subjugado pelas armas imperiais, levando ao fuzilamento e enforcamento público dos contrários, cujos episódios finais então se viviam. Mesmo sem ter participado diretamente na Confederação do Equador, o Maranhão foi duramente atingido pela guerra civil, e, quando da volta de Odorico Mendes, os ânimos ainda não haviam arrefecido.
Humanista, jornalista polêmico, político e literato, o maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864) fez parte do círculo literário dos autores pré-românticos do século 19, tornando-se personalidade marcante nos acontecimentos políticos, sociais e culturais desde o Primeiro Reinado. Foi admirador da literatura da antiguidade clássica  e o primeiro brasileiro a traduzir na íntegra as obras poéticas virgilianas e as epopeias homéricas para o português.
Em meados do século 19, Odorico Mendes viu-se diante de grande desafio: traduzir mais 15 mil versos da “Ilíada de Homero”. O tradutor dedicou anos de estudos para verter os episódios lendários da guerra entre os gregos e troianos, enfrentando questões de ordem linguística, cultural e pessoal. No decorrer do processo de tradução da Ilíada, Odorico Mendes mantinha correspondências com o amigo Paulo Barbosa, mordomo imperial.
Escrevia-lhe sobre a vida em Paris e, notadamente, sobre o andamento de suas traduções, além de relatar fatos de sua vida pessoal, tal como sua dedicação aos filhos e as dificuldades financeiras que enfrentava para a manutenção da família na Europa. A amizade com o mordomo e a carreira política rendeu-lhe relações com a família imperial, em especial com D. Pedro II. O imperador, amante das letras e dedicado à prática tradutória, manifestava profundo interesse pelas traduções de Odorico Mendes e tinha o hábito de compará-las com as traduções que realizava (Cf. LACOMBE 1989).

A GRANDE AVENTURA DE HOMERO, DA GUERRA DE TROIA E DE ODORICO MENDES


ILÍADA, de Homero
            Tradução de Odorico Mendes

Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
Corpos de heróis a cães e abutres pasto:
Lei foi de Jove, em rixa ao discordarem
O de homens chefe e o Mirmidon divino.
Nume há que os malquistasse? O que o Supremo
Teve em Latona. Infenso um letal morbo
No campo ateia; o povo perecia,
Só porque o rei desacatara a Crises.
Com ricos dons remir viera a filha
Aos alados baixéis, nas mãos o cetro
E a do certeiro Apolo ínfula sacra.
Ora e aos irmãos potentes mais se humilha:
“Atridas, vós Aqueus de fina greva,
Raso o muro Priâmeo, assim regresso
Vos dêem feliz do Olimpo os moradores!
Peço a minha Criseida, eis seu resgate;
Reverentes à prole do Tonante,
Ao Longe-vibrador, soltai-me a filha.”
Que, aceito o preço esplêndido, se acate
O sacerdote murmuraram todos;
Mas desprouve a Agamêmnon, que o doesta
E expele duro: “Em cerco às naus bojudas
Não me apareças mais, quer ouses, velho,
Deter-te ou retornar; nem áureo cetro,
Nem ínfula do deus quiçá te valha.
Nunca a libertarei, té que envelheça
Fora da pátria, em meu palácio de Argos
A urdir-me teias e a compor meu leito.
Sai, não me irrites, se te queres salvo.”
Taciturno o ancião treme e obedece,
Busca as do mar flutissonantes praias.
Ao que pariu pulcrícoma Latona
Afastando-se impreca: “Arcitenente,
Ouve, Esminteu, que Tênedos enfreias,
Crisa proteges e a divina Cila,
Se de festões colguei teu santuário,
Se de cabras e touros coxas pingues
Te hei queimado, compraze-me os desejos,
A tiros teus meu choro os Dânaos paguem.”
Febo, a tais preces, arco e aljava cruza,
Do vértice do céu baixa iracundo;
Vem semelhante à noite, e a cada passo
Tinem-lhe ao ombro as frechas. Ante a frota
Suspenso, a farpa do carcás descaixa,
Terrível o arco argênteo estala e zune:
Moles primeiramente a cães e a mulos,
Depois com vira acerba ataca os homens,
De cadáveres sempre a arder fogueiras.
As tropas dias nove asseteadas,
Ao décimo as convida e ajunta Aquiles;
Inspiração da bracinívea Juno,
Que seus Dânaos morrer cuidosa via.
Ele, em pinha o congresso, velocípede
Se alça e diz: “A escaparmos, julgo, Atrida,
Retrocedermos errabundos cabe:
Peste os nossos consome e os ceifa a guerra.
Eia, adivinho, arúspice, ou de sonhos
(Jove os envia) conjector se inquira,
Que explique a ofensa do agastado Febo:
Se a votos e hecatombes lhe faltamos;
Se, para desarmar-se, olor de assados
Cordeiros nos reclama e nédias cabras.”
A seu lugar tornou. De áugures mestre,
No passado e presente e porvir sábio,
Surgiu Calcas Testórides, que a Tróia
Por influxos de Apolo as naus guiara,
E concionando exordiou prudente:
“Mandas-me, ó caro a Júpiter, o agravo
Do grã frecheiro expor. Aqui prometas
Com braço e voz cobrir-me: o fel eu temo
Do amplo-reinante que domina os Graios;
E ao fraco se um monarca ódio concebe,
Cose-o e concentra, enquanto o não sacia.
Tu me assegura.” - “Afouto, brada Aquiles,
Vaticina. Por Febo, a Jove grato,
A quem rogas e oráculos te ensina,
Nenhum, desfrute eu vivo o térreo aspecto,
Nenhum violentas mãos te porá, Calcas;
Nem que seja Agamêmnon, que entre Aquivos
De mais prestante e augusto se ufaneia.”
Anima-se o bom velho: “Sacrifícios
Nem votos pede Apolo; em nós o ultraje
Punindo vai do Atrida, que ao ministro
O livramento rejeitou da filha;
Nem grave a destra poupará castigos,
Se não reverte a jovem de olhos pretos,
Sem resgate ou presente, ao pai querido,
Remetendo-se a Crisa uma hecatombe.
Com isto por ventura o deus se aplaque.”
O áugur mal se abancava, o rei soberbo,
Senhor pujante, merencório ergueu-se:
Raiva as entranhas lhe intumesce e afuma,
Cintila a vista em brasa; esguelha a Calcas
Tétrico cenho: “Desastroso vate,
Nunca essa boca aprouve-me: o teu ponto
É pregoar desditas; nem palavra
Nem obra tens que preste. Agora os Dânaos,
Pena-os Febo em vingança da retida
Criseida em quem me inflamo, a quem pospunha
Clitemnestra gentil que esposei virgem,
Que não lhe cede em garbo, engenho e prendas.
Pois mais convêm, liberta a restituo;
Sadio o anseio, não padeça o povo.
Mas preparai-me um prêmio; eu só dos Gregos
Dele excluído ser não me é decente;
O meu, testemunhais, me foi roubado.”
Controverte o Peleio: “Vanglorioso
Avidíssimo Atrida, que outra paga
Exiges dos magnânimos Aquivos?
Por dividir ignoro onde haja espólio;
Partiu-se o das cidades saqueadas;
Hoje um novo sorteio é repugnante.
Ao deus concede-a; recompensa triple,
E quádrupla terás, quando o Satúrnio
Derrocar nos outorgue a excelsa Tróia.”
Retorque o rei: “Se és bravo ó divo Aquiles,
Com dolo e subterfúgios não me enganes:
Possuis tua cativa, eu perco a minha;
E impões que de perdê-la me contente?
Meu peito satisfaçam de igual prenda
Os liberais Aqueus; senão, teu prêmio,
De Ulisses ou de Ajax, trarei comigo:
Amargará quem for. Sobrestejamos
Nisto por ora. Ao pélago deitemos
Negra nau bem remada, que transporte
A hecatombe e Criseida esbelta e linda.
Um dos cabos, Ajax, o egrégio Ulisses,
Idomeneu comande-a, ou tu Pelides,
Tremendíssimo herói, para que Apolo
Nos tentes granjear com sacrifícios.”
“Ah! como, o vulto fecha e estronda Aquiles,
Vulpina alma sem pejo, a teus acenos
Há quem marche a conflitos e emboscadas?
Não vim bater os valorosos Teucros
Por queixa pessoal: corcéis nem reses
Me furtaram, nem agros destruíram
Da altriz guerreira Ftia; entre nós muita
Serra medeia opaca e o mar sonoro.
Viemos, cão protervo, para em Tróia
A Menelau e a ti lavar a nódoa.
Alardeias, ingrato, e nos desprezas;
Audaz cominas arrancar-me a escrava,
A dádiva de Aqueus por tantas lidas.
Caia Ílion famosa: embora o peso
Da guerra em mim carregue, o mais opimo
Quinhão terás; com pouco eu volte a bordo
Sem boquejar, de choques fatigado.
A Ftia me recolho e os meus navios,
Já que aviltas a mão que de tesouros
A fome te fartava: eu te abandono.”
“Foge, Agamêmnon replicou-lhe, foge,
Se é teu prazer; que fiques não te imploro:
Honram-me outros, e em Júpiter confio.
Dos reis alunos dele és quem detesto;
Só respiras discórdias, rixas, pugnas.
Tens valor? agradece-lho. Os navios
Recolhe e os teus; nos Mirmidões impera:
Não te demoro; esse rancor desdenho.
Priva-me de Criseida Febo Apolo:
Em nau minha esquipada vou mandá-la.
À tenda hei de ir-te mesmo, eu to previno,
Tomar-te a elegantíssima Briseida;
Sentirás em poder como te excedo,
E outrem se me antepor e ombrear trema.”
Chameja o herói, no hirsuto peito volve
Se de ante o fêmur desbainhe o estoque
E por entre os Aqueus lho embeba todo,
Ou se o furor no coração reprima.
Já meia espada a cogitar sacava:
Eis da alva Juno, que os escuda e preza,
Por ordem Palas desce, e aos mais invisa,
Atrás o aferra pela flava coma.
Volta-se ele espantado e a reconhece
Pelo medonho olhar, e sem demora:
“A que vens ó do Egífero progênie?
A assistir aos convícios de Agamêmnon?
Pois to declaro, e conto já fazê-lo,
Tem de acabar a vida esse orgulhoso.”
E a déia olhicerúlea: “Vim, de acordo
Com Juno albinitente, amiga de ambos,
Comedir-te e amansar. Anda, em palavras
Tu desabafa, a lâmina embainha.
Por esta injúria, to predigo certo,
Inda haverás em triplo insignes prêmios.
Sê-nos pois dócil, a paixão modera.”
“Cumpre, o fogoso torna-lhe, é cordura
Mesmo irado curvar-me a tais preceitos:
Quem se submete, os deuses mais o escutam.”
Logo a pesada mão no argênteo punho
Conteve, encasa e esconde o gládio horrendo.
Ela a Júpiter se ala e às mais deidades.
Não deposto o furor, contra Agamêmnon:
“Ébrio, acérrimo Aquiles vocifera,
Cara de perro e coração de cervo,
Nunca te armas e à liça te abalanças,
Nunca às ciladas os homens acompanhas:
Isto te é morte. Em vasto acampamento,
Sim, mais vale esbulhar os que te arrostam:
Cobardes reges, vorador do povo;
Senão, tanta insolência aqui findara.
Por este cetro juro, que estroncado
Jamais rebentará, pois na montanha
Folhas e casca cerceou-lhe o gume;
Por este, que os Grajúgenas arvoram
Do justo guarda e das leis divinas,
Juro, Atrida, é solene o juramento,
Suspirarão sem falta por Aquiles;
Nem lhes serás de auxílio, quando em barda
Esse Heitor homicida os vá segando.
Então de raiva e nojo hás de comer-te,
Porque o maior dos Gregos rebaixaste.”
Nisto, arrojando o cetro auricravado,
Sentou-se. O Atrida em cólera abafava.
Nestor Pílio intervém, de cuja língua
Doce eloqüência mais que o mel fluía.
Dos falantes que, nados na alma Pilos,
Criaram-se com ele, idade duas
Decorridas, reinava na terceira.
Discreto e afável, o discurso tece:
“Numes eternos, oh! que luto à Grécia!
Oh, que júbilo a Príamo e seus filhos!
Folgue Ílio à nova de que assim litigam
Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,
Sou velho, ó moços. Tido em boa conta
Com melhor que vós me dava outrora.
Varões vi nunca, nem verei, qual Drias
Das gentes regedor, Ceneu e Exádio,
Um Pirítoo, um divo Polifemo,
Teseu Egides a imortais parelho.
Outros como estes não nutria a terra:
Feros pugnaram trucidando a feros
Montícolas Centauros. Lá de Pilos,
Da Ápia eu vinha rogado; conversava-os,
Quanto era em mim nas lutas me exercia.
Ninguém dos vivos de hoje os contrastara;
Atendiam contudo os meus conselhos:
Atendê-los vos praza. Ao mais estrênuo
Tu não tomes dos nossos a só paga;
Nem de ao rei contravir, Pelides, cures;
Dos eleitos que Júpiter estima,
Cetrígero nenhum se lhe equipara:
Mãe deusa te gerou, valor te sobra;
Tem ele mais poder, que impera em muitos.
Eu to suplico, Atrida, a fúria amaina,
Sê brando para quem nesta árdua empresa
É baluarte e escudo aos Gregos todos.”
E Agamêmnon: “Com tento nos falaste,
Reto ancião. Primar quer sempre esse homem,
Poderio se arroga, e eu não lho sofro.
Se os imortais invicto o constituíram,
Permitem-lhe por isso os impropérios?”
“Fraco eu seria e vil, o atalha Aquiles,
Se inda me sujeitasse: os mais o aturem;
Cesse em mim teu domínio, eu to recuso.
Digo, e na mente o grava: ao retomardes
Meu galardão, contigo nem com outrem
Pendência travarei; mas não me toques
Al do que encerro em leve bojo escuro.
Ousa-o; que saberão como o defendo
Como em teu sangue impuro ensopo a lança.”
Finda a rixa, o congresso Aqueu dissolvem.
O herói para seu bordo retirou-se,
A escolta e o seu Menécio. Ao mar o Atrida
Baixel deita, e remeiros vinte elege;
Conduz no embarque a nítida Criseida,
Mais a hecatombe: sob o cauto Ulisses
Fendem rápido as úmidas campinas.
Com lustrações o exército Agamêmnon
Expurga e n’água a lavadura atiram;
Cabras e touros cento a Febo ao longo
Do inesgotável pego sacrificam:
Monta ao céu pingue cheiro envolto em fumo.
Ali mesmo efeitua o chefe Argivo
Sua ameaça; dous arautos chama,
Taltíbio e Euríbate, expeditos servos:
“Ide ao Pelides e agarrai-me a escrava;
Aliás, mais agro transe, à força aberta
A formosa Briseida eu vou tirar-lha.”
E com ríspidas ordens os despede.
O infrugífero mar cercando invitos,
Junto ao real e à capitânia quedo,
Entre os seus Mírmidões na praia o acharam:
Por certo não gostou de os ver Aquiles.
De assombro estacam, nem tugir se atrevem
Ante o herói formidável, que o percebe:
“Salve, núncios de Jove e dos guerreiros;
Sus, não vos culpo, arautos. Agamêmnon
Vo-lo ordenou. Vai tu, celeste aluno,
Vai por ela, Patroclo, e a moça levem.
Aos mortais, ao rei sevo, às divindades,
Vós mo atesteis, se for mister meu braço
A desviar dos outros a vergonha…
Que furor cego! alheio do presente,
O porvir não prevê, nem como os Dânaos
Das naus sem risco em derredor pelejem.”
Da tenda, à voz do amigo, traz Patroclo
E entrega-lhes Briseida fresca e bela,
Que os seguiu pesarosa à esquadra Argiva.
Só, carpindo-se, Aquiles na espumante
Beira ficou-se; o ponto azul esguarda,
As palmas tende e à boa mãe recorre:
“De curta vida, ó Tétis, me pariste;
Sequer me engrandecesse o Altipotente;
Mas ele não me outorga a menor glória.
Em meu despeito o soberano Atrida
Arrebatou-me o prêmio e dele goza.”
Ao pé do anoso pai, lá no áqueo fundo
Sentiu-lhe o pranto a veneranda ninfa:
Da salsa espuma, como névoa, surde;
Conchegada ao Pelides lamentoso,
Com mão fagueira consolando o anima:
“Choras? que ânsia te aflige? Nada encubras,
Comunica-me, filho, as penas tuas.”
Do íntimo o celerípede suspira:
“Sabes; que val dizer-to? A sacra Tebas
De Eetion depredada, o espólio todo
Arrecadou-se, e em regra o dividimos:
Teve o Atrida a pulquérrima Criseida.
Remir a filha com riqueza imensa
Do Longe-vibrador veio o ministro
Às lestes naus de cobre encouraçadas;
Nas mãos faixa Apolínea e o cetro de ouro,
Roga e aos dous potentados mais se abate:
Que, em reverência ao cargo, se receba
O esplêndido resgate, áfio aprovam;
Menos o Atrida, que o repulsa e afronta.
Parte o velho indignado; e o deus que o ama,
Dele a instâncias, vibrou feral contágio,
De que a gente em cardumes fenecia,
Pestíferas as setas rechinando
Por todo o exército. Eminente vate
O oráculo solveu-nos; e eu primeiro
A apaziguar o nume exorto os sócios.
Furente ergue-se o rei, minaz fulmina,
E não debalde; que olhi-espertos Gregos
Em ágil nau Criseida reconduzem
Com pios dons, e arautos mesmo agora
Do pavilhão transferem-me a donzela
Que os Dânaos me doaram. Tu, que o podes,
Socorre o filho, ao grã Tonante ascende;
Se o já serviste com palavras e obras,
Hoje o depreca. A mim no pátrio alvergue,
De única blasonavas que entre os deuses
Preservaste o nubícogo Satúrnio
Do feio opróbrio, quando, à frente a esposa
E Minerva e Netuno, o encadearam:
Mas tu, madre, lhe acorres e o desprendes,
Convocas em auxílio o Centimano,
Que é nos céus Briareu, na terra Egéon.
Mais robusto que o pai, da honra altivo,
De Jove a par se teve, e de assustados
Os imortais do empenho desistiram.
Recorda-lhe isto, abraça-lhe os joelhos:
Que ajudar queira os Troas; que os Aquivos,
Té às popas e ao mar cerrados, paguem
Por seu tirano e a maldizê-lo expirem.
O amplo-dominador confesse a culpa
De insultar o fortíssimo dos Gregos.”
E em lágrimas a déia: “Ai! Filho, como
Te amamentei gerado em hora infausta?
Oh! se de mágoa ileso a bordo fosses!
Urge-te a Parca, e mais que todos penas:
Malfadado nasceste em régios paços.
Em paz, nas prestes naus, teu ódio ceves;
Que hei-de ao nevoso Olimpo ir ver se dobro
Quem se deleita com trovões e raios.
Ele e sua corte, às abas do Oceano,
De inocentes Etíopes desd’ontem
A mesa logram. No dozeno dia,
Ao voltar à mansão de aênea base,
Revolvida a seus pés tocá-lo espero.”
Nisto, sumiu-se-lhe e o deixou raivando
De o desfalcarem da mulher garbosa.
De Crisa em funda barra entrava Ulisses.
Ferram-se as velas, no atro bojo as metem;
Enxárcias afrouxando, o mastro arreiam;
A remo aportam, a âncora seguram,
E atadas as rajeiras, desembarcam;
Pós a hecatombe do arci-argênteo Febo,
Da sulcadora nau saiu Criseida.
No altar o sábio Ulisses a apresenta,
Vira-se ao pai querido: “Aqui mandou-me,
Crises, o rei dos reis trazer-te a virgem
E estas cem reses com que o deus mitigues
Que em dores nos soçobra.” Alvoroçado
O velho ao peito ansioso aperta a filha.
A perfeita hecatombe então colocam
Em torno da ara; e, os dedos já lavados,
Pegam do salso bolo. O sacerdote
Orando eleva as palmas: “Se a meus rogos,
De Tênedos Senhor, ó tu que amparas
Crisa e a divina Cila, em desagravo
O campo Argeu feriste, hoje me escuta,
Remove a peste que devora os Dânaos.”
Febo o escutou. Completa a rogativa,
Esparso o farro, à vítima o pescoço
Vergam atrás, e degolada a esfolam;
Cérceas as coxas, no redenho envoltas,
Cobrem-nas vivas postas. Ao tostá-las
Crises na lenha tinto baco asperge:
Qüinqüedentado espeto lhe sustinha
Cada servente. Provam-se as fressuras,
Já combustas as coxas, e em tassalhos
A mais carne enroscada assam peritos,
E a obra é feita. Apronta-se o convívio:
Ninguém do seu quinhão queixar-se pôde.
Exausta a sede e a fome, das crateras
Coroadas almo vinho os moços vertem;
Cada qual auspicando os copos liba.
Por captarem favor, o dia inteiro
Jovens Dânaos entoam ledo péan,
E seus cantos o deus regozijavam.
Cedendo o sol à treva, ao pé repousam
Do amarrado navio, e assim que alveja
A aurora dedirrósea, o porto largam.
Ereto o mastro, as pandas brancas velas
A brisa enfuna que o certeiro Apolo
Bafeja, e a ressoar cerúlea vaga
Do buco em derredor, cortava a quilha
O páramo salobre. No abordarem
O arraial dos Aqueus, varado em seco
Sobre longos rolhões o bruno casco,
Por tendas e outras naus se repartiram.
Sempre enfadado nos baixéis, o ardente
Generoso Pelides na assembléia
De heróis não comparece ou nas batalhas;
Do ócio porém seu coração ralado,
Almeja o alarma e pela guerra brame.
Ao duodécimo dia, à casa etérea,
Em testa Jove, os numes se encaminham.
Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,
Surgindo matutina, ali se alteia;
Semoto encontra o providente Padre
No fastígio do Olimpo cumioso;
Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,
Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:
“Se entre imortais, senhor, te fui profícua
Por dito e ação, preenche-me este voto:
Orna a meu filho a vida, já que é breve;
Que o rei possante o assoberbou de insultos
E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,
Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,
Té que de honras os Dânaos o acumulem.”
O anuviador calou-se, e ela mais insta:
“Pois que receias? ou concede ou nega;
Que a deusa ínfima sou prove-se agora.”
Do imo geme o Tonante: “É mau que incites
A com seus ralhos molestar-me Juno,
Que, assídua em me aturdir perante os numes,
Desses Troianos parcial me acusa.
Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:
Do certíssimo aceno entre as deidades,
Selo à minha promessa irrevogável.”
Então franze as cerúleas sobrancelhas,
da cabeça imortal sacode a coma,
E estremece abalado o imenso Olimpo.
Obtido o fim, do éter puro Tétis
Pula ao mar, e o Satúrnio à régia passa.
Nenhum dos deuses o esperou sentado;
Vão respeitosos cortejá-lo todos.
Ele entronou-se; e Juno, que aventara
Da Nereida argentípede o segredo,
Assaltando o invectiva: “Quem, doloso,
Fora de mim se conluiou contigo?
Sempre agradam-te ajustes clandestinos;
Nunca um só pensamento me descobres.”
E o rei supremo: “Em penetrar não cuides
Arcanos meus; esposa embora sejas,
Penosos te serão. Nem deus nem homem
Quanto ouvir devas me ouvirá primeiro:
Mas o que a parte no ânimo concebo,
Não mo perguntes, nem mo inquiras, Juno.”
A augusta irmã contesta: “Que proferes?
Jamais pergunto nem te inquiro nada;
A teu sabor tranqüilo deliberas.
Mas temo te seduza, ó cru Satúrnio,
A branca filha do marinho velho:
Madrugou-te abraçando-te os joelhos;
E suspeito anuíste a que ante a frota
Sucumbam Dânaos por amor de Aquiles.”
Redargúi o que as nuvens amontoa:
“Ruim maliciosa, eu não te escapo;
No desagrado meu com isso incorres.
Trago pior terás; que lucro esperas?
Se é verdade o que dizes, foi meu gosto.
Não mais, submissa em teu lugar sossega:
Se as mãos te calmo invictas, pouco importa
Que te acudam do pólo os moradores.”
A olhitáurea, tremente e silenciosa,
Volve a seu posto, na alma a dor sopeia;
Os demais carregaram-se tristonhos.
Por consolar a bracinívea madre,
Vulcano ínclito fabro assim começa:
“É praga intolerável que aos Supremos
Questões humanas alvoroto excitem;
Se o mal grassa, os festins seu preço perdem.
À mãe discreta aviso a que amacie
Meu pai dileto; a repreensão de novo
Não nos turbe as delícias do banquete:
Pois, se tal se lhe antoja, o Onipotente
Destes assentos nos derriba a todos.
Sim, com ternos obséquios o acarinhes:
Plácido ele nos seja.” E em tom mais baixo;
Duplicôncava taça, erguido, oferta:
“Paciente, cara mãe, sufoca o anojo;
Estes olhos batida ah! não te vejam.
Meu zelo e meu pesar que prestariam?
Contra o fulminador árduo é lutarmos.
No acorrer-te uma vez, do pé travado,
Precipitou-me do limiar divino.
Toda a noite rolei na imensidade;
A Lemnos, posto o Sol, fui ter exânime,
E os Síntios ao cair me agasalharam.”
Sorrindo, a clara déia o copo aceita.
Pela destra, em redor, seu filho aos numes
Da cratera entornava o doce néctar.
Os beatos celícolas romperam
Numa infinita cachinada, quando
Vulcano a escancear se azafamava.
É já tarde, e regalam-se os convivas
De iguais porções de opíparos manjares.
Tange na lira Apolo, e as Musas cantam
Com suave cadência e melodia.
Dês que a diurna luz desaparece,
Desencostados, cada qual procura
Seu domicílio no esplendente alcáçar,
Do coxo mestre fábrica estupenda.
O fulgurante Olímpio ao toro sobe,
Onde usa o meigo sono acometê-lo;
Dorme-lhe em braços a auritrônia Juno.


Pesquisa e texto final:

Raimundo Fontenele