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6 de dez. de 2016

3º FESTIVAL POEME-SE DE POESIA FALADA




3º FESTIVAL POEME-SE DE POESIA FALADA
 
PRÊMIO NAURO MACHADO 2017
 
O Poeme-se realizará no dia 21 de março de 2017 – Dia Mundial da Poesia - UNESCO, em São Luís do Maranhão, o 3º FESTIVAL POEME-SE DE POESIA FALADA, com a finalidade de estimular e divulgar a atual produção poética realizada em língua portuguesa por autores inéditos, nascidos ou residentes no Estado do Maranhão. O evento integra o PROJETO MAIS POESIA, desenvolvido pelo POEME-SE e PAPOÉTICO. As inscrições deverão ser feitas através do site: www.poeme-se.com.br

 Artigo 1 - Poderá participar do Festival qualquer pessoa que escreva poesia em língua portuguesa, seja nascido ou residente no Maranhão e que não tenha livros publicados.
 
Artigo 2 - O FESTIVAL será realizado em São Luís, capital do Estado do Maranhão, dia 21 de março de 2017, com a apresentação (interpretação) de 20 (vinte) poemas finalistas, previamente selecionados pela COMISSÃO JULGADORA (a divulgação dos escolhidos para a fase final será feita no dia 26 de fevereiro de 2017), após a avaliação de todos os poemas inscritos.
 
Artigo 3 – Dos 20 (vinte) poemas apresentados serão escolhidos e premiados os 3 (três) melhores e a melhor interpretação.  A premiação terá a seguinte ordem: 1º lugar R$1.000,00, 2º lugar R$700,00 e 3º lugar R$500,00. A melhor interpretação receberá o prêmio de R$500,00
 
Artigo 4 - Participarão da sessão de apresentação os autores que tiverem seus textos selecionados pela COMISSÃO JULGADORA. A audição dos poemas acontecerá no dia 21 de março de 2017, às 19hs, Centro de Criatividade Odylo Costa Filho, São Luís do Maranhão. Após a apresentação a COMISSÃO JULGADORA fará divulgação dos melhores poemas e a melhor interpretação.
 
Artigo 5 - A COMISSÃO JULGADORA será formada por 2 (dois) poetas atuantes no meio literário maranhense e 1 (um) ator atuante no meio teatral local.
 
Artigo 6 - Será obrigatória a apresentação dos poemas, que poderão ser interpretados pelos próprios autores ou por pessoas indicadas por eles.
 
                   Parágrafo primeiro: Os candidatos só poderão inscrever 1 (um) poema.
     
            Parágrafo segundo: Na ausência de indicação de intérprete, o poema poderá ser lido para garantir a validade da participação.

           Parágrafo terceiro: A interpretação dos poemas concorrentes não influenciará no julgamento do mérito literário dos mesmos.

            Parágrafo quarto: Os intérpretes poderão utilizar recursos audiovisuais, tais como: som, cenário, figurino, dentre outros.

               Parágrafo quinto: Concorrentes de municípios do interior do estado que não puderem estar presentes terão garantida a interpretação / leitura dos seus poemas.
 
 Artigo 7 - Os casos omissos a este regulamento serão avaliados pela COMISSÃO JULGADORA.
 
Artigo 8 – Os textos deverão ser enviados acompanhados de uma breve biografia do autor (5 linhas no máximo) para poeme.se@hotmail.com.
 
 
·        Qualquer dúvida: poeme.se@hotmail.com

8 de set. de 2016

Literatura Maranhense - Dez Grandes Poemas




CANÇÃO DO EXÍLIO

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,
Kennst du es wohl? - Dahin, dahin!
Möcht ich... ziehn.
— Goethe

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

(Gonçalves Dias)
Coimbra - Julho 1843.

MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N´alma e destróe cada illusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através a mascara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, comsigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisivel chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez, existe
Cuja ventura unica consiste,
Em parecer aos outros venturosa!

(Raimundo Correia)

TELA DO NORTE

No estirão, percutindo os chifres, a boiada
monótona desliza; ondulando, a poeira,
em fulvas espirais, cobre toda a chapada
em cujos poentes o sol põe uns tons de fogueira.

Baba de sede e muge a leva; triturada
sob as patas dos bois a relva toda cheira!
Boiando, corta o ar a mórbida toada
do guia que, de pé, palmilha à cabeceira...

Nos flancos da boiada, aos recurvos galões
as éguas, vão tocando a reses fugitivas
o vaqueiros, com o sol nas pontas dos ferrões...

E, do gado o tropel, com as asas derreadas
quase riscando o chão, que o sol calcina, esquivas,
arrancam coleando as emas assustadas...

(Maranhão Sobrinho)


PAISAGEM

Eis aqui um cão
e defronte um homem:
ambos o pão
da fome comem.
Olha o cão a vida
triste das pedras
(coitado do cão
que não pasta ervas)
e por fim já morde
o osso das trevas.

Olha a vida o homem
com saudade amarga.
Os olhos do homem
já não olham nada.
Só, em seus ouvidos
de carne fanada,
teimam os latidos
da morte e do nada.

(Bandeira Tribuzzi)
 
HOJE MANHÃ

Todo hoje tem amanhã, como o eu o objeto,
Tudo o que é será o seu futuro
A pedra o sangue o Iodo o lírio o afeto
flor humana que nasce de monturo

As estrelas brilhando em céu dileto
refervilhavam em caos prematuro
o irradiante clarão provém direto
da dor da fricção do ventre escuro

Sendo eu o que serei serei  já sendo
inelutavelmente condenado
a meu próprio amanhã e ao de tudo

então se cumpra logo o ciclo horrendo
sendo eu o meu porvir mas apagado
no vivo mar desafogado mudo

(Manoel Caetano Bandeira de Mello)

FLORES LUXEMBURGUESAS

     Não é, não e alegria,
         Nem é tristeza sombria
         Que sinto me atravessar.
         Grato, grato sentimento
         De um passado encantamento —
         Por toda parte a lembrar!

     Eram as roxas florestas,
         As sagradas sombras mestas
         Nossos berços da soidão:
         Se deles tendes as flores, —
         A saudade dos amores
         Em vós reconheço estão.

(Sousândrade)

PAISAGEM DE INVERNO

tédio das coisas pétreas e cinzentas
há pássaros morrendo de silêncio
por cima da tristeza dos telhados
o vento em ponto morto no ar parado
o frio cai com gosto de abandono
longe do mar amar turvado turvo
passa um menino carregando fome
o anjo da solidão assiste mudo
e de repente chora
está chovendo


(Viriato Gaspar)

VIVER É SE APROFUNDAR NA LOUCURA DOS OUTROS

Domingo é um dia tranqüilo,
dia da maçã morder o próprio ventre,
enquanto cabras venenosas me pastoreiam.

Subi uma montanha de pedras
e lá no alto, luz azul
incide sobre sonhos, e incendeia-me

Quase apaguei do meu nome
(farol, sentinela, carne viva)
o brilho de uma estrela vagabunda
que me faz rastejar tão perto dos esgotos.

Se as chuvas viessem (e se chovesse)
um olho brilharia ao sol e o outro
se banharia novamente em lágrimas.

(Raimundo Fontenele)

Ofício
Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
e dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio da minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
E depois ninguém sabe mesmo do espaço
que ocupo, desnecessário espaço de pernas
e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
o mundo restará o mesmo sem minha quota
de angústia e sem minha parcela de nada.

(Nauro Machado)

Cantada

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana
Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

 (Ferreira Gullar)

13 de fev. de 2016

Movimento Antroponáutica - Atitude e Ousadia Poética No Maranhão em Meio ao Regime Militar


Viriato Gaspar, Raimundo Fontenele, Chagas Val, Valdelino Cécio, L.A Cassas
Por Natan Castro

No inicio dos anos 1970 cinco jovens poetas maranhenses resolveram propor uma ruptura com a tradição poético/literária do estado. Já vivíamos a segunda metade do século XX e por aqui ainda eram perceptíveis traços do simbolismo e parnasianismo nas obras de poesias que eram lançadas. Os cinco propunham uma renovação urgente no fazer poético no Maranhão. Eram eles Viriato Gaspar, Raimundo Fontenele, Chagas Val, Valdelino Cécio e Luis Augusto Cassas, todos poetas genuínos que tinham como interesse maior renovar a poesia no Estado do Maranhão, rompendo com as antigas escolas literárias do Século XIX que tanto influenciaram as gerações passadas. Deles somente Raimundo Fontenele possuía um livro lançado. O nome do movimento é uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzzi,  Antroponáutica é o nome de um poema de sua autoria. O poeta inclusive era junto do grande Nauro Machado e José Chagas, os únicos da geração anterior que os Antroponautas enalteciam e citavam como influência.

Por volta de 1971 começaram os encontros num bar no Canto da Viração no centro de São Luís, as reuniões eram regadas a cerveja e muita discussão em torno dos caminhos futuros da poesia maranhense. A principio o primeiro passo era chamar a atenção da elite literária da capital, o que foi alcançado logo depois que nomes como João Mohana, Nascimento de Moraes, Arlete Nogueira, Jomar Moraes e Nauro Machado perceberam a chegada dessa nova leva de jovens poetas que buscavam mudanças no meio literário do Maranhão. O reconhecimento devido foi buscado ferrenhamente pelos cinco, quase não havia espaço para publicação de seus artigos e poemas, como muita luta começaram as publicações no Jornal do Dia (jornal comprado pelo Sarney que veio a se tornar o Estado do Maranhão), o Jornal do Maranhão (da Arquidiocese), que tinha um critico de cinema o José Frazão que também acolheu muito bem as novas ideias do pessoal.  Após tanto esforço, de fato o primeiro passo havia sido alcançado, os Antroponautas haviam sido reconhecidos como novos nomes da literatura maranhense. Logo em seguida saiu a famosa Antologia Poética do Movimento Antroponáutica e logo depois foram convidados a integrar um projeto da Fundação Cultural que publicou os cinco juntamente com outros novos poetas na Antologia Hora do Guarnicê.

O lançamento do livro Às Mãos do Dia  do Antroponauta Raimundo Fontelene

A seguir a narração detalhada do inusitado lançamento nas dependências da Biblioteca Pública Benedito Leite, pelo próprio Raimundo Fontenele, em entrevista dada a este que vos escreve.

Biblioteca Benedito Leite

R - Vocês sabem. A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, eventos, mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o Às Mãos do Dia, que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: a ditadura militar em todo o seu reinado e esplendor. Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente. E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a idéia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, loucos, os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro. Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar a cerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava de me dizer mais nada.  Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento,, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque nada mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura fomos até onde eu residia, pegamos um livro, e enquanto eu lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues. Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear. Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora, chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é.


O Maranhão desde Gonçalves Dias deu inicio a uma tradição literária que continua até os dias atuais, do Romantismo para cá apresentamos ao país e ao restante do mundo, uma quantidade satisfatória de grandes literatos, para não citar outros gêneros da arte. A geração da Antroponáutica que hoje nos parece quase esquecida pelos tais entes da cultura do Estado, possui um papel relevante, quando o assunto é a renovação dessa brilhante tradição. Os cinco jovens poetas buscaram espaço devido, sonharam com as mudanças e ao conseguir colocaram heroicamente seus nomes na história da arte e da cultura do Maranhão. Tudo isso num período onde a náusea artística era vista como algo peçonhento e altamente prejudicial ao poder estabelecido. 

20 de dez. de 2015

Nauro Machado, Hermética do simples



Li certa vez em algum lugar que Nauro Machado como grandioso poeta que era, tinha as ruas do centro histórico como principal via de inspiração para seus poemas. Passado algum tempo pude ver com meus próprios olhos o poeta em um desses seus momentos de pura epifania poética. Em uma das esquinas da Rua do Sol, sobre um sol a pino de um horário próximo ao meio dia, o poeta estava lá estacionado com sua camiseta branca, seu inseparável chapéu e sua pasta de mão preta olhando fixamente para uma fachada de um prédio antigo. Era uma imagem impressionante, aquele senhor que em nada se parecia com um turista ou um transeunte passante, ali absorto naquele instante meio paralisado na mesma posição, a mim parecia aquela atitude um misto de reverência e respeito com recebimento de alguma dádiva, alguma instrução de grande valia.

Não há duvidas que com a perda de Nauro recentemente, perdemos não só um de nossos maiores poetas, poeta inclusive de importância universal, reconhecimento que virá certamente nos próximos anos. A perda também foi de um típico Maranhense. Se lembrarmos os grandes vultos de nossa arte e cultura, quando tão logo despontaram, tiveram como destino terras além de nossas águas. Nauro Machado até esteve por lá, mas retornou e por aqui se debruçou sobre os mistérios de nosso chão para assim realizar uma das obras mais profícuas e sublimes da poesia nacional.

Nos últimos anos de vida foram várias as homenagens, em eventos, filme e documentário, artigos e diversos estudos sobre sua obra. Nauro Machado certa vez comentou que jamais buscou algum tipo de fama e reconhecimento, acredito que ainda que o poeta tivesse ensaiado uma postura nessa direção, era indubitável que sua obra se sobressairia, que seus poemas seriam reconhecidos, que seu intento de vida seriam assunto de diversos debates em meios literários. A pulgência de seus versos junto a figura do Maranhense típico, por si só foram sim responsáveis pelo respeito que muitos de nós temos por esse grande poeta.


O genial poeta sempre teve a certeza da importância dos seus versos, desde seu primeiro rebento literário. E acredito que nos seus momentos mais íntimos, devia achar graça de diversos artigos escritos na tentativa de traduzir sua aventura poética que durou uma vida inteira. Fico imaginando como deveria se divertir com tantas linhas desencontradas, repletas de tanto esforço buscando revelar o segredo de tamanha genialidade literária. No entanto tal empreitada se tornou algo quase impossível, pois até os dias atuais ninguém conseguiu enquadrar sua poesia dentro de sistema algum. Nauro Machado desde cedo percebeu que para forjar um canto tão elevado como foi o seu, deveria ficar e se espalhar e se envolver com a tradição poética encantada de nossa terra. E foi o que aconteceu o poeta cantou nossas belezas, nossas tragédias, nossos antagonismos e nosso povo como nenhum outro poeta daqui. Como um antropólogo fez dessa pesquisa uma missão de vida, e transformou em exuberantes poesias o encanto peculiar de nossos ares, de nossa gente e de nosso chão.


Natanael Castro, Editor

17 de dez. de 2015

Nauro Machado - Pequena Ode a Tróia




Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

Nauro Machado (Poeta Maranhense)