Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

15 de out. de 2018

BOLSONARO É MITO, BOLSONARO É POP



Desde o início o Brasil se mostrou uma nação suscetível a movimentos heroicos. A imagem de um ser especial, um ungido, um escolhido, dotado de poderes para resolver qualquer problema está no inconsciente coletivo de várias gerações de brasileiros. Na região nordeste até hoje permeia o imaginário de diversas localidades o arquétipo de um herói encantado sobre a figura de Dom Sebastião, que foi Rei de Portugal e Algarves, morto em 04 de Agosto de 1578 na batalha de Alcácer-Quibir. Acontece que localidades espalhadas pelo Maranhão, Ceará e Pernambuco para citar algumas, acreditam que D. Sebastião não teria morrido, mas se encantado nas águas do Marrocos. Ele D. Sebastião estaria aguardando o momento de retomar seu reinado que desta vez seria exatamente no nordeste brasileiro, essa é a origem do mito do Sebastianismo, que possui presença forte e marcante no imaginário nordestino.

No âmbito da história política do Brasil, temos D. Pedro I o grande avalista do território nacional, a figura de Princesa Isabel na tentativa de inclusão dos negros na sociedade brasileira pela primeira vez, e com o passar dos anos passamos a nos acostumar com essa espécie de escolha a cada período desse herói do momento, revertido de poderes sobre os demais alguém que de uma vez por todas iria colocar os rumos do país nos trilhos do progresso. Vimos o aparecimento de Getúlio Vargas o grande nacionalista que flertou com o autoritarismo, porém foi o primeiro a sinalizar avanços na área social. Logo depois Juscelino Kubitscheck tido por muitos como o maior progressista de todos os presidentes, o homem por detrás da construção de Brasília, o primeiro a pensar um país com olhos no futuro. Por último em meio ainda a fuzis e toda uma onda repressiva no Brasil, no início dos anos 80 Tancredo Neves, político de carreira advindo das Minas Gerais representava com seu alto grau de aprovação, aquele que iria colocar para frente a Ordem e o Progresso, máxima de um de nossos símbolos a bandeira nacional. Por último Luís Inácio Lula da Silva, de família bastante humilde advinda dos bolsões de miséria do sertão nordestino. Tendo surgido em meados dos anos 70 como grande nome da resistência sindicalista frente a truculência exacerbada do governo militar, um dos pais do PT, o grande nome da sigla e principal liderança de uma esquerda aguerrida por anos e anos, um dos quadros mais perseverantes da política brasileira que perdeu três eleições consecutivas para presidência da república, chegando a presidência em 2002 e conseguindo durante duas eleições estar no poder. Sobre Lula recaia réstias de esperança advinda de todos citados a cima antes dele, em suas duas legislaturas o país passou por um período de pseudos avanços econômicos e sociais, chegando a ser ovacionado em terras estrangeiras como um dos grandes líderes políticos do seu tempo, para se encontrar hoje encarcerado numa cela da polícia federal condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, depois de uma grande investigação da Operação Lava-Jato, uma das maiores operações contra corrupção da história.

Chegando agora com a comitiva da história e aportando nos dias atuais, estamos vivendo no Brasil, um período bastante sui generis quando o assunto é política. Depois do tsunami causado pela Operação Lava-Jato foi nos dado a possibilidade de assistir mega empresários e políticos serem presos a luz do dia, por detrás dos processos que levaram as prisões, bilhões de reais desviados da saúde, infraestrutura, educação e etc.

Em meados de 2013 depois da tomada das ruas pelo povo, pela primeira vez começamos a ouvir falar em âmbito nacional de uma figura um tanto quanto nova no cenário político do Brasil.  Jair Bolsonaro, Deputado Federal por cinco legislaturas pelo Rio de Janeiro, capitão da reserva do exército brasileiro. Detentor de um discurso objetivo e conciso sobre agendas urgentes como segurança, educação, saúde e economia, o candidato iniciou uma caminhada por todo o Brasil há três anos atrás, e por conta de um discurso firme e muitas vezes tido como autoritário veio amealhando seguidores e simpatizantes por todo o território brasileiro. Jair Bolsonaro se difere muito pouco de figuras que tinham em sua personalidade e retórica bastante semelhanças com seus posicionamentos, podemos citar rapidamente Enéas que chegou a obter ótimas votações em pleitos presidenciais do passado. Recai sobre o candidato Jair Bolsonaro uma áurea de escolhido novamente é bem verdade, mas aqui precisamos tomar certo cuidado e guardar muito bem as devidas proporções com o passado. Nunca na história dessa nação quadro algum da política nacional surgiu e alcançou um alto patamar de expectativa tão grande por parte da opinião pública.  Quando falamos anteriormente de Getúlio, Juscelino, Tancredo e Lula, percebam que esses possuíam longa estrada quando o assunto é conhecimento por parte da opinião pública. Pode-se vaticinar que o candidato é resultado de uma excelente exposição nas mídias sociais, mas é bem verdade que as mídias sociais já estão aí há cerca de duas, três eleições. Pode-se novamente tentar explicar que Jair Bolsonaro é resultado de um profundo descontentamento do povo brasileiro com uma esquerda carcomida enlameada de corrupção tendo seu maior líder encarcerado na República de Curitiba, mas vejamos bem partidos de uma esquerda ultra-radical como PSTU, PCO, PC do B e outros coexistem no mesmo espaço e tempo do candidato Jair Bolsonaro e em momento algum vimos nenhum quadro advindo desses surgindo como grande redentor das grandes mazelas da política nacional. Jair Bolsonaro carrega consigo a espada do moralismo político, do civilismo, da figura de deus acima de todos, e através desse discurso firme e irreversível trouxe junto de sim a maior parte da parcela do eleitorado brasileiro, nunca um candidato obteve tantos votos num primeiro turno de uma eleição, ainda que fosse um político que já tivesse passado por outras eleições a presidência, mas não é o seu caso. Tido por seus seguidores como Mito, Jair Bolsonaro não nos resta dúvidas hoje é um fenômeno pop, semelhante a grandes nomes da Cultura Pop mundial. Não podemos esquecer que figuras históricas da humanidade como o Papa João Paulo II e John Lennon sofreram atentados e Jair Bolsonaro se recupera milagrosamente de um. Como testemunhas que somos do nosso tempo cabe a nós observarmos com calma e com grande esperança no coração, que essa estrela não passe e se dissipe rapidamente aos nossos olhos, mas que possamos ver a verdade por detrás do seu brilho durante bastante tempo sobre o céu azul anil do Brasil.

 Por Natan Castro.
 Editor do Blog.


12 de nov. de 2016

Ferreira Gullar Versus Os Intelectuais de Esquerda



- Folha de S. Paulo

Cada dia que passa me convenço mais de que, sobretudo quando se trata de política, as pessoas, em geral, têm dificuldade de aceitar a realidade se ela contraria suas convicções.

Recentemente, durante um almoço, ouvi, perplexo, afirmações destituídas de qualquer vínculo efetivo com a realidade dos fatos. Minha perplexidade foi crescendo tanto que, após tentar mostrar o despropósito do que afirmavam, fingi que necessitava ir ao banheiro e não voltei mais ao tal papo furado.

Não resta dúvida de que, até certo ponto, essa dificuldade de aceitar a realidade decorre do momento que estamos vivendo, tanto no Brasil como no mundo em geral.

Tem-se a impressão de que atravessamos um período de mudanças radicais quando os valores, sejam ideológicos, econômicos ou éticos, entram em crise.

Isso parece ter a ver tanto com as utopias quanto com a implantação de novos meios de comunicação. Estes tornaram o mundo menor ou, dizendo de outro modo, é como se todos os povos, nos diversos pontos do planeta, vivessem uma mesma atualidade. Sabemos, a todo instante, de tudo o que ocorre em qualquer região, em qualquer país, em qualquer cidade do planeta.

No caso de nós, brasileiros, acresce o fato de que chegamos ao fim de uma fase que culminou no afastamento da presidente da República e na implantação de um governo interino, agora permanente. Acresce o fato de que o governo que findou era a expressão de um regime populista, caracterizado por um ideologismo demagógico, apoiado no setor pobre e carente da população. Na verdade, versão primária de um regime dito de esquerda em aliança com o capitalismo corrupto, que ele fingia combater.

Pois bem: que o povão desinformado se deixe levar pelas benesses recebidas é compreensível. Difícil de explicar, porém, é a atitude de intelectuais de esquerda que aceitam a burla como verdade.

E era isso que transparecia na tal conversa do encontro a que me referi no começo desta crônica. Uma das pessoas presentes, dizendo-se contra Dilma Rousseff, tampouco admitia o governo Michel Temer. Quando a lembrei que o governo de Temer tinha apenas um mês de existência e que herdara do anterior uma situação crítica com mais de 11 milhões de desempregados, ela respondeu: "Na cidadezinha onde moro não há desemprego. Duvido muito desses números".

Lembrei-a que aqueles eram dados do IBGE, divulgados havia três meses, quando ainda era Dilma quem presidia o país, ela respondeu: "E o IBGE não podia estar infiltrado por adversários do governo?"

É que essa senhora se diz de esquerda e, embora não possa negar o estado crítico a que o PT conduziu o país, usa de argumentos infundados para colocar em dúvida o fracasso petista. Já observaram que os que defendem esse populismo nunca tocam nos escândalos revelados pela Lava Jato, no assalto à Petrobras, nas propinas dadas a funcionários e políticos inclusive do PT? É que têm dificuldade de aceitar a realidade dos fatos e admitir que estão errados. E se alguém faz referência a tais escândalos, gritam: "Mas isso é mentira!" Ou seja, para quem não suporta a realidade, só é verdade o que lhe convém.

Saí dessa roda e fui me sentar com outro grupo, que falava de futebol, particularmente do Vasco, meu time do coração, que anda mal das pernas, pois acabara de ser desclassificado, ainda na primeira rodada da Copa do Brasil. Mas eis que chega um velho companheiro, simpatizante do PC do B, do finado PCB e muda o assunto da conversa, de futebol para a polícia. Foi então que um dos presentes afirmou que o comunismo já acabara, uma vez que a própria China era hoje a segunda maior potência capitalista do mundo.

– Isso não, contestou o velho comuna. O comunismo está mais vivo do que nunca. A China encarna a nova forma que o regime socialista ganhou.


– Sim –brinquei eu–, é o comunismo capitalista! Todos riram, menos o autor daquela tese surrealista.

Ferreira Gullar

13 de set. de 2016

CRIME DA ULEN - O KENNEDY QUE MORREU EM SÃO LUIS



Deu no New York Times: Americano é assassinado no Brasil. A notícia publicada há 80 anos relatou a morte de John Harold Kennedy, 31 anos. Dois tiros disparados pelo maranhense José de Ribamar Mendonça, 25, bilheteiro de bondes da Ulen Company, atingiram e mataram o contador da empresa, na Rua da Estrela, em São Luís, no dia 30 de setembro de 1933.

Sessenta e seis anos depois do homicídio, o jornal britânico The Guardian noticiou: Brasil viu o primeiro ato na tragédia dos Kennedys. Apesar de o nome de John Harold não constar na árvore genealógica oficial da família, o periódico acolheu uma versão local, segundo a qual teria sido confirmada por um cônsul dos Estados Unidos a informação de que Harold seria irmão ilegítimo de Joseph, o pai de John F. Kennedy, presidente americano assassinado em 22 de novembro de 1963 em Dallas, Texas.

Muitos consideram que a chamada maldição dos Kennedy começou com a morte de Joseph Joe Junior, irmão mais velho de JFK, em 12 de agosto de 1944, na explosão do avião que pilotava, durante a Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra. Um dos indícios do parentesco do Kennedy morto no Maranhão com o ex-presidente, entretanto, é que ambos nasceram no estado de Massachusetts.

TRÊS JULGAMENTOS A morte de John Harold foi imediata, mas o drama de Mendonça durou 11 anos, entre 1933 e 1944. Passou por três julgamentos em todos eles absolvido - e provocou uma crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, envolvendo nove ministros brasileiros e três embaixadores americanos. O livro Morte na Ulen Company (Record, 1983), de José Joffily, narra a dimensão política e social dada aos fatos.

A assinatura de contrato entre a empresa americana e o governo maranhense para realização de obras públicas e posterior administração de serviços - dentre eles, transporte, luz e água - ocorreu em 1923. Inicialmente recebida com a perspectiva de solução para problemas graves enfrentados pela população, tornou-se, em pouco tempo, motivo de reclamações.

A constante elevação das tarifas, baixos salários pagos aos empregados locais e a arrogância dos representantes da Ulen estavam entre as principais queixas da comunidade. Jornais do Maranhão e de outros estados criticavam termos do contrato, considerado abusivo.

Foi neste contexto que o bilheteiro, demitido poucos dias antes de completar dez anos de serviços e conquistar a estabilidade na empresa, matou Kennedy. A vingança pessoal ganhou ares de clamor público antiamericano, especialmente contra os administradores da Ulen.

A Coordenadoria do Arquivo e Documentos Históricos do Tribunal de Justiça preserva a carta testemunhável requerida por Russel F. Kennedy, irmão de Harold. O documento solicitado com o intuito de recorrer ao Supremo Tribunal Federal, após as três absolvições de Mendonça e à negativa da instância superior a um recurso extraordinário seu, apresenta atos registrados no período.

Preso em flagrante, Mendonça foi levado a júri popular pela primeira vez em 21 de novembro de 1933. Waldemar de Sousa Brito foi um de seus advogados de defesa.

Uma das astúcias dele foi ter enrolado o José Mendonça na bandeira brasileira, perante o conselho de sentença, como se dissesse: vocês é que têm que exercer a soberania, que é inerente ao Tribunal do Júri. Nós temos que mostrar para os americanos que aqui também nós temos Justiça, destaca o juiz José Eulálio Figueiredo de Almeida, escritor e pesquisador de julgamentos que fizeram história no Maranhão.

Mendonça foi absolvido por cinco votos a dois, sob o argumento de que se achava em estado de perturbação dos sentidos e de inteligência. O promotor Edson Brandão apelou da decisão, que foi anulada pela Câmara Criminal do então Superior Tribunal de Justiça do Maranhão, com o fundamento de não ter havido prévia perícia técnica.

No segundo julgamento, em 18 de abril de 1934, o júri o absolveu por unanimidade, reconhecendo que o réu cometeu o crime para evitar mal maior.

O terceiro julgamento só se realizaria 11 anos depois do crime, apesar do protesto do advogado, alegando não ser possível fazer retroagir uma lei nova para prejudicar o réu, já que Mendonça havia adquirido direito dentro do então revogado Código do Processo Criminal do Estado.

O ex-bilheteiro já vivia desde 1935 no Rio de Janeiro, contratado pela Companhia Atlantic de Petróleo, quando foi mais uma vez preso. Trazido para São Luís, encarou o terceiro julgamento do tribunal do júri e de novo foi absolvido, desta vez por legítima defesa.


Em 6 de dezembro de 1944, Russel Kennedy entrou com recurso no Supremo, usando a carta testemunhável. Mendonça morreu oito anos depois, de infarto, no local de trabalho.

Fonte: http://tj-ma.jusbrasil.com.br/

16 de ago. de 2016

ÓDIO NÃO, É AMOR AO BRASIL PORRA!



O discurso proliferado nos meios de comunicação de que existe muito ódio por parte de alguns brasileiros, no tocante ao atual processo de impeachment ao qual passa o país. Nada mais é que uma campanha idiota com o intuito de desviar as críticas verdadeiras e contundentes em cima de um dos mais ridículos projetos de poder já vistos na politica moderna.

O que eles nomeiam de ódio é na verdade um grito em busca de justiça. O projeto de poder idealizado pela mente maquiavélica de Lula, Dirceu e seus asseclas, representa uma das maiores passadas de pernas no povo brasileiro nos últimos tempos. Em 2002 no inicio do primeiro mandato do PT na Presidência da República, uma porcentagem considerável de brasileiros natos, distribuídos nas mais diversas camadas sociais, todos imbuídos pelo desejo de progresso, modificações sociais, crescimento sustentável, distribuição de renda, mais empregos e tantos outros anseios factíveis. São os mesmos que se esgoelam hoje contra os desmandos do projeto maquiavélico do PT.

A tentativa de desmantelar essa onda que só cresce, tem como foco principal divulgar aos quatro ventos que o país está sendo dividido por conta de uma onda de ódio desacerbado e sem motivo. Isso nada mais é que uma campanha fajuta arquitetada por publicitários criminosos na grande maioria, na verdade muitos desses se encontram atrás das grades. O cinismo petista chega a ser incomensurável, como querer desvirtuar tanta lama com odores de corrupção derramados nos quatro cantos da politica brasileira. Com o andar da carruagem democrática trazida a baila pela Operação Lava a Jato, o petismo em nada se escusou de continuar tentando interferir, além de continuar as jogatinas corruptivas que tanto marcaram os mais de dez anos no poder.

Lula o grande mentor de uma das maiores farsas da história da politica moderna, não só enganou o povo brasileiro fantasiado de líder politico advindo das classes menos favorecidas do Brasil, enganou igualmente também uma leva de grandes investidores e nações mundo afora. O que impressiona na figura pueril desse repugnante cidadão, é a tamanha hipocrisia de sua personalidade, a qual ele conseguiu esconder de todos durante um tempo considerável, enquanto ele revestia sua imagem de líder popular, por detrás como que num passe de mágica, arrotava e esbravejava ao lado de mega empresários do país. Com direito a viagens pagas por empreiteiras com almoços e jantares caríssimos, troca de favores das mais diversas possíveis, em detrimento do esfacelamento das reservas de um país com desigualdades sociais acentuadíssimas, dentre outras fragilidades, um país que jamais passou de um projeto de “país em desenvolvimento”.


Portanto é estafúrdia a campanha de uma divisão nacional por conta de ódio sem motivo. A essa altura do campeonato não existe dúvidas que as redes sociais representam uma das ferramentas mais propicias para a disseminação da democracia. Quem não se sustenta no debate que saia pela tangente com o rabo entre as pernas, e é essa a politica dos farsantes, muitos deles soldados sustentados em cargos fantasmas, atrelados a favores dos mais comezinhos possíveis, é bem verdade que são cobrados pela alta hierarquia petista, chegando alguns as vias de fato nas manifestações país afora, brutamontes e covardes. Desta forma cabe a nós brasileiros de verdade, lembrar que nunca será ódio, mas amor ao nosso país ao nosso Brasil.    

Natan Castro - Editor

4 de ago. de 2016

Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche


Casa de Cultura Hughenote Daniel de La Touche

São Luís é reconhecidamente a única capital brasileira fundada pelos franceses. Nos últimos anos informações contrárias a essa constatação histórica, foram divulgadas no meio acadêmico e opinião pública do Estado do Maranhão. Mas os registros não só confirma como demonstra com riqueza de detalhes a fundação da Ilha de Upaon Açu, nossa São Luís-MA.

Quem desejar ter mais informação sobre esse período riquíssimo da nossa história e formação pode visitar a Casa de Cultura Hughenote Daniel de La Touche. Que é um centro cultural voltado para divulgação e memória da estadia dos franceses nos primeiros instantes da história de nossa capital, além de divulgação também da arte e cultura genuinamente maranhense.


A Casa de Cultura Hughenote Daniel de La Touche está localizada no Beco Catarina Mina na Praia Grande, o primeiro prédio do lado direito do Beco logo depois do fim da escadaria. A Casa possui diariamente visitas acompanhadas por instrutores que de forma bastante competente contam a verdadeira história da fundação da Ilha de São Luís com riqueza de detalhes. No mesmo prédio o local possui uma cafeteria, contando ainda com alguns eventos dentre eles cursos de línguas, saraus poéticos e recitais musicais. 


Telefone: (98) 3234-5433

1 de jul. de 2016

Graça Aranha - O Maranhense da Semana de Arte Moderna



Por Natan Castro

Retomando o projeto de divulgação dos grandes vultos da literatura maranhense, nesse mês de julho o homenageado é o romancista, ensaísta e diplomata José Pereira de Graça Aranha. Maranhense de São Luís o escritor filho de uma família abastada foi desde sempre acostumado a uma educação esmerada. Ainda jovem foi para Recife estudar direito, exerceu cargos na magistratura e na diplomacia brasileira, nesse último esteve em diversas nações a serviço do Itamaraty, dentre elas Inglaterra, Noruega, Holanda e França.

Com a estadia nos países europeus o escritor teve a oportunidade de acompanhar o surgimento das vanguardas do inicio do século XX, as mesmas que propunham mudanças drásticas nos meandros da arte mundial. Essas movimentações desencadearam no que se convencionou a chamar um pouco depois de arte moderna. No seu retorno ao Brasil com essas informações em mente Graça Aranha lança em 1902 o romance Canaã que é considerada sua obra prima. No período estando exercendo o cargo de juiz de direito no interior do Espirito Santo, o autor se apropria das ideias das vanguardas europeias fundindo-a com o imaginário regional Capixaba para dar luz ao enredo do romance. Implicitamente o grande escritor propunha novos rumos na literatura brasileira, um ar de revolução varria as paragens literárias do mundo inteiro influenciadas pelos europeus. Na opinião do escritor havia chegado o momento do Brasil participar desses debates.

Graça Aranha havia sido um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras anos antes, um fato curioso desse período é de como foi aceito membro sem mesmo ter lançado um livro, a época iniciava os escritos de Canaã, ao citar trechos nas primeiras reuniões chamou a atenção de Joaquim Nabuco e Machado de Assis. Após a repercussão do livro Graça Aranha tenta levar os ares de inovação para os meandros da Academia, porém sofre uma forte repressão, com destaque para os comentários contrários de outro maranhense o escritor Coelho Neto.

Segundo muitos críticos e especialistas, no período as inovações estéticas contidas no romance Canaã acabou por aproximar Graça Aranha dos jovens paulistanos que propunham igualmente uma profunda renovação nas artes no Brasil, envolvendo a música, literatura e artes plásticas em geral. No lançamento da Semana de Arte Moderna de 1922 o escritor realiza o famoso discurso chamado O Espirito Moderno (A Emoção Estética na Arte Moderna). Graça Aranha é mais um dos grandes escritores surgidos nos períodos de ouro da Athenas Brasileira, que colocava o Maranhão em destaque na literatura brasileira. Mais um maranhense de importância seminal para um dos momentos mais controversos e férteis de toda a história da literatura brasileira.


 A emoção estética na arte moderna

Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de "horrores". Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatários a arte ainda é o Belo.

Nenhum preconceito é mais perturbador à concepção da arte que o da Beleza. Os que imaginam o belo abstrato são sugestionados por convenções forjadoras de entidades e conceitos estéticos sobre os quais não pode haver uma noção exata e definitiva. Cada um que se interrogue a si mesmo e responda que é a beleza? Onde repousa o critério infalível do belo? A arte é independente deste preconceito. É outra maravilha que não é a beleza. É a realização da nossa integração no Cosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagos e indefiníveis sentimentos que nos vêm das formas, dos sons, das cores, dos tatos, dos sabores e nos levam à unidade suprema com o Todo Universal. Por ela sentimos o Universo, que a ciência decompõe e nos faz somente conhecer pelos seus fenômenos. Por que uma forma, uma linha, um som, uma cor nos comovem, nos exaltam e transportam ao universal? Eis o mistério da arte, insolúvel em todos os tempos, porque a arte é eterna e o homem é por excelência o animal artista. O sentimento religioso pode ser transmudado, mas o senso estético permanece inextinguível, como o Amor, seu irmão imortal. O Universo e seus fragmentos são sempre designados por metáforas e analogias, que fazem imagens. Ora, esta função intrínseca do espírito humano mostra como a função estética, que é a de idear e imaginar, é essencial à nossa natureza.

A emoção geradora da arte ou a que esta nos transmite é tanto mais funda, mais universal quanto mais artista for o homem, seu criador, seu intérprete ou espectador. Cada arte nos deve comover pelos seus meios diretos de expressão e por eles nos arrebatar ao Infinito.

A pintura nos exaltará, não pela anedota, que por acaso ela procure representar, mas principalmente pelos sentimentos vagos e inefáveis que nos vêm da forma e da cor.
Que importa que o homem amarelo ou a paisagem louca, ou o Gênio angustiado não sejam o que se chama convencionalmente reais? O que nos interessa é a emoção que nos vem daquelas cores intensas e surpreendentes, daquelas formas estranhas, inspiradoras de imagens e que nos traduzem o sentimento patético ou satírico do artista. Que nos importa que a música transcendente que vamos ouvir não seja realizada segunda as fórmulas consagradas? O que nos interessa é a transfiguração de nós mesmos pela magia do som, que exprimirá a arte do músico divino. É na essência da arte que está a Arte. É no sentimento vago do Infinito que está a soberana emoção artística derivada do som, da forma e da cor. Para o artista a natureza é uma "fuga" perene no Tempo imaginário. Enquanto para os outros a natureza é fixa e eterna, para ele tudo passa e a Arte é a representação dessa transformação incessante. Transmitir por ela as vagas emoções absolutas vindas dos sentidos e realizar nesta emoção estética a unidade com o Todo é a suprema alegria do espírito.

Se a arte é inseparável, se cada um de nós é um artista mesmo rudimentar, porque é um criador de imagens e formas subjetivas, a Arte nas suas manifestações recebe a influência da cultura do espírito humano.

Toda a manifestação estética é sempre precedida de um movimento de idéias gerais, de um impulso filosófico, e a Filosofia se faz Arte para se tornar Vida. Na antigüidade clássica o surto da arquitetura e da escultura se deve não somente ao meio, ao tempo e à raça, mas principalmente à cultura matemática, que era exclusiva e determinou a ascendência dessas artes da linha e do volume. A própria pintura dessas épocas é um acentuado reflexo da escultura. No renascimento, em seguida à perquirição analítica da alma humana, que foi a atividade predominante da idade média, o humanismo inspirou a magnífica floração da pintura, que na figura humana procurou exprimir o mistério das almas. Foi depois da filosofia natural do século XVII que o movimento panteístico se estendeu à Arte e à Literatura e deu à Natureza a personificação que raia na poesia e na pintura da paisagem. Rodin não teria sido o inovador, que foi na escultura, se não tivesse havido a precedência da biologia de Lamarck e Darwin. O homem de Rodin é o antropóide aperfeiçoado.

E eis chegado o grande enigma que é o precisar as origens da sensibilidade na arte moderna. Este supremo movimento artístico se caracteriza pelo mais livre e fecundo subjetivismo. É uma resultante do extremado individualismo que vem vindo na vaga do tempo há quase dois séculos até se espraiar em nossa época, de que é feição avassaladora.
Desde Rousseau o indivíduo é a base da estrutura social. A sociedade é um ato da livre vontade humana. E por este conceito se marca a ascendência filosófica de Condillac e da sua escola. O individualismo freme na revolução francesa e mais tarde no romantismo e na revolução social de 1848, mas a sua libertação não é definitiva. Esta só veio quando o darwinismo triunfante desencadeou o espírito humano das suas pretendidas origens divinas e revelou o fundo da natureza e as suas tramas inexoráveis. O espírito do homem mergulhou neste insondável abismo e procurou a essência das coisas. O subjetivismo mais livre e desencantado germinou em tudo. Cada homem é um pensamento independente, cada artista exprimirá livremente, sem compromissos, a sua interpretação da vida, a emoção estética que lhe vem dos seus contatos com a natureza. É toda a magia interior do espírito se traduz na poesia, na música e nas artes plásticas. Cada um se julga livre de revelar a natureza segundo o próprio sentimento libertado. Cada um é livre de criar e manifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeada de toda a regra, de toda a sanção. O cânon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que os revela, por entre mil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. Ninguém pode dizer com segurança onde o erro ou a loucura na arte, que é a expressão do estranho mundo subjetivo do homem. O nosso julgamento está subordinado aos nossos variáveis preconceitos. O gênio se manifestará livremente, e esta independência é uma magnífica fatalidade e contra ela não prevalecerão as academias, as escolas, as arbitrárias regras do nefando bom gosto, e do infecundo bom-senso. Temos que aceitar como uma força inexorável a arte libertada. A nossa atividade espiritual se limitará a sentir na arte moderna a essência da arte, aquelas emoções vagas transmitidas pelos sentidos e que levam o nosso espírito a se fundir no Todo infinito.
Este subjetivismo é tão livre que pela vontade independente do artista se torna no mais desinteressado objetivismo, em que desaparece a determinação psicológica. Seria a pintura de Cézanne, a música de Strawinsky reagindo contra o lirismo psicológico de Debussy procurando, como já se observou, manifestar a própria vida do objeto no mais rico dinamismo, que se passa nas coisas e na emoção do artista.

Esta talvez seja a acentuação da moda, porque nesta arte moderna também há a vaga da moda, que até certo ponto é uma privação da liberdade. A tirania da moda declara Debussy envelhecido e sorri do seu subjetivismo transcendente, a tirania da moda reclama a sensação forte e violenta da interpretação construtiva da natureza pondo-se em íntima correlação com a vida moderna na sua expressão mais real e desabusada. O intelectualismo é substituído pelo objetivismo direto, que, levado ao excesso, transbordará do cubismo no dadaísmo. Há uma espécie de jogo divertido e perigoso, e por isso sedutor, da arte que zomba da própria arte. Desta zombaria está impregnada a música moderna que na França se manifesta no sarcasmo de Eric Satie e que o grupo dos "seis" organiza em atitude. Nem sempre a fatura desse grupo é homogênea, porque cada um dos artistas obedece fatalmente aos impulsos misteriosos do seu próprio temperamento, e assim mais uma vez se confirma a característica da arte moderna que é a do mais livre subjetivismo.
É prodigioso como as qualidades fundamentais da raça persistem nos poetas e nos outros artistas. No Brasil, no fundo de toda a poesia, mesmo liberta, jaz aquela porção de tristeza, aquela nostalgia irremediável, que é o substrato do nosso lirismo. É verdade que há um esforço de libertação dessa melancolia racial, e a poesia se desforra na amargura do humorismo, que é uma expressão de desencantamento, um permanente sarcasmo contra o que é e não devia ser, quase uma arte de vencidos. Reclamemos contra essa arte imitativa e voluntária que dá ao nosso "modernismo" uma feição artificial. Louvemos aqueles poetas que se libertam pelos seus próprios meios e cuja força de ascensão lhes é intrínseca. Muitos deles se deixaram vencer pela morbidez nostálgica ou pela amargura da farsa, mas num certo instante o toque da revelação lhes chegou e ei-los livres, alegres, senhores da matéria universal que tornam em matéria poética.

Destes, libertados da tristeza, do lirismo e do formalismo, temos aqui uma plêiade. Basta que um deles cante, será uma poesia estranha, nova, alada e que se faz música para ser mais poesia. De dois deles, nesta promissora noite, ouvireis as derradeiras "imaginações". Um é Guilherme de Almeida, o poeta de "Messidor", cujo lirismo se destila sutil e fresco de uma longínqua e vaga nostalgia de amor, de sonho e de esperança, e que, sorrindo, se evola da longa e doce tristeza para nos dar nas Canções Gregas a magia de uma poesia mais livre do que a Arte. O outro é o meu Ronald de Carvalho, o poeta da epopéia da "Luz Gloriosa" em que todo o dinamismo brasileiro se manifesta em uma fantasia de cores, de sons e de formas vivas e ardentes, maravilhoso jogo de sol que se torna poesia! A sua arte mais aérea agora, nos novos epigramas, não definha no frívolo virtuosismo que é o folguedo do artista. Ela vem da nossa alma, perdida no assombro do mundo, e é a vitória da cultura sobre o terror, e nos leva pela emoção de um verso, de uma imagem, de uma palavra, de um som à fusão do nosso ser no Todo infinito.
A remodelação estética do Brasil iniciada na música de Villa-Lobos, na escultura de Brecheret, na pintura de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, e na jovem e ousada poesia, será a libertação da arte dos perigos que a ameaçam do inoportuno arcadismo, do academismo e do provincialismo.
O regionalismo pode ser um material literário, mas não o fim de uma literatura nacional aspirando ao universal. O estilo clássico obedece a uma disciplina que paira sobre as coisas e não as possui.
Ora, tudo aquilo em que o Universo se fragmenta é nosso, são os mil aspectos do Todo, que a arte tem que recompor para lhes dar a unidade absoluta. Uma vibração íntima e intensa anima o artista neste mundo paradoxal que é o Universo brasileiro, e ela não se pode desenvolver nas formas rijas do arcadismo, que é o sarcófago do passado. Também o academismo é a morte pelo frio da arte e da literatura. (...)
O que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. É o próprio comovente nascimento da arte no Brasil, e, como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promete uma admirável "florada" artística. E, libertos de todas as restrições, realizaremos na arte o Universo. A vida será, enfim, vivida na sua profunda realidade estética. O próprio Amor é uma função da arte, porque realiza a unidade integral do Todo infinito pela magia das formas do ser amado. No universalismo da arte estão a sua força e a sua eternidade. Para sermos universais façamos de todas as nossas sensações expressões estéticas, que nos levem a à ansiada unidade cósmica. Que a arte seja fiel a si mesma, renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairado do grande exílio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dos tatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo.

(Espírito Moderno, 1925)

Graça Aranha

22 de jun. de 2016

A ESQUISITA FOBIA DE SER MARANHENSE



Por Natan Castro

Não é exagero nenhum dizer que o povo maranhense sofre de uma profunda crise de identidade. Iniciamos com essa afirmação para aprofundar o assunto na seara da arte e da cultura, nessa parte que nos toca sensivelmente o problema é muito mais acentuado. O passado literário do estado, recheado de glórias com autores de extrema relevância nas letras nacionais. Tudo isso com o passar dos anos virou frágeis lembranças na mente de muitos maranhenses, vindo a virar coisa de historiador, pesquisadores aposentados, professores saudosistas. Com a sucessão dos mandatários na gestão estadual a problemática da indigência cultural tem se acentuado, nos legando problemas seríssimos, a falta de renovação da tradição com politicas que visam somente o perfeito encarceramento artístico dos entes culturais.

Na atualidade essas informações passadas são capazes de deixar qualquer adolescente maranhense, seja ele estudante do ensino médio e outros sem entender praticamente nada. Nas escolas, universidades e entes educacionais, falam-se de tudo menos de nossos heróis do passado, figuras fundamentais como Manuel Beckman, Apolonia Pinto, O matemático Souzinha, Sousândrade, Canhoteiro, Turibio Santos, só para citar alguns, são personas que inexistem nas cabeças de nossos jovens. No campo da música o Estado do Maranhão, nas ultimas décadas vem sendo invadido não só pela música de outros estados bem como em alguns casos por suas culturas. Nos últimos anos o forró de Fortaleza, depois o funk carioca, o axé baiano, recentemente o tecnobrega e o sertanejo universitário. Com as nossas fronteiras sendo invadidas por todos os flancos pelo imaginário de fora, o processo de desintegração de nossos valores culturais produziu essa falta de identidade que nos deparamos hoje. Tal recrudescimento causa no inconsciente coletivo do nosso povo uma ridícula fobia de se afirmar maranhense. As alarmantes noticias vinculadas em âmbito nacional ajudaram em muito a acentuar o problema. Precisamos urgentemente debater a problemática desse rompimento com as verdades de nossas raízes, com multa de num futuro muito próximo, passarmos pela perda total de nosso passado, causando o inicio da perda completa de nossa maranhensidade.

17 de mai. de 2016

Verdade Tropical (Caetano Veloso) - Resenha



Por Natan Castro

Verdade Tropical a espécie de livro autobiográfico lançado por Caetano Veloso em 1997 aos 55 anos só veio a baila por conta da insistência de um jornalista e amigo americano. A ideia segundo o cantor era contar a história do movimento tropicalista, algo que com o passar tempo se expandiu para algo mais abrangente. De fato o livro tem sim a Tropicália de Gil e Caetano como fio condutor, mas os mergulhos na memória do artista que foram registrados no livro citam momentos anteriores ao movimento e claro cita fatos de depois da deflagração do mesmo.

Caetano resgata momentos ímpares em sua formação como a escolha do nome da irmã cantora Maria Bethânia, a emoção de assistir no cinema La Strada de Fellini na adolescência, durante os relatos no decorrer das cerca de 500 páginas do livro, percebemos como a vida do artista se confunde com a própria musica popular do Brasil dos anos cinquenta para a frente. Discípulo do genial violonista João Gilberto o artista tenta demonstrar através da sua ótica o quanto foi importante o surgimento da Bossa Nova e como a mesma de certa forma os ajudou a chegar ao conceito estético cultural da Tropicália.

Todo o período inicial do movimento desde as batalhas nos festivais até a prisão e o exílio em Londres, nada passa sem ser contado pelo cantor com riquezas de detalhes, em Verdade Tropical estão citados os nomes dos maiores personagens da música, cinema, literatura e politica do Brasil a partir da segunda metade do século XX. O livro é sem dúvidas uma importante enciclopédia de informações artísticas do Brasil moderno, tudo contado através da visão de um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos.

O Autor: É Maranhense de São Luís, pesquisador de diversos assuntos, dentre eles a influência da arte nas engrenagens da história, além de contista às avessas, compositor aposentado e blogueiro. No momento pesquisa sobre a música cósmica dos astros e sua possível influência nos seres humanos.  

18 de mar. de 2016

BALNEÁRIO CAMBORIÚ, CENSO DO IBGE 1980 (5)


Eu terminei o episódio anterior dizendo que um dos recenseadores foi dispensado e eu fui escolhido para fazer o seu serviço, que consistia em fazer o censo na área central de Camboriú, em duas das três principais avenidas, a Central e a Brasil (a outra é a Avenida Atlântica, à beira-mar). Fiquei contente por que eu sabia que ia conseguir descolar uns trocados vendendo o meu livro de poesias.
Mas antes vou narrar o caso da italiana recenseada. Como expliquei anteriormente, de cada quatro residências em três se aplicava o formulário simplificado, cujas perguntas eram: quantas pessoas, quantas do sexo masculino, quantas do sexo feminino, e idade de cada um. E só.
À quarta residência a gente aplicava o formulário completo, onde se perguntava absolutamente tudo sobre a vida da pessoa. Sexo, idade, renda, escolaridade, casa própria ou alugada, quantos cômodos e especificar os cômodos: quantos quarós, salas, cozinha, área de serviço, etc. E bens móveis e imóveis. Fogão a gás ou  a lenha? Móveis de madeira ou de outro material? E sobre grana, conta bancária, poupança, fontes de renda, não escapava nada.
Olha: se assemelha muito ao formulário de declaração do imposto de renda, o mais complexo. E a gente encontrava sempre muita resistência de algumas pessoas. Umas por falta de esclarecimento, outras porque queriam esconder alguma coisa.
Naquela tarde calorenta de setembro, ainda seguindo o meu roteiro de recenseamento inicial, meti-me pela Avenida do Estado. Nada a ver com o aspecto atual da referida avenida. Naquela época, nem asfalto havia: uma longa e larga avenida de terra batida, pouco povoada. E seguindo na direção a Floripa, quase na saída da cidade, o quarto formulário me levou a uma casa de comércio. Pintada de azul, pintura recente, uma boa construção abrigando artigos e gêneros para várias necessidades: artigos de higiene, alimentos como cereais, artigos industriais, uma mistura de mini-mercado e bolicho de interior, onde se podia comprar de tudo: desde botão a arroz, de açúcar a sabão, verduras e frutas, laticínios e enlatados.
            À minha saudação de boa tarde, a dona do estabelecimento levantou-se de uma espreguiçadeira, onde certamente tirava um cochilo naquela hora em que depois de um almoço a gente ficava com aquela vontade de fazer uma sesta.
          Era uma senhora alta e forte, com cerca de um metro e oitenta ou mais, olhos profundamente azuis, por volta dos sessenta anos de idade. O jeito que me olhou e me cumprimentou, acendeu dentro de mim a luz vermelha de perigo, e eu imaginei que ali estava uma dona dura na queda. Daquelas que não querem responder sobre a vida pessoal, teres e haveres, pois após me fuzilar com aquele olhar azulado, perguntou secamente:
– O que foi? – certamente sabendo que eu não era conhecido e nem freguês, com uma pasta a tiracolo, deve ter pensando em mim como um incômodo, será fiscal do governo, cobrador de imposto municipal, o que diabos esse cara quer? (continua).

Raimundo Fonttenele

27 de jan. de 2016

CASAS GRANDES E SENZALAS, RUIDOSAS HABITAÇÕES

Se você quiser conhecer o Brasil, através da antropologia social escrita a partir dos anos sessenta até hoje, vai ficar boiando mais que os coliformes fecais na baía da Guanabara pré-olímpica. Isto porque os cientistas sociais (há exceções, poucas!), doutores saídos da fábrica USP e outras, escrevem seus livros e teses com um olho em Marx e outro nos cadáveres ambulantes de motos-vivos da América Latina, como Fidel, Chaves e sabe-se lá quem mais. Sim, o Lula, um ladrãozinho pé-de-chinelo, é incensado como grande líder.

Por isso é interessante conhecer o Brasil pelo começo e lendo quem sabe das coisas e não está eivado de ideologias, mas de fatos, acontecimentos, a vida doméstica e diária de um povo e de uma nação. Na mosca, quem pensou em Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, o mestre, este sim, com todas as honras.

Capa do Livro
“Para a formidável tarefa de colonizar uma extensão como o Brasil, teve Portugal de valer-se no século XVI do resto de homens que lhe deixara a aventura da Índia. E não seria com esse sobejo de gente, quase toda miúda, em grande parte plebéia e, além do mais, moçárabe, isto é, com a consciência de raça ainda mais fraca que nos portugueses fidalgos ou nos do Norte, que se estabeleceria na América um domínio português exclusivamente branco ou rigorosamente europeu. A transigência com o elemento nativo se impunha à política colonial portuguesa: as circunstâncias facilitaram-na. A luxúria dos indivíduos, soltos sem família, no meio da indiada nua, vinha servir a poderosas razões de Estado no sentido de rápido povoamento mestiço da nova terra. E o certo é que sobre a mulher gentia fundou-se e desenvolveu-se através dos séculos XVI e XVII o grosso da sociedade colonial, num largo e profundo mestiçamento, que a interferência dos padres da Companhia salvou de resolver-se todo em libertinagem para em grande parte regularizar-se em casamento cristão” (Gilberto Freyre in Casa Grande e Senzala).

Por isso, nossa dica de hoje é a leitura desta obra máxima do conhecimento da nossa história, como se desenha na Casa Grande e Senzala, ainda hoje presente no nosso meio, usando disfarces, a gente dos palácios (inclusive da esquerda) e a gente do meio da rua, a gente debaixo de pontes e viadutos, os desvalidos que perambulam pelas grandes cidades drogados e embrutecidos, num país do terceiro mundo, com governos ditos socialistas, mas na verdade populistas e corruptos. Seus governantes são os da Casa Grande. Nosotros somos os da Senzala, aplaudindo os senhores que nos roubam e nos escravizam.

A bênção, Gilberto Freyre!

Raimundo Fontenele

6 de jan. de 2016

QUARTA-FEIRA É DIA DE RF (dicas de livros, leituras, autores e o quiabo a quatro)


O papel dos intelectuais, hoje, é entenderem o Brasil. Porque a maioria dos “fazedores de cabeça” dos jovens escolares viram e aprenderam o Brasil sob a lupa marxista, ou leninista, ou gramsciana. Daí a necessidade destes senhores voltarem ao ABC da nossa antropologia e sociologia política e social para descobrirem que no mundo não existe só o vermelho. Existe o verde e o amarelo. O azul e o marrom. O lilás e o preto. O branco e o rosa... Cores, senhores, novas, velhas, estas e outras cores.


Por exemplo: Gilberto Freire e o seu Casa Grande e Senzala não pode sair de moda. Defendia a mistura, feliz mistura de raças, credos e cores. Tem que ser livro de cabeceira destes doutores empedernidos. Ah, mas Gilberto era reacionário, quem sabe deitava-se com a mucama negra. Os infelizes não sabem o que Marx fazia na vida doméstica?
O escritor Sérgio Buarque de Hollanda, da árvore genealógica do nosso compositor Chico Buarque, outrora combatente feroz da Ditadura Militar e hoje Garoto Propaganda do Governo mais Corrupto que esta nação já teve, escreveu o seu Raízes do Brasil, de onde se extraiu a lógica do homem cordial. O brasileiro é tão bonzinho. Convive em harmonia tão semelhante com seu dessemelhante. Mas a garotada que quer dar pitaco de que o Brasil isso o Brasil aquilo tem que conhecer o livro e as ideias. Até pra parar de falar besteiras nas redes sociais.


Outro importante manual do conhecimento histórico é Formação do Brasil Colonial dos professores Arno Wehling e Maria José C. de Wehling, um vigoroso “estudo dos processos pelos quais três grandes grupos étnicos, cada qual com seu universo-tempo particular e diferentes estruturas sociais, políticas, econômicas e mentais, interagiram num novo território ainda a conquistar”.
E, por fim, como ler não causa dor de cabeça nem disenteria mental em ninguém, apresentamos este que é o mais humorístico e um dos mais profundos trabalhos no campo da sociologia e antropologia política e social, e que, de certa forma, explica por outra vertente o Macunaíma, de Mário de Andrade. O herói sem nenhum caráter. O cara, no caso, o brasileiro, que endossa a lei de Gérson “temos que levar vantagem em tudo, certo?”. Esse mito do jeitinho brasileiro que pretende enganar a todos enganando a si mesmo. Tem uma vaga pra deficiente ali no estacionamento do supermercado desocupada? Eu vou e pimba!, coloco o meu carrão ali. E se vier o guarda, ou alguém, eu saco esta: “você sabe com quem está falando?” Esse é o livro: Carnavais, Malandros e Heróis (para uma sociologia do dilema brasileiro). E, seu autor, é o Roberto Damatta. Talvez a solução do dilema brasileiro fosse todo mundo criar um pouco de vergonha na cara. Inclusive, a Esquerda que se acha pura, limpa, perfeita, e parasse de roubar um pouco o dinheiro do Tesouro e o sonho do Brasileiro.


Nas próximas quartas feiras voltarei esmiuçando livro a livro, tese a tese, autor por autor, à esquerda e à direita.
Pesquisa e texto de Raimundo Fontenele, poeta e escritor maranhense

1 de jan. de 2016

OXENTE! A GENTE NÃO SAIU DO BRASIL IMPÉRIO? POR ISSO GONÇALVES DIAS ESTÁ AQUI



Gonçalves Dias (1823-1864) nasceu onze meses após a queda do Brasil-Colônia e o surgimento do Brasil-Império. E o período de 1823 a 1831 foi de grande efervescência política e cultural. Dom Pedro I, tremendamente autoritário, dissolve a Assembléia Constituinte e outorga uma Constituição, além de lutar pelo trono português contra seu irmão Miguel. Foi também acusado de mandar assassinar Libero Badaró, jornalista e político italiano radicado no Brasil, um combatente a favor da liberdade e contra a tirania e autoritarismo do imperador. No meio de tanta escaramuça, politicalha intestina, desaprovação dos políticos e com baixa popularidade não teve outra saída a não ser abdicar o trono imperial a favor de seu filho Dom Pedro II, uma criança ainda, e tivemos que conviver com um governo regencial.

(É a história se repetindo como farsa o que temos hoje no Brasil. De lambuja, tivemos até o assassinato de Celso Daniel para ficar tudo inserido no contexto. E Dilma e Lula querendo manter-se no Poder a todo custo).

Mas vamos lá para o Brasil Império. Foi então, por essa época, que surgiu nas letras brasileiras a escola literária conhecida como Romantismo, num ambiente confuso e inseguro politicamente. E este movimento vem carregado de lusofobia. Chega de luso, diziam, como dizemos agora chega de Lula. O movimento buscava sobretudo afirmar o nacionalismo, descobrir valores intrínsecos a nós mesmos. Descobrir um Brasil distante daqueles valores lusitanos, suas emoções e seus heróis e mitos que impregnavam a prosa e a poesia de Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, por exemplo.

Nós tínhamos os nossos índios. Ali buscaríamos nossas raízes antropológicas, sociais, democráticas. José de Alencar com seus romances Iracema e O Guarani, e Gonçalves Dias com sua poesia: Canção do Tamoio, I-Juca Pirama, Canto do Piaga, O Canto do Guerreiro, Canto de Morte, Marabá e também seu Dicionário da Língua Tupi são fundadores entre nós desse Romantismo carregado de brasilidade, das cores, cheiros e sabores tropicais, fonte inesgotável de toda arte literária que lhes sucedeu. Além disso três são os traços marcantes e característicos desse movimento romântico: 1) o egocentrismo, também chamado de subjetivismo, ou individualismo. Evidencia a tendência romântica à pessoalidade e ao desligamento da sociedade. O artista volta-se para dentro de si mesmo, colocando-se como centro do universo poético. A primeira pessoa ("eu") ganha relevância nos poemas. 2) o nacionalismo: corresponde à valorização das particularidades locais. Opondo-se ao registro de ambiente árcade, que se pautava pela mesmice, vendo pastoralismo em todos os lugares, o Romantismo propõe um destaque da chamada "cor local", isto é, o conjunto de aspectos particulares de cada região. Esses aspectos envolvem componentes geográficos, históricos e culturais. Assim, a cultura popular ganha considerável espaço nas discussões intelectuais de elite. 3) a liberdade de expressão: é um dos pontos mais importantes da escola romântica. "Nem regra, nem modelos", afirma Victor Hugo, um dos mais destacados românticos franceses. Pretendendo explorar as dimensões variadas de seu próprio "eu", o artista se recusa a adaptar a expressão de suas emoções a um conjunto de regras pré-estabelecido. Da mesma forma, afasta-se de modelos artísticos consagrados, optando por uma busca incessante da originalidade. E aqui iniciamos o nosso trabalho de homenagear, mensalmente, por enquanto, um escritor maranhense. E acredito começarmos bem, pois Gonçalves Dias, pela sua obra que resistiu ao tempo, é um dos grandes nomes da literatura brasileira e universal, orgulho do Maranhão de ontem, de hoje e de sempre.
Texto e Pesquisa de Raimundo Fontenele, escritor e poeta maranhense