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6 de ago. de 2020

O ANTROPONAUTA VIRIATO GASPAR

O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) chegam nesta primeira semana de agosto com mais uma matéria para se inscrever nas páginas da atual literatura maranhense.

         Correndo o risco de tornar-me um blogueiro bissexto (bissexto porque tem sido um parto difícil parir uma postagem) fui à cata de alguma coisa essencialmente nova em termos de poesia e acabei chegando ao refúgio deste meu grande irmão e amigo Viriato Gaspar, o poeta tão essencial ao Movimento Antroponáutico quanto os outros 4 que lhe fizeram companhia: Cassas, Chagas Val, Valdelino Cédio e este escriba menor.

         Escrevo isso porque tomei conhecimento de que alguém cujo nome me escapa referiu-se a nós como a geração de Luís Augusto Cassas. É um tremendo erro, engano ou..., deixa pra lá, o próprio Cassas, de quem conheço a humildade humana e a honestidade intelectual refutaria tal assertiva.

A nossa geração é a GERAÇÃO ANTROPONÁUTICA da qual todos nos orgulhamos. Nós afundamos navios de cascos avariados, detonamos velhas pontes de madeira a quem o cupim destroçava, e os grandes nomes da literatura maranhense naquele momento, Nauro, Zé Chagas, Arlete, Jomar, Nascimento de Moraes, Bandeira Tribuzi, Carlos Cunha, Domingos Vieira Filho, Alberico Carneiro e outros nos reconheceram os méritos e nos fizeram as honrarias merecidas, publicando 2 antologias e estendo um imaginário tapete voador por onde desfilamos a nossa tola vaidade juvenil. 

Portanto, o Soco no Muro nesse blog de hoje é o poeta Viriato quem dá.

Poeta Viriato Gaspar

CONVITE

Dancemos.

Agora,

Quando a noite se espicha pelos dias

E as trevas se enredam em cada alma,

Dancemos.

Dancemos,

Agora,

Quando o abraço se tornou uma ameaça

E o beijo é quase uma condenação à morte,

Dancemos.

Mais que nunca,

Dancemos.

Dancemos na varanda, no quintal,

No banheiro, no quarto, na cozinha,

No deserto de cada um preso em sua casa,

Contra o vírus do medo que avança sobre nós,

Dancemos!

E cantemos.

Agora,

Quando há ódios espumando nas esquinas

E mãos que fazem gestos nos matando,

E há tanta raiva vindo pelas telas,

Tecendo teias em cada celular e coração,

Cantemos.

Sim, cantemos!

Mais que nunca,

Cantemos.

Até que o sol acorde e chame a aurora

E possamos entregar nas mãos de nossos filhos

Um mundo que consiga se abraçar

E transmutar em canto, em dança e riso

A dor que desabou em nossos dias

E colocou ferrolhos em nossos gestos,

E pôs medo em nossos braços e sorrisos

E nos distanciou do que já foi nosso melhor:

- O (n)osso humano.

- O Hermano.

Este é o que podemos chamar poema sobre fatos concretos, aí, sim, um poema verdadeiramente concreto, mas nada daquela estética que se chamou concretismo subsiste aqui. Na verdade o concretismo pouco deixou de concreto, em alguns casos soou como um verdadeiro engano, e momentos há em que nada mais abstrato do que muitos dos tais poemas concretos.

E ao iniciar seu poema convidando-nos para a dança, convite repetido outras vezes durante o desenvolver do poema, noto naquilo que está implícito no poema e que é sua grande força, a insuspeitada metáfora invisível, que na verdade é uma dança dos desesperados em meio a um caos, não esqueçam, programada por mãos humanas e tiranas.

Por isso, o poeta Viriato nos convida para a última dança, o último canto, uma vez que todas as outras manifestações foram suprimidas do encontro e do calor humano: o abraço forte e o beijo sincero entre irmãos, amigos, namorados, noivos, casais, companheiros.

É como se o poeta repetisse Jesus com outras e novas palavras: Pai, afasta de mim esse vírus. E não é esse bichinho chinês, é um outro maior, do qual esse corona é apenas um filhote ou uma pequena larva: é o vírus que veio das trevas e das regiões mais sombrias e diabólicas da mente do homem.

DIZER-TE

Repara:

A palavra que dizes

não é a coisa dita.

A pedra nunca é a

própria dita,

pedaço de rocha, sílica,

duramente petra,

nunca rosa.

O sol que encharca o céu

de quanto dizes

inunda de ouros velhos

de outros trigos

a lâmina que ocultas

no que falas:

- quintal de cicatrizes.

A pedra de que falas

voa, plana, pluma,

flama.

Aquece o coração de quem a

chama.

Sempre quando nos arvoramos em crítico ou ensaísta de uma grande arte, como sói acontecer com a poesia de Viriato Gaspar, geralmente nos tornamos menor do que já somos. E por isso costumamos chegar usando uma bengala metonímica na qual nos apoiamos, para, em se caindo, não cairmos sozinhos.

Dei de cara logo com uma semelhança: o uso das palavras pedra e pluma neste poema remeteram-me direto para João Cabral de Melo Neto. Mas não foi só isso. A concisão da fala e dos versos, a dureza metafórica que imprime à linguagem no seu canto mais puro, mais lapidado, mais carregado de múltiplos significados faz deste poema do Viriato irmão dos melhores do poeta pernambucano.

Mas é só isso: “O sol que encharca o céu / de quanto dizes / inunda de ouros velhos / de outros trigos / a lâmina que ocultas / no que falas: / - quintal de cicatrizes.”, embora João Cabral assinasse embaixo, é a quinta essência da excelência formal e conteudística que Viriato imprime em sua arte. Sempre foi assim. Um poeta que amadureceu no duro aprendizado da pedra e que chega à maturidade poética com a leveza da pluma que nos encanta.

MUSEU DE ASSOMBROS

Chegou-me o tempo de chorar por tudo.

Olhar pra trás, doendo as mãos vazias.

Gastar os olhos contra o umbreu dos dias.

Rilhar os dentes, lagrimundo escuros.

Sempre em tudo que amei nada foi cheio.

Houve sempre uma nuvem, um pé de vento,

Um fosco, uma voragem, um de entremeio,

Uma casca entre o fora e o meu mais dentro.

Eis-me chegado ao tempo dos remorsos.

O longo correr-dor dos sonhos mortos,

O re-moer dos rasgos e dos cortes.

Um velho é um mar que foi, e hoje é deserto.

Palpar nas sombras, cada vez mais perto,

O caminhar sutil da Dona Morte.

Não há desespero, nem saudade, nem remorso. Embora fale em remorso, não é um remorso a quem a culpa condena. Aqui Viriato Gaspar pode nadar de braçada numa praia que domina e da qual é um dos melhores do Brasil, o soneto.

“Nada foi cheio”, “um fosco”, “um pé de vento”, “uma voragem”, pois o poeta sempre soube por intuição desde a tenra infância e em sua juventude pelo fazer poético que a vida seria assim mesmo: essa incompletude que o amor humano preenche pela metade. Embora seja a meta de uma vida inteira, o poeta sabe e poderia e diz como outras palavras, ninguém é pleno. Plena é a vida, mas a vida é além do que é humano e por sermos apenas humanos jamais poderemos alcançá-las: a vida e a plenitude.

Cumprir uma sina, realizar um projeto, é isso o que resta. E o nosso amigo Viriato Gaspar cumpre e realiza, não apenas este, mas sonetos e mais sonetos que o fazem ombrear-se com que há de melhor na língua portuguesa, neste mister que é a poesia, esta sim, plena e completa.

A FLOR SEM ASAS

Pensar em ti clareia as minhas sombras,

esparrama quintais pelos meus cílios.

Pensar em ti é resgatar um filho,

dado por morto, ao fundo dos escombros.

Pensar em ti às vezes é uma corda,

que vai puxar-me lá, onde esmoreço.

E se me amarga o azul, é o que me acorda

e me molha de um sol que nem mereço.

Teu nome é como chamo o que me aquece,

como digo luar quando escurece,

e consigo voar quando é só lastro.

O que é belo no mundo traz teu rastro.

Todo bem que consigo, e é diminuto,

fala de ti, é a sombra do teu vulto.

Neste belo soneto A FLOR SEM ASAS, cujo título por si só é um enigmático achado poético, o poeta Viriato Gaspar não esconde a condição humana de buscar constantemente o amor no e do outro. Invoca e chama e se desnuda ao revelar quanta dor se apaziguaria, como seria nutrido de uma nova força que tem o poder de fazer com que do sentimento humano e material brote uma metáfora de tal beleza e que é esta “que me acorda e me molha de um sol que nem mereço”.

Luzidio, brilhante, escorregadio o poeta segue a senda e a sina dos grandes poetas, quanto mais dor, mais amor, quanto mais ausência mais poemas que nos fazem acreditar no renascimento e na cura.

Evoé, Baco, habemos Poeta!

Poemas de VIRIATO GASPAR

Comentários de Raimundo Fontenele

 


13 de nov. de 2018

PEQUENO DICIONÁRIO DE MULHERES


         Voltamos com o nosso FOLHETIM DA SEMANA do nosso blog  LITERATURA LIMITE (acesse-o no link www.literaturalimite.blogspot.com.br), voltado para assuntos da atualidade sem deixar de lado uma pitada de bom humor, ironia, sarcasmo e uma boa dose de literatura.

GOZADAS DO FONTECA

    EU VIVI PRA VER ISSO?
Univ. Federal do PR - tráfico de drogas e sexo na escadaria
          Pode não ter relevância pra ninguém. Tô nem aí. Importante é que vivi pra ver isso. O PT ajoelhado e de bunda de fora. Mesmo que não perca arrogância, a relevância, a élégance.
         A Arrogância: grande parte do núcleo duro do PT é oriundo daqueles movimentos pré e pós 64, e a gente pode citar Zé Dirceu, Pimentel, Genuíno, Dilma e muitos outros que encontraram em Lula, a liderança operária que juntaria, na visão deles, a classe média e a classe operária, num projeto de poder comuno-sindicalista, que iria levá-los ao paraíso. E isso aconteceu. E arrogância virou soberba. E juntou mais gente: a Gleisi, o Lindenberg (argh!), chega...
         A Relevância. Lula no poder enganou até o Diabo. Estabilidade econômica, inflação sob controle, meteu os pés pelo dedo que falta. Política social que incluiu bolsas: família, ditadura, presidiário, índio, e cotas pra tudo. E dinheiro distribuído a rodo para banqueiros, empresários, sindicatos e ONGs. Muitas ONgs. E pras ditaduras cubana, venezuelana, e africanas, e dinheiro pra enriquecer filhos e amigos. E laranjas às pencas. Só na mão de laranjas nos paraísos fiscais são mais de, pasmem!, 50 BILHÕES DE DÓLARES. EU DISSE 50 BILHÕES. CONVERTAM PRA REAL E CAIAM DE COSTAS!  A derrocada não começou com a Dilma e sim com o Lula. A Dilma foi o poste abestado que o Lula usou para tentar limpar seu nome, hoje mais sujo do que pau de galinheiro.
         A Élégance: Não, a décadence. Presos, condenados, processados. Alguns soltos com a conivência de ministros do Supremo. Perderam feio nas urnas. Com a grande mídia toda a seu favor, com muito dinheiro do Fundão e do Petrolão, com os dois maiores institutos de pesquisa jogando junto, com uma porrada de casos suspeitos de fraude eleitoral em inúmeras urnas e o TSE mais surdo, mudo e cego do que os três macaquinhos. Foi uma lavagem de cerca de 67 ou mais por cento. No abafa da malandragem e roubalheira geral, que são a característica mais marcante da política brasileira nas últimas décadas, se convencionou que foi de 55,13% a vitória do é melhor JAIR se acostumando.
         E agora, PT? Voltem às ruas com o Lula Livre, É Gorpi, Resistência e o escambau. Cuidado com a tomatada e os ovos podres!


QUEER MUSEU, ORA MEU, VAI DAR O TEU

         Como no Eclesiastes e Shakespeare, não há nada de novo sob o sol. Portanto, o que temos aqui são novas nomenclaturas para as coisas há muito existentes. Assim é com toda essa parafernália linguística que a Esquerda e o Globalismo, de mãos dadas como dois gays ou duas lésbicas,  usam: LGBTQIO+, ideologia de gênero, QUEER MUSEU. No fundo tudo isso é apenas sinônimo da antiga e “boa” (para eles) sacanagem ou putaria, como queiram.
         O QUEER MUSEU nada mais é que exposições artísticas com uma temática específica e um objetivo ideológico definido. Não é a Arte pela Arte. Não. É uma arte panfletária cuja característica aponta para duas vertentes: sexo e religião. Com o sexo procuram alargar as fronteiras do socialmente permitido, catalogando-se aí várias formas de taras e perversões, entre as quais destacam-se: pedofilia, zoofilia e incesto. Na religião trata-se de profanar símbolos sagrados, objetos de culto, valores cristãos e morais conservados a século.
         Portanto o objetivo é um só: elimina-se as religiões e seus dogmas e tabus e enfraquece-se assim as bases (religiosas, filosóficas, morais) que são o sustentáculo da família tradicional, uma das forças responsáveis pela propriedade privada que a Esquerda e o Globalismo procuram destruir.
         Então é furada essa discussão se o apresentado pelo QUEER MUSEU é ou não Arte. É Arte sim. Arte panfletária, bom e mau gosto não habitam o universo da crítica de arte, gostem ou não, mas é uma arte tão panfletária como toda arte usada pelos sistemas totalitários, seja o nazismo alemão, o fascismo italiano ou o comunismo russo com seus derivados. Entre nós vicejou o integralismo do Dr. Plínio Salgado e o comunismo do Luís Carlos Prestes.
         Mas essas exposições do QUEER MUSEU devem estar sujeitas a normas legais vigentes nos países em que são mostradas, com censura classificatória de idade e, se algumas obras dessa arte pregam o incêndio de igrejas, os cristãos e religiosos atingidos podem também ter a liberdade de exigir e pregar o incêndio dessas exposições.  Senão, essa liberdade e democracia tão apregoadas por todos não passam de uma grande hipocrisia.
         Esse, pois, o objetivo político: a destruição da religião e da família.
         Interessa-lhes, pois, uma sociedade mundial composta absolutamente apenas por escravos na qual, claro, eles serão os únicos senhores e patrões.

ESCOLA SEM OU COM PARTIDOS

         Taí. É aqui que a porca torce o rabo. O que existe na verdade é o aparelhamento das escolas e universidades por professores militantes de partidos de esquerda, cujos expoentes são PT, PCdoB e PSOL.
         Nos perdemos numa discussão tosca e acirrada há vários anos, em vários locais escolares e casas legislativas, gastando o dinheiro dos nossos impostos com despesas de luz, água, transporte, funcionários, audiências públicas e qual o resultado prático até agora?
         Nenhum. Os professores militantes continuam militando dentro das salas de aula, fazendo a cabeça das nossas crianças e jovens. Não é que não se discuta e mostre a política para os alunos. Mas os professores têm que ensinar sobre as várias correntes e ideias, sobre capitalismo, sobre liberalismo, conservadorismo, nazismo, socialismo, fascismo, sem tomar nenhum partido, sem querer que os alunos sigam suas próprias convicções.
         Não precisa todo esse auê. É tão simples resolver isso.
         Basta o Presidente Bolsonaro demitir por justa causa os professores que agem como militantes porque eles estão infringindo artigos da grande lei, a Constituição. Todo mundo não fala em respeito à Constituição? Esquerda, Direita, Centro e Lados Oblíquos todos não são unânimes em defesa da Constituição?
         Então. Justa causa neles.


Do livro (inédito) PEDAÇOS DE ALBERTO CARONTE apresento-lhes o conto:

PEQUENO DICIONÁRIO DE MULHERES


Mulher-uva

         Isto foi um marco da infância. Poderia dizer a.J. e d.J. Antes de Janete e depois de Janete. Um grande divisor de águas. Um Moisés angelical com seu cajado rachando um rio em duas metades. Nada de rio Jordão. Rio Pucumã, um riozinho quase seco durante os grandes estios, mas caudaloso e invadindo as margens verdejantes nas grandes cheias de ótimos invernos.
         Janete era a filha mais nova de uma família numerosa e abastada que viera de Tianguá e fixara residência numa cidade chamada São Domingos, porque só o tempo é memorável e faz milagres. E sem precisar de nenhuma máquina do tempo, dessas encontráveis em lixo travestido de ficção científica, o tempo vem até aqui e coloca Janete, dez anos, diante de si, ó Caronte, com seus doze anos de idade. Janete, uma morena clara, os olhos castanhos e alegres e um sorriso que por certo fazia cócegas em seus lábios. Linda, linda, linda. 
         – Alberto, vamos menino, te veste, está na hora da missa – a voz da mãe era a mão da rotina carregando Caronte todos os domingos para a missa das nove. E ele ia. A infância toda seria assim e talvez toda sua vida, não fosse Janete.
         Moravam num casarão, Caronte, seu pai e sua mãe. E mais uma família. Um primo seu, casado e com filhos, a esposa dele era costureira, ótima profissional. E foi por isso que Janete entrou por aquela porta e na vida dele, Caronte.
Acabaram os dois, juntos, correndo no imenso quintal, cheio de laranjeiras, mangueiras, cajueiros, e ela, além de correr, pulou dentro do coração e do sangue do menino Caronte, com seus desejos sólidos e líquidos. Sólido, seu membro duro. Líquido, suas lágrimas verdadeiras.
         Janete chegou pela primeira vez para provar um vestido justamente num domingo quase às nove horas. Ela entrou e, com tal visão diante dos seus olhos, Caronte não teve dúvidas. Inventou uma doença, uma dor de cabeça ou de barriga qualquer, na qual sua mãe acreditou piamente tão perfeita foi sua representação da tal enfermidade, e lá se foi ela sozinha com seu missal negro e seu véu branco.
Ele ficou em casa tirando uma onda de doente, e curtindo momentos apaixonados em companhia daquela jovenzinha que viera alegrar esse e outros domingos mais que os cânticos religiosos das missas dominicais.

Mulher-jaca

Era sua adolescência. Na pequenina Pucumã, mais estreita em mentalidade que em coordenadas geográficas, Caronte estava se sentindo só e oprimido. Só, porque nesta idade os jovens não reconhecem os próprios pais, tanto vão se afastando um do outro o que foi e o que virá. Oprimido porque, por conta do seu mal comportamento e bebedeiras, não havia mais uma garota na cidade disposta a, com ele, flertar, namorar, ficar. Os pais jamais aprovariam e uma ou outra que tentava desobedecer a proibição paterna era sempre vítima de algum castigo familiar.
A vida seguia seu rumo, com seus acontecimentos rotineiros e suas, para Caronte, benditas exceções. Como aquela grande festa organizada pela juventude pucumãnense onde seria coroada a rainha do coco babaçu, acontecimento anual que punha toda a juventude em polvorosa. A alegria pairava no ar, pois só se viam jovens em grupo, rindo e falando muito, visitando o comércio local, vendendo convites, arrecadando donativos e prêmios que seriam distribuídos às primeiras colocadas no concurso de beleza local.
Sabedor de que das cidades vizinhas chegariam rapazes e moças atraídos por aquela festa que já era uma tradição esperada por todos durante onze meses, Caronte viu naquilo uma oportunidade para se dar bem. Arranjar alguma namoradinha, bonita de preferência, pois as feias que o perdoassem, mas como ele havia lido no poeta Vinicius de Moraes “beleza é fundamental”.
Chegou o sábado da festa que se completava no domingo, quando a turma de jovens, num caminhão fretado, se dirigia à vizinha cidade de Colinas para um refrescante banho no rio Itapecuru.
O diabo é que nosso jovem Caronte, alegre e ansioso, angustiado e aflito, esperançoso e sôfrego, começou a encher a cara de cerveja, cachaça, conhaque Frei Damião ainda cedo da tarde. À noite, na tão gloriosa e esperada festa, nem sabe como chegou, nem o que se passou, somente em alguns momentos o cara tinha sopros de lucidez e visualizava um acontecimento ou outro. Ouvia quando a orquestra atacava uma música ou outra.
Lembra de sentar à mesa com alguns amigos que insistiram para que ele fizesse uma boquinha. Frango assado, carne do sol, farofa, de tudo mordiscou um pouquinho, bebeu um refrigerante ali mesmo na boca da garrafa e em dado momento os vapores do álcool pareceram dissipar-se quase por completo. Justamente na hora que os músicos entraram com os acordes da música Poema do Adeus, sucesso do cantor Miltinho, e uma das suas preferidas, quando o álcool lhe fazia cócegas no cérebro e o amor ou a paixão beliscavam seu coração qual um pássaro faminto.
Caronte pediu licença aos amigos, levantou-se e atravessou o salão de festas num passo de zigue-zague e parou diante daquela garota que lhe pareceu um anjo de formosura caído dos céus, mas enviada do município de Tuntum para que não passasse em brancas nuvens e fosse motivo de gozação dos colegas no dia seguinte. A maioria estava dançando, rostinho colado, ou então parados ao lado de uma garota, mãos entrelaçadas, a paquera correndo solta.
Chegara a sua vez e ele saiu castigando o bolero e na certa os pés da garota, que ninguém sabe quantas vezes foram pisados, mas o flerte engatou e Caronte passou o resto da festa, ou de mãos dadas com a menina, ou dançando, abraçando, beijando, acariciando, tudo meio de leve que a moral ali não permitia certos avanços.
Domingo de manhã, mais morto que vivo de ressaca, Caronte saiu de casa se preparando para se juntar à turma e irem curtir um gostoso banho no Rio Itapecuru, na vizinha cidade de Colinas. Ia em companhia de um amigo e, ao se aproximarem da turma, perguntou ao amigo qual era a garota com quem tinha ficado na festa, pois nem de sua fisionomia se lembrava direito.
O amigo então lhe apontou uma morena baixinha, de pernas tortas, arqueadas mais que pernas de cowboys pelo costume da montaria. Caronte quis voltar diante daquela garota que para ele, tão exigente em termos de beleza feminina, aquela garota se assemelhava mais com uma aparição do inferno. E o pior é que viu a garota destacar-se do grupo e caminhar na direção dele e do seu amigo.
Rápido, falou para o amigo: “Vou simular um desmaio, jogar-me no chão e tu avisa pra ela que é um ataque de epilepsia e que vais ter que ir me deixar em casa”. E assim fez, jogou-se ao chão, todo trêmulo, baba escorrendo do canto da boca, revirando os olhos entre gemidos e saracoteios.
E assim terminou aquela promessa de passeio dominical em companhia dos amigos. Preferiu ficar ali mesmo no seu Pucumã, bebendo cerveja, a ter que pagar um mico, diante dos colegas, em companhia daquela garota que mais parecia uma jaca. (Continua na próxima semana)
Texto Final 
Raimundo Fontenele