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23 de dez. de 2018

FOLHETIM DA SEMANA (ESPECIAL DE NATAL)


      Voltamos com o nosso FOLHETIM DA SEMANA do nosso blog  LITERATURA LIMITE (acesse-o no link www.literaturalimite.blogspot.com.br), um especial de Natal, muito embora os temas aqui sejam variados e não especificamente sobre o Natal. Desta data temos somente um soneto do mestre da prosa brasileira e universal Machado de Assis, cujo verso final desse soneto reflete um pouco do que muitos pensam sobre a data cristã. Para muitos uma festa quase pagã, de troca de presentes, comida e bebida. Não são muitos os que pensam no Natal como uma festa da simplicidade e da humilde, as criança nascendo numa manjedoura,e que viria a ser aclamado como o Messias, o enviado,  o Salvador dos pecados do mundo.
         Em seguida, apresento ao meus amigos, e público em geral, amante da literatura e da arte, o escritor gaúcho Artur Madruga, um amigo desde os anos 80, com artigo de intensa profundidade crítica, além de algumas notas biográficas deste autor que voltará outras vezes a colaborar com nosso blog.
       E encerramos este FOLHETIM DA SEMANA com três novos poemas do meu último livro escrito de poesias, ainda inédito, DIURNIDADE O LIVRO DAS COISAS. São poemas que chamei de Salmos, na esperança que este papa Chiquinho, mezzo comunista e mezzo globalista pro meu gosto, ache um lugarzinho de honra pra eles na Bíblia Sagrada, quem sabe entre Davi e Salomão, (claro que quem me conhece sabe que isto é mais uma gozação do Fonteca, esse meu alter ego*)
(*) Expressão em latim cujo significado é outro (alter) e eu (ego), ou seja “o outro eu”.
         Bora lá?
SONETO DE NATAL

Machado de Assis
Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”



Artur Madruga nasceu em Porto Alegre, RS, no bairro Bom Fim. Formado em Pedagogia pela UFRGS, cursou magistério no Isabel de Espanha, Pluridisciplinaridade na FAETA e Pós Graduado em Arte Educação pela Uniasselvi.
Ganhou o Prêmio Revelação Literária em 1978, Habitasul/Instituto Estadual do Livro/Caldas Júnior, na categoria contos. Em 1980 foi menção honrosa do Prêmio Guilhermino Nasceu César, da Universidade de Ijuí, e em 1981 ganhou Menção Honrosa do Prêmio Fernando Chinaglia, da Associação Brasileira de Escritores, Órgão da Academia Brasileira de Letras, com o livro de contos A Cor do Gesto.
Em 20015, foi publicado em 4 revistas Entreverbo, de Canoas, através de 4 poemas selecionados. Publicou, pela SDC Publicações, a trilogia infantil A Formiguinha Skatista, A Formiguinha Grafiteira e A Formiguinha Inventora.
Em 86, publicou os livros Tiremos a Sorte e Dyonélio Machado, para a coleção Esses Gaúchos, RBS/ Tchê!, em homenagem ao Sesquicentenário da Revolução Farroupilha. A Tchê! fechou e esses livros se encontram à venda na Editora Rigel.
Fez oficina de Crônicas na Faculdade Católica de Medicina e escreve semanalmente uma coluna sobre cultura no jornal O Alvoradense. É professor municipal em Alvorada e professor na rede Estadual do RS.

Artur Madruga autografa (21/12/18)

DO VÁCUO LITERÁRIO
Artur Madruga
         Se o que consideramos literatura não provocar - em suas vagas e parágrafos - uma necessidade, mesmo que fugas, de algo que provoque o nosso sentido crítico. Se ao passarmos os olhos sobre essas mesmas vagas e parágrafos, ou quando virarmos uma página e/ou fecharmos um livro e olharmos ao nosso redor, escudados pelo criticismo dos ataques advindos do senso comum. Se tivermos que manter os olhos bem abertos e estabelecermos certa distância considerável, então, provavelmente, não sucumbirmos às suas facilidades e comodismos.
         O perigo do texto inerte se acentua pelo fato de o mesmo não percorrer novos espaços, linguagens, contrastes, valores e vínculos que, seguramente, comporão uma relação nova entre as tomadas de posições, contrárias a um provável vácuo literário, por assim dizer, que talvez tenha propiciado atuações possíveis e distintas.
         Não podemos esquecer que a crítica é nada mais do que uma reflexão que avalia os pontos fracos e fortes sobre determinada visão em relação a alguma situação ou questão. Ou, se preferirmos, o outro viés cavoucado naquilo que podemos enquadrar como tema.
         Esses referenciais avaliativos certamente acabam por fragmentar os eventos que o originam. Por essa via poderemos produzir e reproduzir, em sua essência, os pontos sob os quais se sustentam as bases que formulam os apontamentos da crítica em si e sua necessidade. E, nesse sentido, é importante sabermos que ela significa isso, essa discussão e análise. Se a crítica é positiva ou negativa, são outros quinhentos (como dizia a minha avó), se quisermos tornar mais leve e gustativo esse processo.
         O fato em questão é: o que de revolucionário a literatura pode proporcionar ao indivíduo ou, em sua instância maior, ao coletivo? Como e quando textos ou livros conseguem proporcionar à história da humanidade conteúdos para que possamos conceituar os fatos que possam preencher o vácuo literário naquilo que foi denominado, originalmente, de transformador?
         Se portadora de conteúdos que revelam o vácuo existente ou a discussão calorosa de sua originalidade, a questão literária dependerá não só do próprio texto no qual se revela como da escala de valores de quem o lê. E isso é tão simples quanto óbvio.


RAIMUNDO FONTENELE APRESENTA
3 POEMAS DO SEU LIVRO INÉDITO DIURNIDADE O LIVRO DAS COISAS: 
SALMO DE DAVI PARA SI MESMO

Não sentirei opróbrio nem vergonha
de pedir ao Senhor
que me aparte da angústia e dos lamentos.

Afastei-me e fugi das glórias desse mundo
tentando ser feliz como os passarinhos
que com alegria cantam e louvam o Criador.

Não poderei mais andar nas fendas do abismo
e meus passos não me levem
onde caminham as feras.

Todo ódio temerei pois os meus inimigos
avançam como cães para devorar-me
e pequeno como sou só o Senhor me salva.

O que fiz no passado e os erros presentes
são correntes que me arrastam
para além das minhas forças.

É ao Senhor que recorro quando fraquejo
e meus pés pesam como chumbo
quando no pântano afundo.

Outras veredas existem onde estarei perdido
por mãos torpes e infiéis
que ali, sem piedade alguma, me largaram.

Nem ave do céu, nem nave da terra
me socorreram nos tempos de infortúnio,
nem me levaram a voar entre as estrelas.

No chão estava e no chão permaneci:
apenas meu pensamento se elevava
e em meios a soluços chegava ao Senhor.

E o meu Deus viu que meu clamor
só trazia verdades, mesmos as mais dolorosas,
e por sua vontade levantou-me das cinzas.

“Agora, luta!”, sentenciou Ele
e me tornou mais forte que o mais forte
e bravio dos animais terrestres.

E preparei-me para uma guerra
contra mim mesmo, que era travada
em meio às batalhas e às fadigas do dia.

Ele tornou-me único para que, sem vaidades,
alcançasse as alturas que buscava
e me tornasse um servo abençoado.


SALMO A SALOMÃO

“O mundo a seus pés” era um imenso,
exorbitante desejo e orgulho.
Todos um dia serão tentados
por essa moda e luxo
que se tornarão luxúria e perdição.

Plumas, ouro, diamantes,
tudo que faísca e ofusca os nossos olhos,
a prata fina e o brilhante dos ossos
que nos fazem cair de joelhos,
essas coisas pesam, e como pesam.

E as mulheres. Ah, as mulheres.
Todas juntas, com seus sextos
e até os nove sentidos,
preparadas para embriagar-nos de prazer,
e embriagá-lo, e embriagar-me.

Mas, com sabedoria, foi juntando as pedras
mais preciosas e tábuas das leis mais severas,
mais duras, mas também as mais justas,
desde quando jovem príncipe
até às calendas de um velho e sábio rei.

Reinar e resignar-se.
Reinar e governar tesouros.
Reinar e satisfazer a todos.
Reinar e proferir sentenças
caídas do mais altíssimo dos tronos.

Tudo isso porque o Deus menos vingativo
permaneceu entre os homens,
qual uma espada de luz
que sabe separar o joio do trigo,
porque, reconheço, é o Senhor dos Senhores.


SALMO DAS OLIVEIRAS

“Pueri hebræorum,
portantes ramos olivarum,
obviaverunt Domino,
clamantes et dicentes:
Hosanna in excelsis”.

Também entrei na cidade aberta,
no meu jumentinho,
portando ramos e palmas nascidos do coração,
em uma manhã chuvosa,
quando o vento úmido balançava
as verdes folhas das palmeiras.

Ao Senhor, todo o meu ser de inocente criança,
sem o pecado da culpa, clamava
para que me desse veredas de salvação,
e me desse alegria, e as horas amargas
deixasse para outros dias
para quando eu crescesse e fosse gente.

Naquele tempo, não. Eu era só um menino
entrando naquela terra estranha,
onde as coisas se moviam diferentes
e invisíveis mãos, a de Deus e a do destino,
semeavam em mim seus grãos e mistérios.
E eu cantava e vivia a toa.

Sim. Entrei naquela cidade
para ouvir e cantar lamentos
no diário aprendizado
de que vigiar e orar é para todo o sempre.
Deus não é um estranho no nosso ninho,
nós é que fugimos, aves de asas tortas.

Que aprendizado diário?
Dar com a mão direita e com a esquerda
furtar o fruto alheio.
Cuspir na face de quem afagou com doçura
os nossos longos cabelos.
Profanar e zombar de quem é nosso alimento.

Sal da terra!, salgas a minha vida
e as chagas que se abrem
são como dias de luta e suor que não findam.
São noites eternas e escuras,
noites para cegos,
noites de nunca mais.

Pregado numa cruz, ouvi o galo cantar
às 16:58hs, e cantou uma, duas, três vezes,
o suor escorria do meu rosto
como se fosse um banho de sangue,
aí arrancaram-me da cruz
e me deitaram no cimento frio.

Todos meus ossos tremiam.
Todos meus nervos inquietavam-se.
Todo meu corpo enrijecia.
Ouvia ao longe os cânticos da sagração
que animavam a minha vida
e me ressuscitavam entre os mortos.

Todos os meus sentidos embotados.
Toda a cupidez da carne tremia.
Todos os meus órgãos latejavam.
Mas a quietude e a paz do teu sacrário,
a pureza e mansidão do teu nome, Senhor,
extinguiam a sombra entre meu olhar e tua luz.

Eu, um Raimundo perdido nesse mundo.
Eu, um Nonato, só por teu merecimento.
Eu, um Fontenele, que tornaste fonte.
E um Oliveira, qual um ferreiro
fundindo o ferro, que abraça sua profissão
no fogo e na poesia que vem do chão.

Hosana a São Domingos
e a outras cidades dos mapas,
que me acolheram e de onde fui expulso
para se cumprir de Adão e Eva a profecia:
se houve queda e se desci ao inferno
talvez possa voltar um dia ao paraíso.

“Os filhos dos hebreus,
portando ramos de oliveira,
clamavam dizendo:
bendito o que vem
em nome do Senhor,
Hosana nas alturas”.

Texto final:
Raimundo Fontenele