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15 de abr. de 2019

FOLHETIM APRESENTA "O TROGLODITA"



             Mais um FOLHETIM DA SEMANA do nosso blog  LITERATURA LIMITE (acesse-o no link www.literaturalimite.blogspot.com.br), hoje divulgamos alguns poemas do nosso livro O TROGLODITA, publicado em 2012 pela Editora Alcance, de Porto Alegre, RS.
         Além dos poemas e fotos, o texto de apresentação da autoria do escritor gaúcho Juremir Machado da Silva, e um texto de minha autoria que compõe uma das orelhas do livro também estão aqui.

A P R E S E N T A Ç Ã O

         A poesia de Raimundo Fontenele é surpreendente: tem cheiro de maldição. Vai direto ao ponto. Não poupa nem se poupa. É uma crônica ferina dos tempos que, quando não correm, voam. Há pressa em levar vantagem em tudo. O poeta fala da vida, da merda, das sacanagens, da política e dos seus ladrões. É pau puro. O poeta é nordestino.
         O Nordeste é pátria da poesia. Tem lirismo nessa leitura amarga do cotidiano. Está tudo ali: a estrela de cinema, o herói da televisão, o personagem da história em quadrinhos, o corrupto,  a puta, o doente na fila do SUS, o Mané diante do PAC, as promessas terrenas e as teorias da salvação.Tudo num ritmo frenético, carnavalesco, carnavalizado, barroco, eclético, profético, devastador.  
Juremir Machado da Silva
Escritor gaúcho



                           PORQUE ME UFANO DO MEU PAÍS

         O poeta deve estar afinado como seu tempo. Toque ele seja qual for o instrumento: harpa, lira, atabaque, bongô, viola paraguaia, guitarra flamenca, baixo elétrico, picape, serra elétrica. Para um ouvido como o do Hermeto Paschoal tudo é música. Aliás, pra ele, o mundo é tão someente uma nota musical. Fim de século, tudo em ruínas: os bons costumes, a língua, os políticos, a moral dos gestores públicos, a cegueira mal intencionada da justiça e de seus asseclas, tudo em ruínas, meu triste e desalentado poeta.
         O novo século, o XXI, pra valer, nem começou ainda. Estamos discutindo uma educação completamente falida. Vivemos nos escondendo, amedrontados, pagando por uma segurança que não existe. A saúde do povo, tenham dó, ó sucessivos ministros e secretários!
         É como se todo esforço, toda a luta, todas as conquistas da humanidade inteira e ao longo de todo o tempo que existe estivesse agora escapando de nossas mãos. Por que não sabemos o que fazer com elas? Por ganância? Por falta, mesmo, de juízo?
         Aonde a gente pensa que vai parar, sentados nesse carrossel eletrônico, cujos cavalos do apocalipse se soltaram e estão pastando por aí, às margens do Guaíba, da Lagoa Rodrigo de Freitas, do Tietê, do Amazonas, do Mearim, do Solimões; do Sena, do Danúbio, do Eufrates, do rio Nilo, do Lago Ness?
         A vida não pode ser só esta palhaçada que fazemos dela,  Tirando as cascas, as peles, quem sabe, a epiderme, talvez exista ainda alguma coisa de muito nobre entre nós e que nos impeça de roubar o dinheiro da merenda escolar de jovens e crianças que, muitas vezes, nem têm o que comer, ouviram senhores prefeitos e senhoras primeiras damas?
Raimundo Fontenele



VARIAÇÕES SOBRE O VIL METAL

Ó!, OAB,
como é que pode alguns de seus membros
estarem a serviço de Marcolas e Beira-Mares
(guias nunca dantes navegados)
e não me guia
nem me vem com esse papo furado de cidadania
que aqui ninguém é trouxa
e está todo mundo armado de tacape e pau pesado.

Partidos políticos
políticos partidos
partidos em pares desiguais para a saúde do povo
partidos iguais para comerem o nosso mingau
au au Juiz Lalau.

Ó conchas curvas e recurvas
que guardais em vossos ventres
sacrossantos e imundos
as não-leis e toda espécie de fauna e faunos
ó nobilíssimos senadores!
ó ilustríssimos deputados!

Palácio do Planalto
plano e alto onde se bolam altos planos
para roubarem o nosso suado dinheirinho
em nome dessa coisa sagrada chamada Constituição:
a de 1988, Anã e Cidadã.

E as Igrejas
onde te ajoelhas
e reviras os bolsos e os olhinhos?
Bendito sejas tu,
Mané,
com teu bonezinho.

POLITICAMENTE INCORRETO

Anão é anão, e pronto.
Preto é negro e negro é preto,
e preto é preto e negro é negro,
doeu em alguém falar isso?

Careca é careca mesmo, pouca telha,
aeroporto de mosquito,
e sodam-se com ph de farmácia.
O cara que tem barriga é barrigudo,
baleia, balofo, rolha de poço, é ou não é?

E o cara alto e magro é magrelo,
magricela, vara de virar tripa,
espanador do céu, está fazendo concurso
pra entrar numa garrafa
e pra passar a chuva embaixo de fio,
“é mentira, Terta?”

Baixinho é anão de jardim,
tamborete, pintor de rodapé.
Viado é viado mesmo,
gay, bicha louca, qualira e tal;   
e ladrão de gravata é ladrão igual,
é safado e marginal,
senão o poema
não sai assim
ao natural.

NO DOS OUTROS É REFRESCO

Quando a gente procura com urgência por saúde
Quando se vai atrás de algum direito lesado
Quando alguém sai em busca de educação,
cultura, lazer, conhecimento
Quando se nutre a esperança nesta deusa cega
dos três olhos chamada Justiça
Quando o medo de assalto, de morte, de seqüestro
não nos deixa viver em paz
Quando se vai ao Sr. Dr. Governo cobrar o nosso dinheiro
Em forma dos serviços ali de cima que deviam ser prestados
Dinheiro que o Governo nos toma em forma de impostos
Dinheiro que o Governo nos toma para dar
pra seus cupinchas e apadrinhados
Dinheiro que o Governo arranca da gente
pra jogar no ralo da corrupção
Dinheiro nosso que o Governo gasta
com o luxo e a ostentação nos seus palácios
Enfim só nos resta a volta à infância e cantar
como fazem as criancinhas:
“Fui no tororó beber água não achei...”

O RAPA

O mundo podia ser mais alegre,
mas os caras chegam carregando armas
e mochilas de sangue.
Mil vezes eles te matam de todas as maneiras,
com revólver e com punhal,
com remédio e comida,
mil vezes eles te matam de todas as formas,
com narcótico e filosofia,
com religião e poesia.

Marcho igual a esses soldados
espalhados pela terra,
e, apesar de estar
neste minúsculo corpo que me habita,
sinto-me pisar em campo minado,
sei que também estou no meio de uma guerra.

Talvez esperassem me ver cortar os pulsos,
ou que pulasse do vigésimo andar
e caísse en la mierda
mas eu vou viver queiram ou não queiram.


UM RAP PARA OS MANOS

Você acorda de porres homéricos,
nem sabe o que fazer para curar tal ressaca
e aí engole chá de boldo, engovs, sal de frutas.
Recebe cobrador na porta, chute nos testículos,
e a safada da tua mulher te enfeita
“os cornos de chifres”.
A polícia te persegue, bandidos querem te ferrar,
o juiz te condena, os amigos te abandonam
e você vai apodrecer num hospital do SUS ou no xadrez,
e ainda bem que você não foi parar no IML.
Por isto, camarada,
Gosto da velocidade da máquina,
da sorte e do azar num jogo de dados.
Falo pelos cotovelos,
Dou murro em ponta de faca,
Saio de fininho quando a barra anda pesada,
E levo moeda de falso ouro para enganar Caronte
Sempre que faço essa travessia do inferno.

POEMA UM DE SEIS

Os anos oitenta acabaram comigo:
os lobões, os cazuzas, o álcool
e era terrível suportar aquelas tardes
derrubado pela Deusa Diamba
e otras cositas más.

Os sons românticos e os sentimentos bregas
de rosanas,  josésaugustos e mais álcool
tudo isto misturado aos ticos-ticos no fubá,
a vida bolorenta e com ascos,
mas com vicentescelestinos e dalvasdeoliveiras,
e viva os anos quarenta, cinqüenta, sessenta,
setenta, oitenta e noventa.

Hoje não. Nos anos dois mil não.
Hoje sou um ressuscitado, virgem,
bebendo chás de eucalipto e menta,
ajoelhando-me nos altares
a deuses conhecidos e estranhos;
mentindo que sou poeta e que,
nas horas vagas,
vivo de acordo com o que sonho e escrevo.

POEMA DOIS DE SEIS

Aquela rosa vermelha,
cintilando no jardim,   
abre meu coração e os livros.

E os olhos. Os mesmos olhos de 1948.
“Teu amor é a razão da minha existência”...
Não se diz mais isso.
Não se ama mais nada.

Parece que aquela rosa, tão bela!,
está fadada a fenecer
sufocada por espinhos.

ESTRELAS

teus olhos piscaram
antes delas
e o céu não precisou de ti
para seres anjo
nem precisaste do céu
para não caíres
ou sucumbires
naquilo que talvez
nem seja eterno