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11 de jan. de 2017

DO OIAPOQUE AO CHUÍ

A coluna QUARTA É DIA DE RF do nosso blog Literatura Limite (www.literaturalimite.com.br) apresenta hoje mais um capítulo do livro em série DO OIAPOQUE AO CHUÍ.

Brasil enorme que parece ser vários países (e é!), Raimundo Fontenele fala sobre a nossa pluralidade cultural ao contar a viagem que Gabriel faz com seu tio, do Rio Grande do Sul ao Pará. Mas não se trata de um livro daqueles que só trata de paisagens exóticas e costumes regionais. DO OIAPOQUE AO CHUÍ é uma narrativa concisa, que menciona aspectos interessantes de nossas cidades para o leitor conhecer os costumes e diversidades de nosso país.
– De um lado e outro dessa Belém-Brasília, terra. Se a gente olhar para a esquerda, terra; para a direita, terra; para frente, terra; para trás, terra; para baixo...
– E aposto que se ficares de ponta cabeça até em cima verás terra... – me atalhou o tio Marcos, sorrindo.
– Você está me gozando, tio. Mas não consigo entender. É como diz o Chaves: “não tem por onde” entender uma coisa dessas. – Lembrando uma pergunta que queria fazer: – Ah, tio Marcos, qual é a capital do Tocantins?
– Palmas. É uma cidade que está sendo construída ainda, mas já é bastante próspera. É uma região muito rica esta aqui. Madeira e ouro fazem nascer qualquer cidade da noite para o dia. Satisfeito?
– Claro, perguntei só o nome da capital, mas o senhor sempre dá um toque a mais.
Às vezes me pegava achando que gostava mais do tio Marcos do que do pai. É que ele tem um jeito legal de tratar com as pessoas. Tanto faz ser criança ou adulto, homem ou mulher, rico ou pobre, ele termina conquistando a gente.
Dia 23, uma segunda-feira, de manhã, nos despedimos e tomamos a estrada para Santarém. De lá, fomos de táxi até a fazenda de tio Marcos, distante umas duas horas do centro da cidade. Fomos recebidos pelo caseiro, seu Manoel Tatu e a mulher, dona Esmeraldina. Como eles diz\em naquela região, o casal tinha uma “penca” de filhos. Contei oito. De todos os tamanhos e idades. O mais velho tinha 22 e o mais novo tinha 4. E dona Esmeraldina estava grávida de novo.
– Barriga de quatro meses, no mínimo – cochichou tio Marcos no meu ouvido, notando como eu estava curioso e abobado com tanta criança.
Aquela vida e os dias passados ali parecem um sonho. Às vezes tio Marcos me acordava cedinho, cinco horas da manhã e me levava até o curral, onde tomávamos uma caneca de leite quentinho, tirado da vaca naquele momento pelo seu Manoel Tatu. O leite vinha quente e espumando e o gosto nada tem a ver com o desse leite industrializado que a gente toma.
A propriedade de tio Marcos chamava-se Fazenda Estrela Vermelha, Havia uma grande placa de madeira na entrada com o nome escrito em letra vermelha. Tio Marcos explicou que colocara aquele nome durante sua breve passagem pelo Partido Comunista, ainda nos anos sessenta.
– Vê como são as coisas, Gabriel. Foi justamente no meu período comunista que me tornei proprietário – e tio Marcos piscou-me o olho, que era também seu jeito de ser irônico e debochado.
A Fazenda Estrela Vermelha tinha umas cem cabeças de gado e ele estava começando uma plantação de soja. Mas o tio ajudava toda aquela gente necessitada. Ele dizia que a falta de investimentos e industrialização daquela região era uma das causas do atraso e da miséria daquela gente. A outra causa, a primeira, era a falta de educação e consciência do povo.
Era comum no café da manhã dona Esmeraldina servir uma bebida de cor roxa, uma espécie de suco, açaí, também chamada de Jussara no Maranhão. Elas comem  com açúcar e farinha de mandioca, uma farinha amarela e de grãos do tamanho de um grão de arroz, farinha de puba, ou de carema, assim chamavam. Eu preferia adoçar e tomar normalmente como um suco qualquer. Mas a farinha de mandioca é um dos alimentos mais consumidos pelos habitantes do norte e nordeste. É talvez a contribuição mais forte da cozinha indígena.
Nas duas vezes em que tio Marcos foi até o centro de Santarém e me convidou a ir com  ele, eu disse que não queria, preferia ficar brincando com os filhos do caseiro. Estava gostando daquela tranquilidade.
Mas o motivo era outro. Eu andava dando uns amassos na filha mais velha do seu Manoel Tatu. Chamava-se Cristina e tinha doze anos. Morena de cabelos e olhos pretos, olhos puxados como os dos índios e dos japoneses. Mas bonita de doer. Uma prenda que dava de dez a zero na maioria dessas gatinhas da cidade.
Ficava me sentindo meio culpado por causa da Selminha. Tio Carlos disse que era assim mesmo. Nada de culpa ou remorso. A gente tem de aproveitar a vida. Não pode desperdiçar um momento, deixar escapar nenhuma presa.
Em Porto Alegre, quando lhe falei da viagem, ela fez o maior auê. Disse que eu tinha prometido passar uns dias com ela na praia, aquelas coisas que as garotas inventam quando querem chorar, ou nos deixar preocupados, ou chateados, ou até mesmo as duas coisas juntas.
Ela brigou comigo, chorou um pouco, e aí ficou tudo legal entre a gente. Disse que ia lhe escrever assim que chegasse na fazenda do tio e foi o que fiz.

“Santarém, 28 de janeiro de 1997

Selminha,
Mil beijos.

Desde que cheguei aqui que não paro de pensar em ti. Gata, tu não imaginas como isso aqui é longe. Agora eu sei que existe o fim do mundo.
Tudo que faço é pescar, tomar banho de rio e andar a cavalo. Melhor do que bike. E fica tranqüila que não tem nenhuma garota aqui na fazenda. É só eu, tio Marcos e um casal de velhos que toma conta da propriedade.
Puxa, Selma! Nem sei como te contar tudo que vi e aprendi. O Brasil é um país imenso, cada região é diferente da outra.
O calor aqui é de matar. Faz sol o dia inteiro, e calor dia e noite. O ano todo assim. Até mudei de cor.
O povo é alegre e comunicativo. Fico até encabulado quando as pessoas me cercam para ouvirem o jeito que eu falo. A mesma diferença que eu vejo neles eles veem em mim. Por exemplo: a letra O que a gente pronuncia ô, eles pronunciam ó. E o E, nosso ê para eles vira é. E o O no final das palavras é pronunciado como se fosse U.
Do Amazonas até o Piauí o Bumba-meu-boi é uma das maiores festas do folclore do norte e nordeste. E o tio diz que é uma manifestação cultural rica e forte. Faz parte do dia a dia das pessoas. Assim como no Rio de Janeiro algumas comunidades  vivem única e exclusivamente em função das escolas de samba, aqui algumas localidades vivem em função do Bumba-meu-boi, ensaiando e dançando quase o ano inteiro.
Tá vendo como estou sabido?
E tu, guria, aprontando muito?
Não deixa aquele panaca do Euclides ficar dando em cima de ti. Se tenho ciúme é porque te gosto muito.
Sinto falta do meu som. Aqui o que eles mais ouvem é aquela música chamada carimbo, lambada, esses troços. Esses ritmos quentes, cheios de tambores e atabaques. Não é minha praia.
Selminha, vou terminar te enviando um beijão daqueles e um forte abraço nos teus ´velhos´.
Beijos, beijos, beijos.
Gabriel”.
Tio Marcos acordava cedo, pegava um jeep velho da fazenda, e ia d uma casa a outra, conhecia todo mundo ao redor.Gostava de conversar, de fazer amigos, cercar-se de pessoas, sempre falando, rindo, gesticulando. Na beira do rio, conversava com pescadores e lavadeiras, se informava de tudo, da vida de cada um, dos problemas que estavam enfrentando. E deixava todo mundo animado e esperançoso.
Quando saímos da beira do rio, ele comentou comigo:
– O Paulo Francis, um dos maiores jornalistas brasileiros de todos os tempos, tinha razão. Não posso deixar de concordar com ele quanto a essa gente. São pouco as manifestações culturais realmente profundas. Assim não pode haver transformação. Ignorância, miséria e crendice é tudo o que a gente vê por aqui. Na véspera do século XXI, essa região é igual àquela África mais desgraçada e miserável que a gente vê todos os dias na tevê.
– Falou e disse, tio – concordei, batendo palmas. – Se fosse candidato, você estava eleito.
–  Mais respeito comigo, guri – brincou o tio para demonstrar o quanto detestava os nossos políticos.
De novo com o pé na estrada.
De Santarém fomos de avião até Fortaleza, a bonita capital do Ceará.
Ficamos hospedados no Hotel Sobral, localizado na Avenida Monsenhor Tabosa. Nessa avenida ficava também o Seminário da Prainha, onde o tio Marcos havia sido seminarista durante apenas dois anos. Segundo ele dizia, foi expulso porque um colega fofocou para o Reitor do seminário que ele estava beijando uma garota na sacristia da igreja.
– O que era pura verdade – completava rindo.
Fortaleza é umas das principais cidades nordestinas, com uma população de quase dois milhões de habitantes. Importante centro comercial e cultural do nordeste, com três universidades. E é um dos grandes pólos turísticos do país, principalmente pela suas praias, como Iracema, do Futuro e Meireles.
São atração turística as feiras de artesanato, com muita renda e palha, e os monumentos históricos. O Passeio Público, o Teatro José de Alencar e a casa onde nasceu o autor de Iracema e O Guarani, na cidade de Mecejana, próxima à capital cearense, são alguns deles.

 (PARTE FINAL NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA)

Raimundo Fontenele

7 de dez. de 2016

DO OIAPOQUE AO CHUÍ

A coluna QUARTA É DIA DE RF do nosso blog Literatura Limite (www.literaturalimite.com.br) apresenta hoje o livro em série DO OIAPOQUE AO CHUÍ que conta a viagem que Gabriel faz com seu tio, do Rio Grande do Sul ao Pará. Mas não se trata de um livro daqueles que só trata de paisagens exóticas e costumes regionais. DO OIAPOQUE AO CHUÍ é uma narrativa concisa, que menciona aspectos interessantes de nossas cidades para o leitor conhecer os costumes e diversidades de nosso país.

DO OIAPOQUE AO CHUÍ


– Até sexta no tatame, bicho.
O Maurinho é fogo. Já que estava tudo bem entre nós, não lhe custava nada colocar um pouquinho de lenha na fogueira com aquela história de tatame. Para me lembrar como eu tinha ido mal, e ele, provavelmente bem, hoje à tarde na aula de judô. Mas como é que ele soube disso se quando cheguei pro treino ele estava de saída? Será que ficou por ali, azarando, pensando sobre a nossa discussão anti e pró-droga? O Maurinho tinha mesmo uma pegada firme e uma rapidez fora do comum. Dizia, ou sonhava, melhor dizendo, que ia ser campeão olímpico.
Quando eu brincava com ele, dizendo “campeão olímpico, Maurinho? Você já tem quinze anos e não ganhou nada até agora!”, ele retrucava, rindo:
– O Maguila, depois de velho, não chegou lá? Por que eu também não posso?
– Ah, mas o Maguila só existiu por causa da Band e do Luciano do Valle. – Quando eu dizia isso, a gente enveredava por uma discussão ridícula, mas apaixonada. E acabávamos, com ginga de boxeadores, nos socando de brincadeira e rindo à toda.
Nem o pai nem a mãe estavam em casa. Só a empregada, Ana. Eu vivia louco para dar uns amassos nela. Mas ela séria demais para o meu gosto. Nunca ria. Para os outros, podia ser. Comigo era sempre de cara amarrada. Mas eu não ia desistir.
Quem sabe quando eu voltasse da viagem não teria mais sorte?! Ia ser um cara viajado, igual ao tio Marcos, com muita história para contar. Podia ser que ela ficasse interessada em conhecer como era a vida lá no norte. É, quando eu voltasse, a Ana ia ver que eu não era mais nenhum garotinho.
Terminei de jantar e fui até a cozinha, levando meu prato. Na verdade, era só uma desculpa para ver Ana.
– Olha aqui o prato, Ana – falei.
– Ah, neném, não precisava trazer. Eu mesma ia pegar lá na mesa.
Ela não imaginava como eu ficava pê da vida com aquele papo de neném. Porque eu sabia que ela não dizia aquilo de forma carinhosa, nem estava minimamente interessada em mim. Na verdade, para ela eu não passava mesmo de um guri, uma criança...
Retornei à sala no justo momento em que a chuva voltava a cair. Passava das dezenove horas, a chuva continuava caindo em grossos pingos, dando a impressão de que tão cedo não iria parar.
Liguei a TV no canal MTV que, no verão, tinha uma programação especial. Entrevistas, gincanas e brincadeiras conduzidas pelo João Gordo, do Ratos de Porão. Um verdadeiro sarro. Em seguida, entravam os clips musicais, com as bandas mais pesadas do planeta.
Ana já tinha ido embora, nem esperou a chuva passar. Ela não dormia no serviço. Portanto, estava sozinho em casa e louco para que aquele dilúvio acabasse. Tinha ficado de ir até a casa de tio Marcos, não sabia ao certo o que ele desejava falar comigo. Era sobre a viagem, mas o quê?
O telefone toucou pela segunda vez, atendi e era o tio.
– E aí, como está esse nortista? – brincou ele.
– Ah, tio essa maldita chuva...
– Não fala assim, Gabriel. Bendita chuva, rapaz. Isso é o que a gente deve dizer.
– É que fiquei de ir aí hoje à noite, se lembra? Você mesmo me convidou. E côo esta chuva fica difícil eu sair. Nem o pai nem a mãe estão em casa para me darem uma carona.

– Não te preocupa. Amanhã a gente conversa. Foi pra isso que te liguei.
Tio Marcos me conhecia bem.  Sabia que eu estava tri-ansioso para ir à casa dele e tratava de me acalmar. Acho que me conhecia  até mais que o pai, que raramente conversava comigo. Estava sempre ocupado com a papelada do banco.
Dez horas da manhã Tio Marcos tocou a campainha do apartamento. Eu estava em companhia da MTV e do Chico Science (que morreu faz pouco, 30 anos apenas, num desastre de carro) e Nação Zumbi. Eles fazem um som que chamam de mangue-beat: uma mistura de maracatu, forró, frevo, baião, rock, rap, o diabo. E letras iradas, falando da miséria do nordeste, dos catadores de caranguejos nos mangues de Recife e de outras importantes cidades do litoral nordestino como Salvador, Maceió, Fortaleza, São Luís.
O grupo está fazendo o maior sucesso, até na Europa já fizeram uma tournée. Os caras que entendem e escrevem sobre música não poupam elogios ao pernambucanos da hora.
Abri a porta e o Tio Marcos entrou com a pasta de couro marrom, da qual ele não se desgrudava nunca. Eu tinha a maior curiosidade em saber o que havia de tão importante naquela pasta, para tio Marcos estar sempre com ela, fosse onde fosse.
Morava sozinho, na Rua Botafogo, Bairro Menino Deus, em uma casa de dois pavimentos, grande demais para uma pessoa. Tio Marcos vivia insistindo com o pai para me deixar morar com ele, ao que o velho respondia, com seu costumeiro mau humor:
– Corta essa, Marcos. Contigo esse guri só vai aprender sacanagem.
Tio Marcos jogou-se no sofá da sala, um metro e oitenta desabando, a camisa empapada de suor.
– Essa hora da manhã e já esse calor dos infernos – praguejou, enxugando-se com um lenço. Depois, dirigiu-se a mim:
– Gabriel, me vê aí uma água gelada, um suco, refrigerante, uma pedra de gelo, qualquer coisa fria, meu filho. Senão vou virar o Tocha Humana.
Fui na geladeira e peguei um litro com suco natural de maracujá. Tio Marcos virou uns três copos em alguns segundos. Estalou a língua, satisfeito.
– Tio Marcos – falei –, estou na maior dúvida. Depois que você saiu, dei uma nova olhada na passagem “Porto Alegre – Brasília”, é esse o trecho marcado no bilhete. Não vá me dizer que você quer fazer turismo em Brasília...
Tio Marcos interrompeu antes que eu dissesse mais besteiras.
– Gabriel, já falei isso um monte de vezes. Não tem ônibus direto daqui para Santarém, nem para várias outras cidades do norte. Temos deir por Brasília, ou então via Rio ou São Paulo.
– É, tio, lembrei agora.
Ele ficou falando e aguçando o meu apetite. Não íamos logo para Santarém, como eu pensava. Primeiro a gente ia até a cidade de Imperatriz, no Maranhão. O tio tinha um primo lá, chamado Pedro Netto. Fazia anos que não se viam. E os dois foram criados praticamente juntos, além de terem sido companheiros na juventude, nos anos de esbórnia,  como o tio falava. E enchia a boca com a palavra es-bór-ni-a, que se tornava mais gorda e mais redonda.
De Imperatriz, onde o tio planejava ficar uma semana, a gente seguiria para Santarém. E na volta ele ia dar uma chegada a Fortaleza. Tinha velhos e grandes amigos na capital cearense. Íamos também demorar pelo menos uns três dias em Recife e, claro, não podíamos deixar de ir curtir uma praia carioca, quando chegássemos na cidade maravilhosa de São Sebastião, o Rio de Janeiro. Várias perguntas que eu fazia ficavam sem resposta.
– Não adianta, Gabriel. Pode perguntar à vontade. A resposta tu só terás ao vivo, quando chegares nesses lugares.
(CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA)


Raimundo Fontenele

24 de nov. de 2016

DO OIAPOQUE AO CHUÍ

A coluna QUARTA É DIA DE RF do nosso blog Literatura Limite (www.literaturalimite.com.br) apresenta hoje o livro em série DO OIAPOQUE AO CHUÍ que conta a viagem que o adolescente Gabriel faz com seu tio, do Rio Grande do Sul ao Pará. Mas não se trata de um livro daqueles que só trata de paisagens exóticas e costumes regionais. DO OIAPOQUE AO CHUÍ é uma narrativa concisa, que menciona aspectos interessantes de nossas cidades para o leitor conhecer os costumes e diversidades de nosso país.
  
DO OIAPOQUE AO CHUÍ


– Vamos, Gabriel! Ainda não arrumaste a mala, guri?
– O que, tio? Você está falando sério?
– Olha aqui as passagens, rapaz. Pensas que estou brincando?
Tio Marcos é demais. Eu não podia ter melhor presente de aniversário do que esta viagem. Estava esperando por ela há um tempão.
Alguns do meus colegas de aula já tinham ido a Disney. Chegaram contando maravilhas. Nunca me entusiasmei nem um pouco com o que me contaram. Para mim era como se estivesse vendo TV. Montanha russa, parque de diversões, pistas de roller, trem-fantasma, videogame, desde os dez anos que me desinteressei por este tipo de divertimento. Agora, com doze, o que eu queria de verdade era conhecer o Brasil por dentro.
E tudo por causa de tio Marcos, que é uma espécie de meu herói favorito. Até porque ele está aqui, é de carne e osso, ao alcance da mão. Não é como Wolverine, Batman ou o Demolidor que só existem na imaginação dos roteiristas de histórias em quadrinhos.
Claro que as aventuras do tio Marcos nem chegam aos pés das vividas pelos heróis dos quadrinhos, E pode até ser que ele aumente algum perigo ali, alguma ação corajosa aqui, porém é apenas para tornar a história de sua vida mais atraente.
Mas tio Marcos conhece o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. E de tanto de falar das viagens que fez, dos lugares que conheceu, das pessoas com quem aprendeu sempre algo diferente, não penso em outra coisa.
Por isso, quando meu pai me perguntou o que eu queria de presente pelos meus doze anos, não pensei duas vezes:
– Quero ir com o tio Marcos, quando ele for visitar sua fazenda no Pará.
– Mas, filho, naquele fim de mundo? Aquilo lá é só índio. – E, a seguir, falou para mãe:
– Marta, esse guri tem cada ideia... Ouviste essa?
– Essa o quê, Jorge?
A mãe largou o trabalho na cozinha e veio até o escritório onde eu e o pai estávamos. Eu, largadão no sofá. Ele, sentado à escrivaninha, com seus documentos do banco e calculadora. Ele é gerente de uma agência do Banco do Brasil e está sempre cheio de trabalho, tanto no banco quanto em casa.
Ele tirou os óculos e os limpou enquanto falava:
– Pensei que ele ia querer uma moto de presente, e ele me vem com história de caçar jacaré. Quer ir para Santarém, lá para a fazenda do teu irmão.
– Deixa o guri, Jorge. Apesar da pouca idade, ele é quem sabe o que é melhor para ele. E tem mais: passou por média em todas as matérias. Merece o que pede, não achas?
– Mas, Marta, aquilo lá é perigoso... – meu pai tinha ainda contra-atacado, sem êxito, capitulando enfim.
– Santa ignorância, Jorge. Acho que tu é quem estás precisando fazer essa viagem. Belém, Santarém são cidades antigas, têm tradição e cultura. No tempo da Província do Grão Pará-Maranhão...
– Aula de história para cima de mim não, Marta. Não agora. Eu prefiro ficar aqui debruçado sobre esses balanços do banco. E se tiver de viajar, minha escolha é Nova York. Quanto à viagem de Gabriel, tudo bem.

Aquela conversa tinha sido no final de novembro, eu tinha feito doze anos no dia 20 de dezembro. Agora estamos em janeiro. E estou na sala em companhia de tio Marcos e não do pai e da mãe. Com as passagens na mão, não escondo a alegria:
– Que bacana, tio! Até que enfim chegou o momento que tanto esperei. – Confere a data de embarque, acrescentando: –E é no próximo dia 14, dentro de dez dias, que legal. Que legal!
Abracei tio Marcos, enquanto lhe devolvia as passagens. Ele alisou-me a cabeça, e destacou o meu bilhete de passagem, que me entregou, dizendo:
– Guarda contigo, mas cuidado para não perderes. Sem ele, adeus viagem. – Piscou-me o olho direito, com aquele jeito de sorrir que só ele tinha – Agora tenho de ir. Nem sabes quanto coisa tenho de fazer nestes dez dias, antes do nosso embarque.
– Nem acredito, tio. Uma viagem do Oiapoque ao Chuí! – Eu estava superagitado.
– Primeiro: não é do Oiapoque ao Chuí. Segundo: já que estamos no sul, é do Chuí ao Caburaí.
– Que é isso, tio. Assim, não estou entendendo mais nada. Caburaí? Que raio é isso?
– Ora, Gabriel. Nada é imutável. Tudo está mudando de lugar, de cor, de forma, essência, a todo momento. É a lei da natureza. Mutatis mutandis.  O tio era metido a poliglota. Mas desses que não conseguem fazer uma frase completa em língua estrangeira. De vez em quando, mete lá um muchacho, um voglio bene, um três Jolie, numa frase. E só. Mas eu acho que o certo é mutatis mutantis. E ele continuou: – E como tudo muda, o ponto extremo norte do Brasil também mudou: é um tal de Monte Caburaí.
– E onde fica isso, tio?
– No estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela. Mas agora tenho mesmo de ir, Gabriel. Passa lá em casa depois da janta. Precisamos acertar alguns detalhes da viagem. – E o tio bateu em retirada, enquanto eu, eufórico, prometia:
– Não se preocupe, tio. Vou sim. Sete da noite, m ponto, vou estar lá.
– Então, tchau, guri.
– Tchauzão, tio.  
Quando fiquei só, a primeira pergunta que me veio, foi: será que eu vou conseguir dormir até chegar o dia da viagem? E a segunda: será que vai demorar até as sete da noite?
            Olhei o relógio de pulso: 15h20min. Nossa, faltavam só quarenta minutos para a aula de judô. Ainda bem que a escola era na Avenida Assis Brasil e daqui do Jardim Ipiranga o ônibus leva no máximo dez a doze minutos.
Tinha bastante tempo ainda. Pensei: vou tomar um banho frio, está um calor de rachar, fervendo mesmo. No mínimo uns trinta e seis graus. A tarde mais quente do ano, segundo a meteorologia das emissoras de rádio e tevês.
            Tomei um banho bastante demorado, assoviando uma música da Turma do Balão Mágico e tentando adivinhar o que me esperava naquela viagem. Tio Marcos que me desculpasse, mas eu ia crivar ele de perguntas até a hora da partida.
            Depois do banho peguei o material e fui para a academia de judô. Quando eu ia entrando, dei de cara com o Maurinho, que saía do treinamento.
             – E aí, Gabriel, tudo certo?
            – Certíssimo, Maurinho. Certissimamente certo – falei, todo contente.
– O que foi, cara, que alegria é essa? O velho te deu a moto? Foi isso? – O Maurinho tinha quinze anos e há pouco havia ganho uma moto de presente. Será que ele achava que a única coisa que pode alegrar um adolescente é uma moto? Tinha estampado na sua cara um enorme sim.
– Que nada, cara! – respondi. – Dia 14 embarco com tio Marcos para Santarém, bicho.
– Santarém? E onde diabo fica isso, cara? No Japão, na lua?
– Não, Maurinho. Em Marte. Pô, cara, deixa de burro. Santarém é uma das principais cidades do Pará.
Olhei o relógio e vi que dava para espichar aquele papo com o Maurinho por mais uns dez minutos. Era o tempo que faltava para o início da aula.
– Revisão de geografia: você sabe qual a distância daqui até lá?
– Não faço a mínima ideia  – respondeu um pensativo Maurinho. – É, mas deve ser longe, né?
– Mais de 5.000 quilômetros. Tio Marcos diz que é chão que não acaba mais.
Maurinho recostou-se no portão da academia e retirou um maço de cigarros e um isqueiro da mochila. Acendeu um, fazendo pose de Nicola Cage, no filme Coração Selvagem, com quem ele se achava parecido. Ofereceu-me um cigarro. Não me segurei.
– Qual é a tua, hein, cara? Praticando judô, respiração, meditação, pra quê? Você mal saiu do treino e já está se envenenando desse jeito.  (CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA-FEIRA)

Raimundo Fontenele